{"id":4058,"date":"2019-08-25T07:59:50","date_gmt":"2019-08-25T10:59:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4058"},"modified":"2019-08-25T07:59:50","modified_gmt":"2019-08-25T10:59:50","slug":"nas-entrelinhas-as-mil-e-uma-noites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-as-mil-e-uma-noites\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: As Mil e Uma Noites"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cO governo corre atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo, inclusive quando atribui ao aquecimento global a ocorr\u00eancia das queimadas. Trata-se de um argumento a mais para preservar a Amaz\u00f4nia\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o mais fiel e sofisticada de As Mil e Uma Noites \u00e9 do explorador ingl\u00eas Sir Richard Francis Burton, em 16 volumes, lan\u00e7ada entre 1885 e 1888, com suas notas sobre as culturas persa e \u00e1rabe e relatos de h\u00e1bitos sexuais, inclusive de homossexualismo masculino e feminino. O cl\u00e1ssico da literatura fant\u00e1stica \u00e9 uma colet\u00e2nea de hist\u00f3rias reunidas durante s\u00e9culos, inicialmente surgidas na \u00cdndia, por volta do s\u00e9culo 3. Seus g\u00eanios, metamorfoses de animais e semideuses lembram o imagin\u00e1rio hindu\u00edsta. Essas hist\u00f3rias viajaram pela P\u00e9rsia, contadas pelos mercadores, sendo reunidas, a primeira vez, numa colet\u00e2nea an\u00f4nima intitulada Hezar Afsaneh (\u201cOs Mil Contos\u201d), na qual j\u00e1 apareciam o sult\u00e3o Chahriar e sua esposa infiel, Sheherazade.<\/p>\n<p>Traduzidos para o \u00e1rabe, por volta do s\u00e9culo 8, ganhou carga heroica e forte influ\u00eancia isl\u00e2mica, inclusive no t\u00edtulo, por causa da supersti\u00e7\u00e3o de que n\u00fameros redondos d\u00e3o azar. Por isso, passou a se chamar As Mil e Uma Noites. H\u00e1 tr\u00eas vers\u00f5es \u00e1rabes, uma s\u00edria, uma eg\u00edpcia antiga e outra eg\u00edpcia tardia. Por volta de 1700, as hist\u00f3rias chegaram ao Ocidente, traduzidas pelo franc\u00eas Antoine Galland, de um manuscrito do ramo s\u00edrio do s\u00e9culo 13, no qual incluiu as hist\u00f3rias de Ali bab\u00e1 e os Quarenta Ladr\u00f5es, Aladim e As Viagens de Simb\u00e1, o marujo.<\/p>\n<p>Burton (1821-1890) \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte. Antrop\u00f3logo, espi\u00e3o, espadachim e poeta, foi c\u00f4nsul brit\u00e2nico em Santos e escreveu tr\u00eas livros sobre o Brasil. Ex-aluno de Oxford, como capit\u00e3o da Companhia das \u00cdndias brit\u00e2nica explorou a \u00cdndia, o Oriente M\u00e9dio e a \u00c1frica. Em 1856, disfar\u00e7ado de m\u00e9dico afeg\u00e3o, peregrinou a Meca e visitou a Caaba \u2013 santu\u00e1rio supremo dos mu\u00e7ulmanos. Logo depois, viajou \u00e0 cidade santa de Harar, na Eti\u00f3pia, de onde nenhum homem branco jamais sa\u00edra com vida. Em 1858, realizou o feito pelo qual \u00e9 mais lembrado: descobriu o Lago Tanganica. A jornada, em companhia do explorador John Speke, que depois se tornou um desafeto, foi retratada em 1990 no filme As Montanhas da Lua. Speke descobriu o Lago Vit\u00f3ria, mas erroneamente concluiu que seria a nascente do Nilo, contra a opini\u00e3o de Burton.<\/p>\n<p>Burton falava 26 l\u00ednguas e tamb\u00e9m traduziu os cl\u00e1ssicos da literatura er\u00f3tica Kama Sutra e o Jardim Perfumado, al\u00e9m do \u00e9pico renascentista Os Lus\u00edadas, de Cam\u00f5es. Suas tradu\u00e7\u00f5es e relatos antropol\u00f3gicos escandalizaram a sociedade vitoriana da \u00e9poca, a ponto de sua mulher queimar seus manuscritos, mas isso n\u00e3o impediu a rainha Vit\u00f3ria de lhe conceder o t\u00edtulo de Sir, em 1896, por servi\u00e7os prestados \u00e0 Inglaterra no \u201cgrande jogo\u201d no Oriente, a disputa por \u00e1reas de influ\u00eancia com outras pot\u00eancias europeias, sobretudo a Fran\u00e7a e a R\u00fassia. Quatro anos depois, Burton morreu em Trieste, na It\u00e1lia, passando \u00e0 hist\u00f3ria como aventureiro erudito e temer\u00e1rio. Sofria de depress\u00e3o, era viciado em \u00f3pio, haxixe e bebidas alco\u00f3licas e, ao morrer, revelou cicatrizes nas costas que levantaram suspeitas de que havia se convertido ao sufismo, uma linha m\u00edstica do islamismo.<\/p>\n<p><b>Erro de conceito<\/b><\/p>\n<p>Numa das passagens de As Mil e Uma Noites, o sult\u00e3o diz para Sheherazade: \u201cAquele que n\u00e3o sabe adaptar-se \u00e0s realidades do mundo sucumbe infalivelmente aos perigos que n\u00e3o soube evitar. Aquele que n\u00e3o prev\u00ea a consequ\u00eancia dos seus atos n\u00e3o pode conservar os favores do s\u00e9culo\u201d. Parece sob encomenda para o presidente Jair Bolsonaro, que hoje, Dia do Soldado, completa 237 dias no poder, em meio a uma crise internacional sem precedentes, provocada por ele mesmo, por causa de um brutal erro de conceito na sua estrat\u00e9gia de governo em rela\u00e7\u00e3o a um dos quatro principais temas da atualidade: a sustentabilidade. Os outros s\u00e3o a democracia , o crescimento econ\u00f4mico e as desigualdades.<\/p>\n<p>Nada como um dia atr\u00e1s do outro. A atmosfera n\u00e3o tem fronteiras, a quest\u00e3o ambiental deixou de ser um assunto nacional ap\u00f3s a Confer\u00eancia do Clima, da qual o Brasil foi um dos principais protagonistas. Quando se erra no conceito, quanto maior o \u00edmpeto na estrat\u00e9gia, maior o desastre. A narrativa de Bolsonaro potencializou a crise internacional, que estava escrita nas estrelas por causa do desmantelamento da pol\u00edtica ambiental e dos \u00f3rg\u00e3os de controle, fiscaliza\u00e7\u00e3o e combate ao desmatamento. Foi uma sucess\u00e3o de erros cometidos quase que diariamente, al\u00e9m de uma subestima\u00e7\u00e3o das implica\u00e7\u00f5es internacionais que o assunto tem, por uma vis\u00e3o ideologizada das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e uma postura provinciana e chauvinista.<\/p>\n<p>Bolsonaro perdeu a batalha da comunica\u00e7\u00e3o no terreno em que se achava imbat\u00edvel, as redes sociais, e o Brasil enfrenta in\u00e9dito isolamento internacional, cujo pre\u00e7o pode ser a ado\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es pelos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia contra as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de carne e de soja, por causa do avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola na Amaz\u00f4nia. O governo corre atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo, inclusive quando atribui ao aquecimento global a ocorr\u00eancia das queimadas, comparando-as aos inc\u00eandios que ocorrem nos Estados Unidos e na Europa pela mesma raz\u00e3o. Trata-se, por\u00e9m, de um argumento a mais para preservar a Amaz\u00f4nia. Bolsonaro ainda tem mais de mil e uma noites para repensar suas pol\u00edticas e recuperar o preju\u00edzo, pois ainda lhe restam 1224 dias de mandato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO governo corre atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo, inclusive quando atribui ao aquecimento global a ocorr\u00eancia das queimadas. 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