{"id":4104,"date":"2019-09-15T06:38:23","date_gmt":"2019-09-15T09:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4104"},"modified":"2019-09-15T07:50:05","modified_gmt":"2019-09-15T10:50:05","slug":"nas-entrelinhas-sob-o-signo-de-jano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sob-o-signo-de-jano\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sob o signo de Jano"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<b><i>\u00c9 preciso defender uma sociedade na qual a comunica\u00e7\u00e3o cotidiana e o discurso da vontade possibilitem uma vida melhor e mais segura, num ambiente de plena liberdade\u201d<\/i><\/b><\/p>\n<p>O mito romano de Jano (do latim Janus ou Ianus) era representado com duas cabe\u00e7as, simbolizando os t\u00e9rminos e os come\u00e7os, o passado e o futuro, o dualismo relativo de todas as coisas. No seu templo, as portas principais ficavam abertas em tempos de guerra e eram fechadas durante a paz. Era o deus tutelar de todos os come\u00e7os, patrono de todos os finais. O principal monumento em sua gl\u00f3ria se encontra em Roma, no Museu do Vaticano: o busto Ianus Geminus. N\u00e3o \u00e0 toa, Jano acabou escolhido para representar o primeiro m\u00eas do ano do calend\u00e1rio romano (janeiro, do latim januarius), pelo imperador Numa Pomp\u00edlio (715-672 a.C.).<\/p>\n<p>Sua representa\u00e7\u00e3o de caras opostas, uma olha para frente e outra olha para tr\u00e1s, pode ser entendida como se examinasse as quest\u00f5es por todos os seus aspectos. O fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o J\u00fcngen Habermas, um dos expoentes da famosa Escola de Frankfurt e da tradi\u00e7\u00e3o da teoria cr\u00edtica e do pragmatismo, em novembro de 1984, numa palestra no parlamento espanhol, invocou a imagem de Jano para falar sobre o car\u00e1ter inacabado da modernidade. Habermas dedicou a vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da pol\u00edtica deliberativa e da esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, estudava a crise do Estado de bem-estar social e o esgotamento das energias ut\u00f3picas, tema que abordou no seu discurso, intitulado a Nova obscuridade, cujas notas est\u00e3o reunidas numa colet\u00e2nea de textos publicada com o mesmo nome no Brasil, pela Editora Unesp (2011). Passaram-se quase 35 anos, desde ent\u00e3o, suas previs\u00f5es se consolidaram em muitos aspectos. De fato, houve uma mudan\u00e7a de paradigma da sociedade do trabalho para a sociedade da comunica\u00e7\u00e3o. Essa mudan\u00e7a explica muito do que est\u00e1 acontecendo hoje no Brasil, principalmente na pol\u00edtica.<\/p>\n<p><b>As utopias<\/b><\/p>\n<p>Nas utopias da ordem, entre as quais est\u00e3o o velho \u201csocialismo real\u201d comunista e o Estado de bem-estar social-democrata, as dimens\u00f5es de felicidade e da emancipa\u00e7\u00e3o se conflu\u00edam com aquelas da intensifica\u00e7\u00e3o do poder e da produ\u00e7\u00e3o de riqueza social. Segundo Habermas, os projetos de forma de vida racionais entravam em uma simbiose ilus\u00f3ria com a domina\u00e7\u00e3o racional da natureza e com a mobiliza\u00e7\u00e3o das energias sociais: \u201cA raz\u00e3o instrumental desencadeada em for\u00e7as produtivas e a raz\u00e3o funcionalista desdobrando-se em capacidades de organiza\u00e7\u00e3o e planejamento deveriam abrir caminho para a vida humana digna, igualit\u00e1ria e ao mesmo tempo libert\u00e1ria\u201d. Essa foi a grande ilus\u00e3o da sociedade do trabalho.<\/p>\n<p>A esquerda brasileira sempre pautou a atua\u00e7\u00e3o na centralidade do trabalho. De certa forma, a elei\u00e7\u00e3o do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e a chegada do PT ao poder, erroneamente, simbolizaram o coroamento dessa concep\u00e7\u00e3o, mas ela j\u00e1 estava ultrapassada pela sociedade da comunica\u00e7\u00e3o e a economia do conhecimento. Al\u00e9m disso, o transformismo e a degenera\u00e7\u00e3o no poder deixaram de lado essas utopias. A esquerda que n\u00e3o se corrompeu disp\u00f5e de ferramentas te\u00f3ricas para fazer esse diagn\u00f3stico, mas n\u00e3o consegue, porque \u00e9 prisioneira de velhos dogmas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 antiga sociedade industrial e ao valor do trabalho na gera\u00e7\u00e3o de riquezas.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi \u00e0 toa que se viu surpreendida nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es pelo surgimento de novos atores pol\u00edticos, com ideias diametralmente opostas, alguns dos quais at\u00e9 obscurantistas e reacion\u00e1rios, mas que souberam ocupar o v\u00e1cuo pol\u00edtico criado pela ultrapassagem da sociedade do trabalho e suas formas de representa\u00e7\u00e3o (sindicatos, partidos oper\u00e1rios etc.) e operar no \u00e2mbito da nova sociedade da comunica\u00e7\u00e3o, numa disputa que se assemelha muito \u00e0 guerra entre os taxistas e os motoristas do Uber (perd\u00e3o pela simpl\u00f3ria compara\u00e7\u00e3o). A elei\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro n\u00e3o deixa de ser, no plano da disputa pelo poder, um fen\u00f4meno associado a essas mudan\u00e7as.<\/p>\n<p><b>Condi\u00e7\u00e3o humana<\/b><\/p>\n<p>A despedida dos conte\u00fados ut\u00f3picos da sociedade do trabalho, por\u00e9m, n\u00e3o fecha a dimens\u00e3o ut\u00f3pica da consci\u00eancia hist\u00f3rica e da confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas exige uma mudan\u00e7a de eixo: a centralidade est\u00e1 na defesa da democracia. Nesse aspecto, \u00e9 sempre bom lembrar a cr\u00edtica de Hannah Arendt \u00e0s ideias centradas no trabalho, porque levaram e ainda levam a solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias para a sociedade. Segundo ela, a condi\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 relacionada a tr\u00eas atividades fundamentais que caracterizam a vida: \u201clabor\u201d (o processo biol\u00f3gico do corpo humano), \u201ctrabalho\u201d (a cria\u00e7\u00e3o de objetos e transforma\u00e7\u00e3o da natureza) e \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d (a \u00fanica atividade que independe da medi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e se correlaciona com a condi\u00e7\u00e3o humana da pluralidade). O que determina a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 o agir e pensar politicamente, da\u00ed a import\u00e2ncia vital do espa\u00e7o p\u00fablico e das liberdades.<\/p>\n<p>Eis uma chave para olhar o passado e o futuro, como Jano. \u00c9 preciso defender uma sociedade na qual a comunica\u00e7\u00e3o cotidiana e o discurso da vontade possibilitem uma vida melhor e mais segura, num ambiente de plena liberdade, no qual todos possam dar sua efetiva contribui\u00e7\u00e3o. O \u201clugar de fala\u201d n\u00e3o basta como conte\u00fado ut\u00f3pico da sociedade da comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 por meio da a\u00e7\u00e3o que os homens s\u00e3o capazes de demonstrar quem s\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 preciso defender uma sociedade na qual a comunica\u00e7\u00e3o cotidiana e o discurso da vontade possibilitem uma vida melhor e mais segura, num ambiente de plena liberdade\u201d O mito romano de Jano (do latim Janus ou Ianus) era representado com duas cabe\u00e7as, simbolizando os t\u00e9rminos e os come\u00e7os, o passado e o futuro, o dualismo relativo de todas as coisas. 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