{"id":4125,"date":"2019-09-22T09:20:10","date_gmt":"2019-09-22T12:20:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4125"},"modified":"2019-09-22T09:20:10","modified_gmt":"2019-09-22T12:20:10","slug":"nas-entrelinhas-os-novos-cruzados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-novos-cruzados\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Os novos &#8220;cruzados&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>H\u00e1 que separar os setores tradicionais que sempre defenderam o car\u00e1ter laico do Estado daqueles que ambicionam uma esp\u00e9cie de nova teocracia\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No contexto da participa\u00e7\u00e3o do Brasil na cena internacional, cujo ponto crucial ser\u00e1 o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), no pr\u00f3ximo dia 24 de setembro, um sinal preocupante foi a participa\u00e7\u00e3o do governo brasileiro na C\u00fapula da Demografia, em Budapeste, na qual o primeiro-ministro h\u00fangaro Viktor Orb\u00e1n, sugeriu uma esp\u00e9cie de cruzada antiglobaliza\u00e7\u00e3o e em defesa do cristianismo mais conservador. O Brasil foi representado pela ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que reiterou a disposi\u00e7\u00e3o de o governo brasileiro liderar um bloco ultra-conservador na ONU.<\/p>\n<p>Como se sabe, as cruzadas foram movimentos militares que partiram da Europa Ocidental com objetivo de conquistar a Palestina e tomar Jerusal\u00e9m, que estava sob controle dos turcos mu\u00e7ulmanos. Foram nove cruzadas, um movimento quase permanente, que mobilizou a nobreza, camponeses e desocupados por mais de 200 anos, e se transformou numa alternativa de ascens\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social. Ironicamente, ajudaram a acabar com o isolamento das sociedades feudais e fortalecer o com\u00e9rcio entre Oriente e Ocidente, principalmente no mar Mediterr\u00e2neo. Hoje, a express\u00e3o tem significado mais pol\u00edtico e ideol\u00f3gico do que militar.<\/p>\n<p>Em Portugal, que liderou uma das cruzadas, a morte do jovem rei Dom Sebasti\u00e3o, em 1578, na batalha de Alc\u00e1cer-Quibir, deu origem ao sebastianismo, um movimento m\u00edstico-secular que ocorreu durante a segunda metade do s\u00e9c. XVI. Como n\u00e3o possu\u00eda herdeiros, o trono de Portugal ficou sob o manto do poderoso rei Filipe II, da Espanha. Criou-se uma lenda de que o Rei ainda estaria vivo, esperando o momento certo para retomar o trono e afastar o rei estrangeiro. O mito sebastianista nada mais \u00e9 do que a esperan\u00e7a de chegada de um salvador, mesmo que fosse necess\u00e1rio um verdadeiro milagre, como a ressurrei\u00e7\u00e3o do rei morto, D. Sebasti\u00e3o, o Desejado.<\/p>\n<p>No Brasil, o sebastianismo popular se manifestou na cren\u00e7a de chegada de um \u201crei bom\u201d e at\u00e9 hoje est\u00e1 presente em manifesta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas, como a Folia de Reis. Influenciou movimentos populares de Norte a Sul, sendo o mais significativo o de Canudos, no sert\u00e3o da Bahia, no qual Antonio Conselheiro pregava que D. Sebasti\u00e3o retornaria dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil, o que foi motivo para a interven\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Foram necess\u00e1rias quatro campanhas militares para derrotar os jagun\u00e7os de Canudos. O livro Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, narra em detalhes essa trag\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p><b>Neopentecostais<\/b><\/p>\n<p>O mito sebastianista se manifesta de diferentes formas, mas todas t\u00eam como ponto de refer\u00eancia o surgimento de um \u201csalvador da p\u00e1tria\u201d. Por isso mesmo, serve de caldo de cultura para o nosso velho populismo. N\u00e3o \u00e0 toa, o presidente Jair Bolsonaro \u00e9 chamado de &#8220;Mito\u201d por seus seguidores mais apaixonados. A facada que recebeu em plena campanha eleitoral e as quatro cirurgias dela decorrentes refor\u00e7am essa ideia no imagin\u00e1rio de seus seguidores. A forte rela\u00e7\u00e3o de Bolsonaro com as igrejas neopentecostais tamb\u00e9m alimenta seu carisma, ainda mais por causa do forte engajamento pol\u00edtico dessas correntes na pol\u00edtica, que ultrapassou a fronteira entre o desejo de reconhecimento e o efetivo exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>H\u00e1 que separar, por\u00e9m, os setores tradicionais que sempre defenderam o car\u00e1ter laico do Estado, at\u00e9 por causa dos antigos v\u00ednculos entre a Igreja Cat\u00f3lica e o Estado, daqueles que ambicionam uma esp\u00e9cie de nova teocracia. Depois do fracasso dos calvinistas franceses, nas invas\u00f5es do Rio de Janeiro (1555) e Maranh\u00e3o (1594), o protestantismo chegou ao Brasil no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, com os anglicanos (1816), devido \u00e0 presen\u00e7a inglesa ap\u00f3s a Abertura dos Portos(1808) por Dom Jo\u00e3o VI. Gra\u00e7as \u00e0 liberdade religiosa, depois vieram congregacionistas (1855), presbiterianos (1859), metodistas (1867), batistas (1881), episcopais (1889) e luteranos (1900).<\/p>\n<p>Mesmo com a Congrega\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 do Brasil (1910) e a Assembl\u00e9ia de Deus (1911), somente na d\u00e9cada de 1950, o movimento pentecostal brasileiro se fragmentou, com o surgimento das igrejas Evangelho Quadrangular (1954), Igreja do Nazareno (1958) e Crist\u00e3 de Nova Vida (1960). A cis\u00e3o desses movimentos deu origem \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es pentecostais brasileiras: Brasil para Cristo (1955), do mission\u00e1rio Manoel de Mello e Silva; Deus \u00e9 Amor (1962), de David M Miranda; e Casa da B\u00ean\u00e7\u00e3o (1964), de Doriel de Oliveira.<\/p>\n<p>O movimento que d\u00e1 mais sustenta\u00e7\u00e3o a Bolsonaro, por\u00e9m, \u00e9 formado por igrejas pentecostais que fazem uso intensivo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, com \u00eanfase em milagres, curas e prosperidade pessoal: Igreja Universal do Reino de Deus (1977), de Edir Macedo; Igreja da Gra\u00e7a de Deus (1980), de R.R. Soares; a Renascer em Cristo (1986), de Estevam e S\u00f4nia Ernandes; Sara Nossa Terra (1992), de Robson Rodovalho; e Poder de Deus (1998), de Valdemiro Santiago. Hoje, devido \u00e0 nova legisla\u00e7\u00e3o eleitoral, se transformaram em poderosas for\u00e7as pol\u00edticas, que v\u00e3o disputar as prefeituras nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es municipais, como no Rio de Janeiro, em raz\u00e3o da facilidade de montar chapas de vereadores e levantar recursos financeiros, ao lado do desgaste dos partidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cH\u00e1 que separar os setores tradicionais que sempre defenderam o car\u00e1ter laico do Estado daqueles que ambicionam uma esp\u00e9cie de nova teocracia\u201d No contexto da participa\u00e7\u00e3o do Brasil na cena internacional, cujo ponto crucial ser\u00e1 o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), no pr\u00f3ximo dia 24 de setembro, um sinal preocupante foi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[176,28,46,4,92,3,9,384],"tags":[130,213,386,395,514],"class_list":["post-4125","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidades","category-cultura","category-eleicoes","category-governo","category-literatura","category-politica","category-politica-2","category-religiao","tag-bolsonaro","tag-eleicoes","tag-populismo","tag-religiao","tag-onu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4125","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4125"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4125\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4132,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4125\/revisions\/4132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}