{"id":4134,"date":"2019-09-25T08:05:42","date_gmt":"2019-09-25T11:05:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4134"},"modified":"2019-09-25T08:06:43","modified_gmt":"2019-09-25T11:06:43","slug":"nas-entrelinhas-o-brasil-encolheu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-brasil-encolheu\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O Brasil encolheu"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cDiplomatas experientes e especialistas avaliam que a pol\u00edtica externa de Bolsonaro levou o Brasil ao isolamento. Seu discurso na ONU aprofunda essa situa\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o raros os momentos na hist\u00f3ria do Brasil em que o pa\u00eds andou para tr\u00e1s. Sem d\u00favida, um deles foi no segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, quando mergulhamos numa recess\u00e3o sem precedentes, cujo \u00f4nus at\u00e9 hoje n\u00e3o foi revertido. Mais raros ainda s\u00e3o os momentos em que o pa\u00eds diminuiu de tamanho em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais na\u00e7\u00f5es do mundo. Ontem foi um dia assim, em raz\u00e3o do agressivo e radical discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), na qual reiterou posi\u00e7\u00f5es ultraconservadoras, antiambientalistas e antiglobalistas.<\/p>\n<p>Por suas dimens\u00f5es continentais e m\u00e9rito de nossa diplomacia, todo presidente brasileiro goza do privil\u00e9gio de abrir a Assembleia-Geral da ONU. \u00c9 um legado de gera\u00e7\u00f5es de diplomatas, que todo presidente da Rep\u00fablica, inclusive os militares, procuraram honrar. Essa tradi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou na segunda Assembleia-Geral da hist\u00f3ria, quando discursou o ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Oswaldo Aranha.<\/p>\n<p>Seja para evitar as tens\u00f5es entre Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que come\u00e7avam a se estranhar na famosa Guerra Fria, seja pelo fato de o pa\u00eds ter ficado de fora do Conselho de Seguran\u00e7a, n\u00e3o se sabe ao certo, esse privil\u00e9gio se manteve ao longo dos anos, sem que houvesse qualquer texto ou norma da ONU que determine a sua obrigatoriedade. Por isso mesmo, a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o Brasil buscar um ponto de equil\u00edbrio, um posicionamento que corresponda ao consenso majorit\u00e1rio, fugindo dos confrontos entre as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que se viu ontem, por\u00e9m, foi o presidente brasileiro fazer um discurso duro, quase belicoso, que elegeu como advers\u00e1rios os \u00edndios, os ambientalistas, alguns l\u00edderes europeus e seus advers\u00e1rios de sempre: os l\u00edderes da Venezuela, de Cuba e dos partidos que integram o Foro de S\u00e3o Paulo. Foi um discurso para o p\u00fablico bolsonarista, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e outros l\u00edderes conservadores com os quais se alinha. Nossos mais experientes diplomatas, de forma p\u00fablica ou velada, n\u00e3o escondem o desconforto com o teor do discurso de Bolsonaro. Foi um tiro no pr\u00f3prio p\u00e9.<\/p>\n<p>Entre diplomatas experientes e especialistas em rela\u00e7\u00f5es internacionais, \u00e9 quase un\u00e2nime a avalia\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica externa de Bolsonaro levou o Brasil ao isolamento. Seu discurso na ONU aprofundar\u00e1 essa situa\u00e7\u00e3o, em especial por causa da quest\u00e3o ambiental e do confronto aberto com o presidente franc\u00eas, Emmanuel Macron, que lidera a C\u00fapula da Clima. Seu alinhamento incondicional com Donald Trump na pol\u00edtica internacional parece coisa daquele menino encrenqueiro que arruma confus\u00e3o porque conta com a prote\u00e7\u00e3o de um primo grandalh\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 assim que as coisas funcionam na pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p><b>Aliados na berlinda<\/b><br \/>\nBolsonaro deveria prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao que acontece com seus aliados mais importantes, antes de confrontar os principais chefes de Estado do Ocidente. Matteo Salviani, o primeiro-ministro da It\u00e1lia, tentou antecipar as elei\u00e7\u00f5es e acabou perdendo o cargo. Em Israel, Benjamin Netanyahu, do Likud, corre o risco de perder o cargo de primeiro-ministro para Benny Gantz, do Azul e Branco, que topa fazer um governo de coaliz\u00e3o, mas, com apoio dos partidos \u00e1rabes, quer ser o primeiro-ministro. Na Inglaterra, o novo primeiro-ministro, Boris Jonhson, tentou suspender o Parlamento na marra, para impor o Brexit sem acordo com a Uni\u00e3o Europeia, por\u00e9m acabou levando uma invertida da Suprema Corte brit\u00e2nica, que considerou sua decis\u00e3o inconstitucional, o que agora pode lhe custar o cargo.<\/p>\n<p>Para completar o inferno astral dos aliados, o presidente norte-americano Donald Trump, que discursou na ONU logo ap\u00f3s Bolsonaro, recebeu a not\u00edcia de que a C\u00e2mara dos Representantes dos Estados Unidos abriu um processo de impeachment contra ele. Segundo a deputada democrata Nancy Pelosi, por telefone, Trump teria pressionado o presidente da Ucr\u00e2nia, Volodimir Zelenski, para que este investigasse o filho de um de seus principais advers\u00e1rios, Joe Biden. \u201cIsto \u00e9 uma quebra da Constitui\u00e7\u00e3o americana\u201d, afirmou a presidente da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>O tipo de diplomacia praticada por Bolsonaro tem desses problemas. Rela\u00e7\u00f5es entre pa\u00edses devem ser duradouras e estruturantes, n\u00e3o podem se basear apenas no relacionamento pessoal e afinidade ideol\u00f3gica dos governantes. Bolsonaro critica os ex-presidentes Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff por privilegiar aliados pol\u00edticos por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas, sem levar em conta os reais interesses do Brasil. Est\u00e1 fazendo a mesma coisa com sinal trocado, com a diferen\u00e7a de que, em vez de ampliar as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, est\u00e1 se isolando.<\/p>\n<p>O alinhamento autom\u00e1tico com Trump, por exemplo, \u00e9 uma armadilha em termos de com\u00e9rcio mundial, pois a guerra cambial entre os Estados Unidos e a China n\u00e3o \u00e9 um bom negocio para o Brasil, que hoje tem nos chineses nossos principais parceiros comerciais. Esse \u00e9 um dos fatores de redu\u00e7\u00e3o dos investimentos no Brasil, por causa da retra\u00e7\u00e3o do crescimento mundial provocado por essa guerra comercial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDiplomatas experientes e especialistas avaliam que a pol\u00edtica externa de Bolsonaro levou o Brasil ao isolamento. Seu discurso na ONU aprofunda essa situa\u00e7\u00e3o\u201d S\u00e3o raros os momentos na hist\u00f3ria do Brasil em que o pa\u00eds andou para tr\u00e1s. 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