{"id":4168,"date":"2019-10-06T07:44:25","date_gmt":"2019-10-06T10:44:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4168"},"modified":"2019-10-06T07:44:25","modified_gmt":"2019-10-06T10:44:25","slug":"nas-entrelinhas-como-envelhecer-mais-rapido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-como-envelhecer-mais-rapido\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Como envelhecer mais r\u00e1pido"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cBolsonaro protagoniza pol\u00eamicas nas quais o governo n\u00e3o tem a menor chance de sair ganhando. Transforma em gigantes advers\u00e1rios que combatiam \u00e0 sombra\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com apenas nove meses de mandato, o presidente Jair Bolsonaro deixa a sensa\u00e7\u00e3o de que seu governo envelhece muito r\u00e1pido. Na pol\u00edtica, percep\u00e7\u00e3o \u00e9 decisiva para quase tudo, sendo absoluta para a constru\u00e7\u00e3o da imagem. O governo come\u00e7a a dar um cansa\u00e7o na sociedade por causa de decis\u00f5es intempestivas e pol\u00eamicas, motivadas por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas de cunho ultraconservador e religioso, sem que os resultados apregoados para a economia aconte\u00e7am no tempo que os eleitores esperavam. J\u00e1 n\u00e3o estamos falando dos 100 dias de governo, estamos nos aproximando do fim do ano. Os setores em mais evid\u00eancia na Esplanada s\u00e3o os que colecionam problemas; os mais focados nos resultados trabalham em sil\u00eancio obsequioso.<\/p>\n<p>Bolsonaro tem culpa nesse cart\u00f3rio, porque protagoniza pol\u00eamicas nas quais o governo n\u00e3o tem a menor chance de sair ganhando. Transforma em gigantes advers\u00e1rios que combatiam \u00e0 sombra, como o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, no caso da morte do pai, Fernando Santa Cruz, durante o regime militar, e o quase nonagen\u00e1rio cacique caiap\u00f3 Raoni, que virou do dia para a noite um forte candidato ao Nobel da Paz. Sua implic\u00e2ncia preconceituosa com artistas, ambientalistas, ativistas dos direitos humanos, jornalistas e gays n\u00e3o acrescenta absolutamente nada ao desempenho positivo de seu governo, somente aumenta a fric\u00e7\u00e3o com setores que formam opini\u00e3o p\u00fablica na velha e nas novas m\u00eddias.<\/p>\n<p>Nicolau Maquiavel j\u00e1 dizia que o sucesso do pr\u00edncipe depende da virt\u00f9 e da fortuna. Quando a fortuna muda, certas virtudes viram defeitos que podem at\u00e9 ser fatais. Indiscutivelmente, Bolsonaro \u00e9 um homem bafejado pela sorte, sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia \u00e0 facada em Juiz de Fora na campanha eleitoral serve de exemplo. Al\u00e9m de milagroso (Bolsonaro acredita nisso piamente), o epis\u00f3dio foi decisivo para que o \u201cmito\u201d se tornasse imbat\u00edvel na elei\u00e7\u00e3o. Nesse quesito, portanto, n\u00e3o h\u00e1 adversidade. Exemplo de ambiente favor\u00e1vel ao governo \u00e9 a blindagem patrocinada pelo Congresso ao ministro da Economia, Paulo Guedes, entre outras coisas, com a aprova\u00e7\u00e3o da reforma da Previd\u00eancia, que deve ser conclu\u00edda neste m\u00eas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 a virt\u00f9 mesmo. Em certa passagem das Mil e Uma Noites, o vizir diz \u00e0 filha Xerazade: \u201cAquele que n\u00e3o prev\u00ea as consequ\u00eancias dos seus atos n\u00e3o pode conservar os favores do s\u00e9culo\u201d. \u00c9 a\u00ed que mora o perigo para Bolsonaro. Seu problema n\u00e3o \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o, ainda que sua ret\u00f3rica procure manter a polariza\u00e7\u00e3o com a esquerda tradicional e o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que cumpre pena em Curitiba, por considerar a estrat\u00e9gia eleitoral mais segura para a reelei\u00e7\u00e3o. Exemplo: a pol\u00edtica ambiental, na qual o governo corre atr\u00e1s dos preju\u00edzos e continuar\u00e1 correndo por um bom tempo. Agora, sua pol\u00edtica indigenista agride o grande legado do marechal C\u00e2ndido Rondon, dos irm\u00e3os Villas Boas e de Darcy Ribeiro, entre outros. E pode reverter o crescimento da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no Brasil, que \u00e9 a medida do sucesso da estrat\u00e9gia de demarca\u00e7\u00e3o de suas terras.<\/p>\n<p><b>Desigualdades<\/b><\/p>\n<p>Nesse rumo, \u00e9 previs\u00edvel o aumento de casos de suic\u00eddios, mortes por doen\u00e7as e assassinatos de l\u00edderes ind\u00edgenas em conflitos violentos com madeireiros e garimpeiros. Se isso de fato ocorrer, aliado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, estar\u00e1 caracterizado um genoc\u00eddio. Bolsonaro subestima a repercuss\u00e3o internacional que isso pode ter, assim como o papel do \u00edndio na forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional. N\u00e3o se d\u00e1 conta de que todo brasileiro fala a l\u00edngua dos \u00edndios, na nossa culin\u00e1ria, na topon\u00edmia e at\u00e9 mesmo no h\u00e1bito de tomar dois ou mais banhos por dia. No Brasil, as fam\u00edlias miscigenadas s\u00e3o a maioria, raras n\u00e3o t\u00eam o arqu\u00e9tipo de uma \u201ctatarav\u00f3\u201d \u00edndia que pitava no quintal e fazia beiju.<\/p>\n<p>Mas o ponto mais fraco de Bolsonaro ainda \u00e9 a economia. Herdou 13 milh\u00f5es de desempregados e uma curva ascendente de desigualdade, na qual apenas 2,7% das fam\u00edlias acumularam 20% do total da renda entre os anos de 2017 e 2018, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), na sexta-feira. As fam\u00edlias brasileiras tiveram uma renda m\u00e9dia de R$ 5.426,70, por\u00e9m, 23,9% delas viviam com um or\u00e7amento mensal de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos. Esse percentual corresponde a um contingente com cerca de 44,8 milh\u00f5es de pessoas em 16,5 milh\u00f5es de fam\u00edlias. Por possu\u00edrem os mais baixos valores recebidos, representam apenas 5,5% da renda nacional, ainda que as transfer\u00eancias governamentais respondam por 19,5% do total de renda do brasileiro.<\/p>\n<p>Focada no equil\u00edbrio fiscal, na desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho e na simplifica\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Bolsonaro aposta no mercado para enfrentar os problemas do trabalho e da renda, sem se dar conta de que o \u201ctatcherismo\u201d se esgotou e agravou a desigualdade no mundo. O melhor exemplo \u00e9 a Inglaterra, pa\u00eds desenvolvido, cuja renda m\u00e9dia est\u00e1 abaixo dos indicadores da Uni\u00e3o Europeia, que ainda tem regi\u00f5es de m\u00e9dio ou baixo desenvolvimento. No seu livro Desigualdade, o que pode ser feito?, o economista brit\u00e2nico Anthony B. Atkinson mostra que \u00e9 imposs\u00edvel combater a desigualdade sem a interven\u00e7\u00e3o do governo e a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, isto \u00e9, poupadores, investidores, trabalhadores e empregadores. Acontece que o envelhecimento precoce do governo abriu esse debate e antecipou a principal agenda eleitoral de 2022, ao lado da defesa da democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro protagoniza pol\u00eamicas nas quais o governo n\u00e3o tem a menor chance de sair ganhando. Transforma em gigantes advers\u00e1rios que combatiam \u00e0 sombra\u201d Com apenas nove meses de mandato, o presidente Jair Bolsonaro deixa a sensa\u00e7\u00e3o de que seu governo envelhece muito r\u00e1pido. Na pol\u00edtica, percep\u00e7\u00e3o \u00e9 decisiva para quase tudo, sendo absoluta para a constru\u00e7\u00e3o da imagem. 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