{"id":422,"date":"2016-04-16T09:48:01","date_gmt":"2016-04-16T12:48:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=422"},"modified":"2016-05-11T07:45:38","modified_gmt":"2016-05-11T10:45:38","slug":"onde-foi-que-nos-separamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/onde-foi-que-nos-separamos\/","title":{"rendered":"Onde foi que nos separamos?"},"content":{"rendered":"<p>Tenho me perguntado: por que alguns amigos do antigo\u00a0Partid\u00e3o est\u00e3o se tornando cr\u00edticos implac\u00e1veis \u00e0s minhas colunas no Correio Braziliense e outros, a maioria, concordam comigo? Onde foi que a vida separou nossos caminhos? Quais s\u00e3o as matrizes te\u00f3ricas que influenciam nosso posicionamento? N\u00e3o estou me referindo \u00e0 milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, porque as sucessivas crises de dire\u00e7\u00e3o do PCB desde a anistia, o enfraquecimento da dire\u00e7\u00e3o principal com os sequestros e assassinatos de importantes quadros e, por fim, o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a mudan\u00e7a de sigla e s\u00edmbolo com a funda\u00e7\u00e3o do PPS explicam a di\u00e1spora comunista. Estou me referindo \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica geral que herdamos \u00a0da Declarac\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958 e que foi consolidada no 6o. Congresso do PCB, em 1967, com a pol\u00edtica de frente \u00fanica, a defesa da redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a autocr\u00edtica dos erros cometidos antes do golpe de 1964, li\u00e7\u00f5es que formaram a minha gera\u00e7\u00e3o de militantes do partido, ap\u00f3s o grande racha liderado por Carlos Marighella.<br \/>\nPenso que h\u00e1 duas linhas de for\u00e7a que orientam o posicionamento dos meus cr\u00edticos:<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5\">Primeiro, uma concep\u00e7\u00e3o de mundo que denomino de <\/span>brejneviana<span style=\"line-height: 1.5\">, porque fortemente influenciada pelo pensamento do PCUS nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, no qual o te\u00f3rico comunista que dava as cartas era <\/span>Mikhail <span style=\"line-height: 1.5\">Suslov<\/span><span style=\"line-height: 1.5\">.<\/span><span style=\"line-height: 1.5\">\u00a0O esquema de an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mundial se baseava na ideia de que o eixo da revolu\u00e7\u00e3o mundial era a defesa da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos seus sat\u00e9lites na Europa Oriental, em torno dos quais deveriam se unir os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e o movimento oper\u00e1rio e sindical. A guerra-fria era a baliza para atua\u00e7\u00e3o dos comunistas, dentro de uma concep\u00e7\u00e3o de luta de classes na qual o <\/span><span style=\"line-height: 1.5\">antiimperialismo<\/span><span style=\"line-height: 1.5\"> era a chave da revolu\u00e7\u00e3o mundial. Desse ponto de vista, o equil\u00edbrio estrat\u00e9gico militar entre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os Estados Unidos era a premissa das mudan\u00e7as em cada pa\u00eds da periferia (China, Cuba, Vietn\u00e3, Ir\u00e3, col\u00f4nias portuguesas, ditaduras de um modo geral), mas nunca na Europa Ocidental (Gr\u00e9cia, It\u00e1lia e Portugal).<\/span><\/p>\n<p>Segundo, uma vis\u00e3o nacional-desenvolvimentista de car\u00e1ter fortemente positivista, na qual a luta em defesa dos interesses nacionais estava acima da defesa da democracia, vista como um instrumento para a combina\u00e7\u00e3o do trabalho legal contra a ditadura, a defesa dos direitos humanos e das liberdades democr\u00e1ticas, e o trabalho ilegal, a organiza\u00e7\u00e3o do partido, e n\u00e3o como um valor universal. A invers\u00e3o do par dial\u00e9tico, para subordinar o nacional ao democr\u00e1tico, somente veio a ocorrer em 1983, ap\u00f3s o 7o. Congresso do PCB, assim mesmo com uma vis\u00e3o muito economicista. Nela, , o papel do Estado passou a ser absolutizado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tarefas de car\u00e1ter econ\u00f4mico e social, no melhor estilo bolchevique. \u00c9 quando a ideia de que o capitalismo de Estado seria a chave para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira ganhou for\u00e7a. Essa vis\u00e3o, protagonizada por sovi\u00e9ticos, alem\u00e3es orientais e franceses, passou a influenciar direta ou indiretamente outros setores da esquerda brasileira. Segundo\u00a0Afanasyev, que oficializou a doutrina no PCUS, o capitalismo monopolista de Estado \u00e9 a &#8220;fus\u00e3o do Estado burgu\u00eas com o poder dos monop\u00f3lios&#8221;. Ora, se o capitalismo de Estado \u00e9 a antessala do socialismo, como dizia L\u00eanin, basta tomar o poder e preserv\u00e1-lo para criar as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as ideias de que a luta de classes \u00e9 o motor da Hist\u00f3ria, ou seja, a parteira das mudan\u00e7as, e de que o partido oper\u00e1rio \u00a0\u00e9 a parte consciente do proletariado e a vanguarda da revolu\u00e7\u00e3o social completam o esquema de an\u00e1lise. Por isso, diante da crise atual, n\u00e3o importa que o transformismo petista e o voluntarismo decorrente das ideias acima tenham desaguado na crise que estamos vivendo. O fundamental \u00e9 a esquerda no poder permanecer encastelada no estado brasileiro, custe o que custar.<br \/>\nIdeias err\u00f4neas e ultrapassadas, em algum momento,\u00a0j\u00e1 fizeram algum sentido, porque idealizam solu\u00e7\u00f5es para os problemas. No nosso caso, as que foram consideradas acima, foram ultrapassadas pelas mudan\u00e7as ocorridas no mundo e no Brasil, como o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da guerra fria, a globaliza\u00e7\u00e3o, a substitui\u00e7\u00e3o da grande ind\u00fastria mecanizada (paradigma bolchevique para organiza\u00e7ao do Estado, da economia e do partido) pelo toyotismo e sistemas de produ\u00e7\u00e3o flex\u00edveis, a democratiza\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds e o desenvolvimento do capitalismo no campo. Por que elas continuam influenciando meus cr\u00edticos? Ora, porque s\u00e3o parte de uma ideologia e, por isso mesmo, uma forma distorcida de compreens\u00e3o da realidade. Marx e Engels, como nos mostra a Ideologia Alem\u00e3, nesse aspecto, n\u00e3o faziam distin\u00e7\u00e3o entre ideologia burguesa e ideologia prolet\u00e1ria. Essa \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de L\u00eanin e outros revolucion\u00e1rios ap\u00f3s a morte de Marx, \u00a0consolidada depois do racha da II Internacional Socialista. A grande obsess\u00e3o de Marx era apreens\u00e3o da realidade para transform\u00e1-la e n\u00e3o a sua representa\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o dos problemas. Nesse aspecto, o pr\u00f3prio marxismo tornou-se uma ideologia prisioneira de seus pr\u00f3prios dogmas. \u00c9 o que tamb\u00e9m est\u00e1 acontecendo com os setores da esquerda que n\u00e3o conseguem enxergar a lamban\u00e7a que fizeram ou apenas apoiam.<\/p>\n<p>Dica de filme para o fim de semana: Adeus, L\u00eanin!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KtLmXKv4AIY\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KtLmXKv4AIY<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho me perguntado: por que alguns amigos do antigo\u00a0Partid\u00e3o est\u00e3o se tornando cr\u00edticos implac\u00e1veis \u00e0s minhas colunas no Correio Braziliense e outros, a maioria, concordam comigo? Onde foi que a vida separou nossos caminhos? Quais s\u00e3o as matrizes te\u00f3ricas que influenciam nosso posicionamento? 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