{"id":4240,"date":"2019-10-27T06:50:27","date_gmt":"2019-10-27T09:50:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4240"},"modified":"2019-10-27T06:52:00","modified_gmt":"2019-10-27T09:52:00","slug":"nas-entrelinhas-coringas-e-bacuraus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-coringas-e-bacuraus\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Coringas e Bacuraus"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cO preceito de que para se construir algo \u00e9 preciso destruir o sistema preexistente \u00e9 perigoso. Combina tanto com o ultraliberalismo de direita quanto com o radicalismo de ultraesquerda\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O tema da viol\u00eancia absurda e brutal no cinema de Hollywood faz parte da pol\u00edtica de exporta\u00e7\u00e3o do americanismo, dos antigos filmes de caub\u00f3is aos modernos blockbusters de inspira\u00e7\u00e3o noir \u00e0 la Quentin Tarantino. Os ingredientes do modo de vida americano \u2014 do sonho de ascens\u00e3o social \u00e0 justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os \u2014, est\u00e3o todos l\u00e1 e v\u00e3o acompanhando as mudan\u00e7as dos tempos, mas sempre preservando o esp\u00edrito do \u201cself-made man\u201d. O filme Coringa \u00e9 uma encarna\u00e7\u00e3o desse esp\u00edrito com sinal trocado. Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) \u00e9 um palha\u00e7o com problemas psicol\u00f3gicos que toda semana precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus problemas mentais. Ap\u00f3s ser demitido, Fleck reage mal ao ass\u00e9dio moral de tr\u00eas jovens embriagados e os mata em pleno metr\u00f4. Os assassinatos catalisam um movimento popular contra a elite de Gotham City.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, houve uma grande pol\u00eamica sobre o filme, por causa de seu paralelo com o atentado de Aurora, em 2012, quando um sujeito se dizendo o Coringa, usando uma m\u00e1scara de g\u00e1s, entrou numa sess\u00e3o de cinema e disparou a esmo rajadas de uma AR-15, matando 12 pessoas e ferindo outras 70. Fam\u00edlias das v\u00edtimas resolveram protestar, o que obrigou a Warner Bros a divulgar uma nota na qual se defende, dizendo que um de seus pap\u00e9is \u00e9 provocar conversas dif\u00edceis sobre quest\u00f5es complexas: \u201cViol\u00eancia com armas de fogo \u00e9 uma quest\u00e3o cr\u00edtica na nossa sociedade. Nem o personagem ficcional Coringa, nem o filme s\u00e3o um apoio \u00e0 viol\u00eancia no mundo real\u201d.<\/p>\n<p>Diante das cr\u00edticas, o diretor Todd Phillips apelou ao p\u00fablico para que tirasse suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. \u201cO filme trata da falta de amor, trauma da inf\u00e2ncia e falta de compaix\u00e3o no mundo. Acredito que as pessoas conseguem aguentar essa mensagem.\u201d No embalo, disparou contra os cr\u00edticos: \u201cPara mim, a arte pode ser complicada e, \u00e0s vezes, a arte \u00e9 feita para ser complicada. Se voc\u00ea quer arte descomplicada, talvez voc\u00ea deva ter aulas de caligrafia, mas fazer cinema \u00e9 sempre uma arte complicada\u201d. Pura verdade.<\/p>\n<p>No Brasil, outro filme pol\u00eamico \u2014 mas sem a mesma for\u00e7a de bilheteria, apesar da carreira internacional bem-sucedida \u2014 \u00e9 Bacurau. Os diretores Kleber Mendon\u00e7a Filho e Juliano Dornelles constroem uma estranha f\u00e1bula social sobre uma cidade que desaparece e \u00e9 tomada por inimigos arrogantes, que se comportam como uma esp\u00e9cie de novos grileiros capitalistas. Bacurau \u00e9 uma comunidade rom\u00e2ntica, solid\u00e1ria, horizontal e progressista, que some do mapa quando necess\u00e1rio e transforma sua invisibilidade num trunfo contra os inimigos. Explode em viol\u00eancia. Ao contr\u00e1rio de Coringa, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 coletiva.<\/p>\n<p><b>Self-made man<\/b><br \/>\nTrata-se de uma evidente met\u00e1fora sobre a realidade brasileira, na qual a viol\u00eancia explode na fronteira entre capitalismo formal e informal, com ou sem media\u00e7\u00e3o do Estado. Para o cr\u00edtico Eduardo Viveiro de Castro, retrata a vida dos \u201cinvolunt\u00e1rios da p\u00e1tria\u201d, que nunca foram inclu\u00eddos por completo nem nos servi\u00e7os p\u00fablicos nem no mercado e, a qualquer momento, podem se tornar objetos do poder pol\u00edtico ou do interesse econ\u00f4mico: ind\u00edgenas acossados pela fronteira extrativa, camponeses cercados por posseiros e jagun\u00e7os, favelados amea\u00e7ados pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, pela pol\u00edcia, pela mil\u00edcia.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel o paralelo de Bacurau com o anti-imperialismo da esquerda tradicional, embora seu valor est\u00e9tico esteja acima disso. No El Pa\u00eds, Rodrigo Nunes invoca a necropol\u00edtica para contextualizara o filme num mundo de concentra\u00e7\u00e3o de renda astron\u00f4mica, degrada\u00e7\u00e3o ambiental crescente, recursos cada vez mais escassos e aumento das popula\u00e7\u00f5es excedentes: desempregados estruturais, refugiados clim\u00e1ticos, popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria.<\/p>\n<p>Vivemos um momento em que combina\u00e7\u00e3o de ultraliberalismo e culto da viol\u00eancia viraram narrativas de governo. Entretanto, o preceito de que para se construir algo \u00e9 preciso destruir o sistema preexistente \u00e9 perigoso. Essa ideia combina tanto com o ultraliberalismo de direita quanto com o radicalismo revolucion\u00e1rio de ultraesquerda. A incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia individual ou coletiva, quando deixa de ser uma alegoria para inspirar a a\u00e7\u00e3o, sempre acaba em trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Voltemos ao \u201cself-made man\u201d. \u00c9 uma frase cunhada em 2 de fevereiro de 1832 por Henry Clay no Senado dos Estados Unidos, para descrever indiv\u00edduos cujo sucesso residia nos pr\u00f3prios indiv\u00edduos, n\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es externas. Benjamin Franklin resumiu o conceito: \u201cQuem tem car\u00e1ter trabalha, trabalha e trabalha, vence\u201d. O problema \u00e9 que essa receita j\u00e1 n\u00e3o funciona a contento nem nos Estados Unidos. \u00a0O impacto da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na economia mundial mudou a natureza do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o, aprofundou as desigualdades e a concentra\u00e7\u00e3o da renda. \u00c9 emblem\u00e1tico o caso do Chile, o pa\u00eds mais globalizado da Am\u00e9rica do Sul, cujos indicadores s\u00e3o muito melhores do que os do Brasil. Ningu\u00e9m tem solu\u00e7\u00e3o pronta para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o. Coringa e Bacurau s\u00e3o alegorias que n\u00e3o devem se reproduzir na vida real, mas nos levam a repensar a economia e a pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO preceito de que para se construir algo \u00e9 preciso destruir o sistema preexistente \u00e9 perigoso. 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