{"id":4261,"date":"2019-11-01T07:58:26","date_gmt":"2019-11-01T10:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4261"},"modified":"2019-11-01T09:41:16","modified_gmt":"2019-11-01T12:41:16","slug":"nas-entrelinhas-mentes-reacionarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-mentes-reacionarias\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Mentes reacion\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cO AI-5, nas palavras do falecido senador Ern\u00e2ni do Amaral Peixoto, um pol\u00edtico conservador, foi \u201ca morte da pol\u00edtica\u201d. Nem por isso, a nostalgia de Eduardo Bolsonaro deixa de ser perigosa\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em A Mente Naufragada, o cientista pol\u00edtico norte-americano Mark Lilla explica que o esp\u00edrito reacion\u00e1rio difere muito do conservador. Trata-se de invocar o passado para nele viver sem transforma\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradi\u00e7\u00f5es como refer\u00eancia para agir no presente e construir o futuro. Partindo da an\u00e1lise das ideias de tr\u00eas pensadores do s\u00e9culo XX \u2014 Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss \u2014, Lilla investiga a mente reacion\u00e1ria e conclui que naufragou, porque olha para os destro\u00e7os de um passado que lhe parece amea\u00e7ado, e luta para salv\u00e1-lo, porque n\u00e3o sabe conviver com as mudan\u00e7as. Ironicamente, por\u00e9m, isso faz do reacionarismo um fen\u00f4meno \u201cmoderno\u201d no mundo da globaliza\u00e7\u00e3o e do multiculturalismo.<\/p>\n<p>Lilla nos ajuda a entender a diferen\u00e7a entre o pensamento conservador, mesmo de vi\u00e9s autorit\u00e1rio, e o pensamento reacion\u00e1rio. E \u00e9 um autor muito oportuno, porque explica o car\u00e1ter ideol\u00f3gico do movimento que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, se prop\u00f5e a organizar no Brasil no rastro da elei\u00e7\u00e3o de seu pai. O cl\u00e3 Bolsonaro flerta com a ideias propagadas pelo escritor Olavo de Carvalho, radicado nos Estados Unidos, guru da extrema direita brasileira. H\u00e1 uma diferen\u00e7a, sutil mas relevante, entre a declara\u00e7\u00e3o de Eduardo Bolsonaro a favor da reedi\u00e7\u00e3o do AI-5 em caso de mobiliza\u00e7\u00f5es de protestos semelhantes \u00e0s do Chile e a do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI), de que seria preciso estudar a forma de fazer isso. Um defendeu a volta da ditadura pura e simples; o outro, embora igualmente autorit\u00e1rio, sabe que os tempos mudaram e a hist\u00f3ria s\u00f3 se repete como trag\u00e9dia ou farsa. Diante da rea\u00e7\u00e3o negativa, o parlamentar se retratou.<\/p>\n<p>O Ato Institucional n\u00ba 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi um golpe de Estado dentro do golpe de 1964, que destituiu o presidente Jo\u00e3o Goulart. Foi o per\u00edodo de maior repress\u00e3o da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou at\u00e9 dezembro de 1978, com poder de exce\u00e7\u00e3o para punir arbitrariamente os advers\u00e1rios como inimigos de Estado. O ano de 1968 havia sido marcado por manifesta\u00e7\u00f5es estudantis em todo mundo. Eclodiram em Paris e logo chegaram ao Brasil. O lema \u201c\u00e9 proibido proibir\u201d tinha mais a ver com as mudan\u00e7as nos costumes, mas aqui se encaixou como uma luva na luta contra o regime militar.<\/p>\n<p>O ambiente era de isolamento pol\u00edtico dos militares. A Igreja atuava em defesa dos direitos humanos e as lideran\u00e7as pol\u00edticas cassadas pelo regime se uniam de forma, at\u00e9 ent\u00e3o, inimagin\u00e1vel: Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, Jo\u00e3o Goulart, com apoio do l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes, em 1967, haviam criado a Frente Ampla, cujas atividades foram suspensas pelo ministro da Justi\u00e7a, Lu\u00eds Ant\u00f4nio da Gama e Silva, em abril de 1968. O ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, exigia atestado de ideologia dos dirigentes sindicais. Mesmo assim, uma greve dos metal\u00fargicos de Osasco sinalizava que o movimento oper\u00e1rio se incorporaria \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es de massa de estudantes, intelectuais e artistas.<\/p>\n<p><b>Morte da pol\u00edtica<\/b><\/p>\n<p>O ministro do Ex\u00e9rcito, Aur\u00e9lio de Lira Tavares, exigia medidas mais en\u00e9rgicas contra as \u201cideias subversivas\u201d. Falava em \u201cguerra revolucion\u00e1ria\u201d liderada pelos comunistas, pois parte da esquerda se preparava para a \u201cluta armada\u201d. A gota d\u2019\u00e1gua para a promulga\u00e7\u00e3o do AI-5 foi o pronunciamento do deputado M\u00e1rcio Moreira Alves, do MDB, na C\u00e2mara, nos dias 2 e 3 de setembro, lan\u00e7ando um apelo para que o povo n\u00e3o participasse dos desfiles militares do 7 de Setembro e para que as mo\u00e7as, \u201cardentes de liberdade\u201d, se recusassem a sair com cadetes das escolas militares. O deputado Hermano Alves, do mesmo partido, criticara duramente o regime em artigos no antigo Correio da Manh\u00e3. Por exig\u00eancia do ministro do Ex\u00e9rcito, Costa e Silva, o governo solicitou ao Congresso a cassa\u00e7\u00e3o dos dois deputados.<\/p>\n<p>No dia 12 de dezembro, a C\u00e2mara recusou, por uma diferen\u00e7a de 75 votos (e com a colabora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Arena, partido do governo), o pedido de licen\u00e7a para processar M\u00e1rcio Moreira Alves. No dia seguinte, foi baixado o AI-5, que autorizava o presidente da Rep\u00fablica, sem aprecia\u00e7\u00e3o judicial, decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir em estados e munic\u00edpios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por 10 anos, os direitos pol\u00edticos de qualquer cidad\u00e3o; decretar o confisco de bens considerados il\u00edcitos; e suspender a garantia do habeas corpus. No mesmo dia, foi decretado o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado, sendo reaberto somente em outubro de 1969, para referendar a escolha do general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia imediata do AI-5, foram cassados 11 deputados federais, entre eles M\u00e1rcio Moreira Alves e Hermano Alves. As cassa\u00e7\u00f5es prosseguiram em janeiro de 1969, atingindo n\u00e3o s\u00f3 parlamentares, mas at\u00e9 ministros do Supremo Tribunal Federal. A forte rea\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos, inclusive o PSL, e da sociedade civil \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Eduardo Bolsonaro, que foi aconselhado a se retratar pelo pr\u00f3prio pai, o presidente Jair Bolsonaro, t\u00eam esse lastro da hist\u00f3ria. O AI-5, nas palavras do falecido senador Ern\u00e2ni do Amaral Peixoto, um pol\u00edtico conservador, foi \u201ca morte da pol\u00edtica\u201d. Nem por isso, a nostalgia de Eduardo Bolsonaro deixa de ser perigosa: um golpe militar no Brasil exigiria um banho de sangue e n\u00e3o teria apoio internacional. O general Augusto Heleno sabe disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO AI-5, nas palavras do falecido senador Ern\u00e2ni do Amaral Peixoto, um pol\u00edtico conservador, foi \u201ca morte da pol\u00edtica\u201d. Nem por isso, a nostalgia de Eduardo Bolsonaro deixa de ser perigosa\u201d Em A Mente Naufragada, o cientista pol\u00edtico norte-americano Mark Lilla explica que o esp\u00edrito reacion\u00e1rio difere muito do conservador. 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