{"id":4298,"date":"2019-11-14T07:26:29","date_gmt":"2019-11-14T10:26:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4298"},"modified":"2019-11-14T07:26:29","modified_gmt":"2019-11-14T10:26:29","slug":"nas-entrelinhas-negocios-com-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-negocios-com-a-china\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Neg\u00f3cios com a China"},"content":{"rendered":"<p><strong><i>\u201cFrente \u00e0 concorr\u00eancia chinesa, os avan\u00e7os do Brasil permanecem limitados. Precisamos aumentar as exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados de maior complexidade\u201d<\/i><\/strong><\/p>\n<p>O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou ontem que o governo brasileiro tem inten\u00e7\u00e3o de formar uma \u00e1rea de livre-com\u00e9rcio tamb\u00e9m com a China. A not\u00edcia arrepiou os cabelos dos setores industriais brasileiros, que sofrem com as consequ\u00eancias da falta de competitividade de nossos produtos e a concorr\u00eancia dos importados made in China. A ideia, segundo o ministro, \u00e9 criar uma \u201cfree trade area\u201d (\u00e1rea de livre-com\u00e9rcio), com alto n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o. \u201cQueremos nos integrar \u00e0s cadeias globais. Perdemos tempo demais, temos pressa\u201d, disse Guedes, em Bras\u00edlia. H\u00e1 20 anos, o Brasil negociava com a China um volume de com\u00e9rcio de cerca de US$ 2 bilh\u00f5es ao ano; agora, saltou para mais de US$ 100 bilh\u00f5es nos dias atuais. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, com a \u00cdndia, outro parceiro do Brics, o com\u00e9rcio ainda est\u00e1 ao redor de US$ 4 bilh\u00f5es por ano.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es ocorrem num momento de muita confus\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul, onde a China desbancou os Estados Unidos como parceiro comercial da maioria dos pa\u00edses. Ao mesmo tempo, sinalizam um deriva do alinhamento autom\u00e1tico com o presidente Donald Trump, que est\u00e1 em guerra comercial com a China. O Brasil aposta na rela\u00e7\u00e3o com os chineses por raz\u00f5es que n\u00e3o necessariamente coincidem com aspectos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos que levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do Brics. N\u00e3o chega a ser uma esquizofrenia, \u00e9 um dado da realidade objetiva, determinado pela mudan\u00e7a de eixo do com\u00e9rcio mundial do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico e pela emerg\u00eancia da China, a segunda pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial, como principal comprador de nossas commodities de min\u00e9rio e agropecu\u00e1rias.<\/p>\n<p>Guedes sente as consequ\u00eancias da guerra comercial entre Estados Unidos e China na economia mundial, assim como sabe que as tens\u00f5es na Am\u00e9rica Latina est\u00e3o afugentando investidores em toda a regi\u00e3o, inclusive do Brasil. Entretanto, tem uma vis\u00e3o ultraliberal que assusta principalmente os setores industriais brasileiros, tradicionalmente protecionistas:\u00a0\u201cOs chineses, indianos, malaios, filipinos, est\u00e1 todo mundo subindo o padr\u00e3o de vida. A metade de l\u00e1. Enquanto isso, do lado de c\u00e1, particularmente a Am\u00e9rica Latina, o Mercosul, fez o contr\u00e1rio: cabe\u00e7a de avestruz, enfiamos a cabe\u00e7a no ch\u00e3o. Ficamos fechados. Nosso padr\u00e3o de vida est\u00e1 piorando.\u201d<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o Brasil est\u00e1 se desindustrializando. N\u00e3o tem uma pol\u00edtica industrial. Economistas liberais s\u00e3o contra isso por princ\u00edpio, mas governos n\u00e3o podem ser indiferentes \u00e0 realidade do setor produtivo. No caso brasileiro, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave, porque n\u00e3o existe capital acumulado para a cria\u00e7\u00e3o de uma nova ind\u00fastria, mais competitiva, na velocidade em que as mudan\u00e7as ocorrem no mundo. A tentativa de criar empresas globalmente competitivas dos governos Lula e Dilma, a pol\u00edtica dos \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d, resultou em esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e colapso da \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d, que lan\u00e7ou o Brasil na recess\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Complexidade<\/b><\/p>\n<p>De acordo com o Atlas da Complexidade Econ\u00f4mica, dos economistas Ricardo Hausmman e C\u00e9sar Hidalgo (respectivamente da Universidade de Harvard e do Instituto Tecnol\u00f3gico de Massachusetts \u2014 MIT), a complexidade das exporta\u00e7\u00f5es \u00e9 determinante para o crescimento econ\u00f4mico de longo prazo dos pa\u00edses. Isso porque, alguns conjuntos de produtos no n\u00facleo do tecido produtivo s\u00e3o mais essenciais para dinamizar outras atividades produtivas, \u201cpor conta de seus efeitos de encadeamento e transbordamento, ou seja, por estabelecerem mais conex\u00f5es com o restante das atividades econ\u00f4micas\u201d. \u00c9 o caso dos produtos eletr\u00f4nicos, m\u00e1quinas, materiais para constru\u00e7\u00e3o, qu\u00edmicos e produtos relacionados \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>O Brasil havia melhorado sua posi\u00e7\u00e3o no ranking de complexidade econ\u00f4mica entre 2012 e 2016, passando do 50\u00ba para o 42\u00ba lugar, mas a recess\u00e3o p\u00f4s tudo a perder. A an\u00e1lise das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras e chinesas para os pa\u00edses do Mercosul, Aladi e Nafta, qualificando o tipo de produto exportado a partir do \u00cdndice de Complexidade do Produto (ICP), contribui para a compreens\u00e3o das causas da interrup\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia de aumento da especializa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras em produtos pouco din\u00e2micos, ou seja, commodities.<\/p>\n<p>O Brasil at\u00e9 procurou se adaptar ao avan\u00e7o da concorr\u00eancia chinesa em seus principais mercados externos, n\u00e3o apenas por meio da exporta\u00e7\u00e3o de produtos de baixa complexidade, mas tamb\u00e9m exportando produtos de maior complexidade, como os da ind\u00fastria de m\u00e1quinas, em especial a automotiva, beneficiados pelos acordos comerciais com alguns pa\u00edses dessas regi\u00f5es. Entretanto, a China destacou-se em produtos ainda mais sofisticados (sobretudo eletr\u00f4nicos), resultado tamb\u00e9m associado a acordos comerciais entre pa\u00edses latino-americanos e pa\u00edses externos \u00e0 regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 concorr\u00eancia chinesa, os avan\u00e7os do Brasil permanecem limitados. Precisamos aumentar as exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados de maior complexidade e ampliar nossas compet\u00eancias produtivas em dire\u00e7\u00e3o a bens similares dos que j\u00e1 produzimos. Al\u00e9m disso, vale ressaltar a import\u00e2ncia de participar de acordos comerciais que envolvam produtos de maior complexidade econ\u00f4mica, notadamente com os pa\u00edses com os quais j\u00e1 apresentamos la\u00e7os comerciais estreitos em manufaturados, como os do Mercosul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFrente \u00e0 concorr\u00eancia chinesa, os avan\u00e7os do Brasil permanecem limitados. 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