{"id":4310,"date":"2019-11-17T08:09:44","date_gmt":"2019-11-17T11:09:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4310"},"modified":"2019-11-17T10:26:51","modified_gmt":"2019-11-17T13:26:51","slug":"nas-entrelinhas-por-que-tanto-atraso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-por-que-tanto-atraso\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Por que tanto atraso?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cNa Rep\u00fablica, a constitui\u00e7\u00e3o de empresas n\u00e3o dependia mais do governo, e sim da vontade dos empreendedores. Era uma revolu\u00e7\u00e3o e o Brasil integrava-se \u00e0 economia internacional\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Um coment\u00e1rio no Twitter do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Abraham Weintraub, nos leva \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o que intitula a coluna: \u201cN\u00e3o estou defendendo que voltemos \u00e0 Monarquia mas&#8230; O que diabos estamos comemorando hoje? H\u00e1 130 anos foi cometida uma inf\u00e2mia contra um patriota, honesto, iluminado, considerado um dos melhores gestores e governantes da Hist\u00f3ria (N\u00e3o estou restringindo a afirma\u00e7\u00e3o ao Brasil)\u201d, disse o ministro, na sexta-feira, em meio a comemora\u00e7\u00f5es dos 130 anos da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Referia-se, obviamente, a D. Pedro II, que governou o pa\u00eds de 1840 a 1889.<\/p>\n<p>A breve interven\u00e7\u00e3o do ministro, que gerou muita pol\u00eamica nas redes sociais, revela muita coisa, a come\u00e7ar por um natural desconhecimento sobre a Hist\u00f3ria do Brasil, sobretudo no Imp\u00e9rio, que sempre foi muito pouco estudado no ensino m\u00e9dio e nos cursinhos para vestibular. Em segundo lugar, indica uma nostalgia bem caracter\u00edstica 0do pensamento reacion\u00e1rio, como j\u00e1 tivemos oportunidade de tratar por aqui. Em parte, isso acontece porque, para consolidar a Rep\u00fablica, nossos militares e pol\u00edticos, impregnados de positivismo, tentaram passar uma borracha na hist\u00f3ria anterior ao15 de novembro de 1889. Diga-se de passagem, para alegria de uma elite latifundi\u00e1ria, patrimonialista e racista, que nunca admitiu a devida repara\u00e7\u00e3o aos ex-escravos e seus descendentes; muito pelo contr\u00e1rio, lutou para manter privil\u00e9gios e obter indeniza\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que considerava o escravo uma propriedade privada, assegurada pela Constitui\u00e7\u00e3o liberal de 1824, outorgada por D. Pedro I.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de todos os demais pa\u00edses do Novo Mundo, com exce\u00e7\u00e3o do Canad\u00e1 e das Guianas, em 1922, o Brasil n\u00e3o se tornou uma rep\u00fablica ao se tornar independente. N\u00e3o foi apenas uma esperteza de D. Jo\u00e3o VI, que recomendou a iniciativa ao filho, se a ruptura com a Corte portuguesa fosse inevit\u00e1vel. Havia ali um projeto de reunifica\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio colonial portugu\u00eas, pois o pr\u00edncipe D. Pedro I era herdeiro da casa de Bragan\u00e7a, e a inten\u00e7\u00e3o de manter o regime escravocrata (da\u00ed a tentativa, frustrada pelos ingleses, de anexar Angola para garantir o tr\u00e1fico negreiro e dar a ele um car\u00e1ter dom\u00e9stico), com a qual conciliou Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, patriota verdadeiro, mas monarquista convicto, traumatizado pelas revolu\u00e7\u00f5es europeias e a revolta dos escravos no Haiti.<\/p>\n<p><b>Estagna\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>No livro Hist\u00f3ria da Riqueza no Brasil, Cinco S\u00e9culos de Pessoas, Costumes e Governos (Esta\u00e7\u00e3o Brasil), o jornalista e soci\u00f3logo Jorge Caldeira, utilizando recursos de pesquisas como a antropologia e a econometria, lan\u00e7a luz sobre a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no per\u00edodo em que D. Pedro II governou o Brasil: \u201cCom a acumula\u00e7\u00e3o dos dados, ficou cada vez mais evidente que, no final do s\u00e9culo 18, a economia colonial brasileira era pujante, e pujante em decorr\u00eancia do crescimento do seu mercado interno. Mais ainda, era uma economia bem maior que a da metr\u00f3pole.\u201d<\/p>\n<p>Ao comparar dados do Brasil e de outros pa\u00edses, como os Estados Unidos, Caldeira mostra que foi exatamente a\u00ed que perdemos o bonde da hist\u00f3ria pela primeira vez (houve outras). Por volta de 1800, a economia brasileira tinha porte equivalente \u00e0 dos EUA. Ao fim do per\u00edodo imperial, nos \u00faltimos anos do s\u00e9culo 19, o peso econ\u00f4mico do pa\u00eds representava menos de 10% do ostentado pelos americanos. A economia brasileira era provavelmente maior que a dos Estados Unidos na primeira metade do s\u00e9culo 19. As duas economias tinham exporta\u00e7\u00f5es de valor semelhante (em torno de 4 milh\u00f5es de libras esterlinas anuais), mas o mercado interno brasileiro ocupava uma \u00e1rea bem mais extensa e com atividades mais variadas que as 13 col\u00f4nias originais.<\/p>\n<p>A economia brasileira \u201cteve uma expans\u00e3o not\u00e1vel ao longo do s\u00e9culo 18\u201d, nos mostra Caldeira: \u201cO ritmo de crescimento da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica passa de 0,5% para nada menos de 1,5% ao ano, enquanto o crescimento populacional vai de 0,4% para 0,6%. O crescimento da renda per capita\u201d salta de 0,1% para 0,9% anuais. No per\u00edodo que vai de 1820 a 1900, \u201ca renda per capita do Brasil era de 670 d\u00f3lares em 1820 \u2014 de 704 d\u00f3lares no final do s\u00e9culo. O crescimento teria sido de m\u00edseros 5% em um gigantesco per\u00edodo de 80 anos\u201d. A economia local regrediu. A chave da estagna\u00e7\u00e3o foi a pol\u00edtica monet\u00e1ria, focada nas exporta\u00e7\u00f5es, e manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, cujas sequelas est\u00e3o presentes at\u00e9 hoje na sociedade brasileira, entre as quais a discrimina\u00e7\u00e3o racial, os preconceitos e a profunda desigualdade.<\/p>\n<p>Mas, entre 1906 e 1918, ou seja, ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, o Brasil volta a crescer de maneira vertiginosa. Durante a valoriza\u00e7\u00e3o [do caf\u00e9] a economia brasileira experimentou pela primeira vez uma taxa de crescimento real per capita superior \u00e0 dos Estados Unidos. A taxa foi provavelmente maior que 2% ao ano. A economia cresceu rapidamente. Na Rep\u00fablica, a constitui\u00e7\u00e3o de empresas n\u00e3o dependia mais do governo, e sim da vontade dos empreendedores. Era uma revolu\u00e7\u00e3o e o Brasil integrava-se \u00e0 economia internacional. O Estado finalmente liberava o mercado, o que levou ao crescimento econ\u00f4mico. Tratar a Rep\u00fablica Velha como um per\u00edodo de atraso \u00e9 um equ\u00edvoco, n\u00e3o resiste aos dados estat\u00edsticos comparativos; o que envelheceu foram certas an\u00e1lises sobre a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil. O Imp\u00e9rio, com suas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 iniciativa privada, travou parte da expans\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNa Rep\u00fablica, a constitui\u00e7\u00e3o de empresas n\u00e3o dependia mais do governo, e sim da vontade dos empreendedores. Era uma revolu\u00e7\u00e3o e o Brasil integrava-se \u00e0 economia internacional\u201d Um coment\u00e1rio no Twitter do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Abraham Weintraub, nos leva \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o que intitula a coluna: \u201cN\u00e3o estou defendendo que voltemos \u00e0 Monarquia mas&#8230; O que diabos estamos comemorando hoje? 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