{"id":4332,"date":"2019-11-24T08:25:38","date_gmt":"2019-11-24T11:25:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4332"},"modified":"2019-11-24T08:25:38","modified_gmt":"2019-11-24T11:25:38","slug":"nas-entrelinhas-sapato-de-cinderela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sapato-de-cinderela\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sapato de Cinderela"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>O populismo pode ser cal\u00e7ado com o p\u00e9 esquerdo ou o p\u00e9 direito, por\u00e9m, n\u00e3o ressurge num ambiente de industrializa\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o dos direitos sociais que lhe dariam sustenta\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 do fil\u00f3sofo Isaiah Berlin, citado pelo historiador Alberto Aggio num instigante artigo sobre o populismo na Am\u00e9rica Latina (Um lugar no mundo, Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira\/Fundazione Instituto Gramsci), a compara\u00e7\u00e3o do conceito de populismo com o sapato da Cinderela no conto de fadas popularizado pelo franc\u00eas Charles Perrault, a partir de 1697. Segundo Berlin, existe um sapato \u2014 a palavra populismo \u2014 para o qual h\u00e1 um p\u00e9 em algum lugar. \u201cExistem diversos tipos de p\u00e9s que podem cal\u00e7\u00e1-lo, mas esses p\u00e9s n\u00e3o nos devem enganar porque quase se ajustam \u00e0 medida. Na busca, o pr\u00edncipe sempre vagueia errante com o sapato; e, em algum lugar, estamos seguros, espera um p\u00e9 denominado populismo puro\u201d. Aggio recorre \u00e0 cita\u00e7\u00e3o para questionar o uso abusivo e vulgar do conceito explicativo nas an\u00e1lises sobre a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Num cen\u00e1rio de crise do liberalismo das rep\u00fablicas olig\u00e1rquicas e de emerg\u00eancia das camadas populares na Am\u00e9rica Latina, em meados do s\u00e9culo passado, por\u00e9m, qualquer que fosse, o populismo buscava a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade industrial moderna, politicamente orientada pelo Estado, com incorpora\u00e7\u00e3o das massas pela via do reconhecimento dos seus direitos sociais. No Brasil, resultou num Estado de bem-estar social limitado, a partir de um programa nacionalista e estatizante, com uma legisla\u00e7\u00e3o trabalhista que garantia direitos e, ao mesmo tempo, tutelava os trabalhadores. Esse modelo se tornou t\u00e3o robusto que foi batizado de Era Vargas, pois atravessou in\u00fameras crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas, inclusive com mudan\u00e7as de regime pol\u00edtico (1945, 1964, 1985), ao longo de nove d\u00e9cadas; somente agora, no governo Bolsonaro, est\u00e1 sendo desmantelado.<\/p>\n<p>Por aqui, os soci\u00f3logos Francisco Weffort e Octavio Ianni, no final da d\u00e9cada de 1980, experimentaram o sapato de Cinderela. Influenciados pela teoria da depend\u00eancia, associaram o populismo ao processo de industrializa\u00e7\u00e3o substitutiva de importa\u00e7\u00f5es e \u00e0s particularidades do desenvolvimento do capitalismo na Am\u00e9rica Latina. As plataformas aglutinadoras e catalisadoras da chamada \u201ccoaliz\u00e3o populista\u201d seriam o nacionalismo desenvolvimentista e a pol\u00edtica social de massas que os governos deveriam colocar em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O populismo \u00e9 visto como fen\u00f4meno de massas urbano, express\u00e3o e consequ\u00eancia do decl\u00ednio do poder das oligarquias, a partir do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. A cr\u00edtica ao populismo est\u00e1 na g\u00eanese da forma\u00e7\u00e3o do PT, cujo pr\u00f3prio nome j\u00e1 revela a inten\u00e7\u00e3o original de construir uma organiza\u00e7\u00e3o que representasse a classe trabalhadora para si e n\u00e3o a sua manipula\u00e7\u00e3o por um \u201cEstado de compromisso\u201d. N\u00e3o \u00e9 preciso muita tinta para explicar que o resultado pr\u00e1tico, 40 anos depois, com a passagem do PT pelo poder, n\u00e3o foi bem esse: o partido foi capturado pelo transformismo e abduzido pelo patrimonialismo.<\/p>\n<p><b>Efeito Orloff<\/b><br \/>\nNa Am\u00e9rica Latina, a revanche do populismo bolivarianista parte da ideia de que a rela\u00e7\u00e3o entre governantes e governados deve dar lugar \u00e0 democracia direta e participativa, no bojo da crise da democracia representativa e dos seus partidos tradicionais. Entretanto, a roda da hist\u00f3ria d\u00e1 mais uma volta, e o subcontinente \u00e9 convulsionado por um novo ciclo pol\u00edtico, no qual o Estado liberal olig\u00e1rquico outra vez entra em confronto com as massas, tendo por pano de fundo a recidiva do populismo (Chile, Argentina, Col\u00f4mbia), ou o contr\u00e1rio, o \u201cEstado de compromisso\u201d (Venezuela, Bol\u00edvia, Nicar\u00e1gua) \u00e9 que entra em colapso, com o fracasso do \u201cbolivarianismo\u201d.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 analogia de Isaiah Berlin, todos os populismos s\u00e3o deriva\u00e7\u00f5es e varia\u00e7\u00f5es, \u201cem algum lugar se esconde, furtivo, o populismo verdadeiro, perfeito\u201d. Pode ser que seja aqui no Brasil. \u201cO populismo dos dias que correm \u00e9 visivelmente uma for\u00e7a regressiva no pol\u00edtico. Nele predominam o autoritarismo, a intoler\u00e2ncia e o antipluralismo. Onde \u00e9 poss\u00edvel, afronta direitos humanos, suprime liberdades, reprime opositores, persegue ju\u00edzes e jornalistas\u201d, adverte Aggio, com a ressalva de que nos lugares onde a ordem constitucional \u00e9 mais legitimada, como aqui no Brasil, a resist\u00eancia \u00e9 maior a esse tipo de movimento, que \u201cnem deveria ser qualificado de populista\u201d.<\/p>\n<p>Insidioso, o populismo pode ser cal\u00e7ado com o p\u00e9 esquerdo ou o p\u00e9 direito, por\u00e9m, por uma ironia da hist\u00f3ria, agora n\u00e3o ressurge num ambiente de industrializa\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o dos direitos sociais que lhe dariam legitimidade e sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Pelo contr\u00e1rio, ocorre num momento em que a integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina \u00e0s cadeias mundiais de produ\u00e7\u00e3o resulta em desindustrializa\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o de mercado interno e amplia\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e regionais, com desemprego em massa. Ou seja, por falta de uma estrat\u00e9gia robusta de desenvolvimento sustent\u00e1vel, n\u00e3o tem a menor chance de dar certo. No nosso caso, se o projeto ultraliberal do atual governo fracassar, ou Bolsonaro enveredar pelo caminho de um certo \u201cpopulismo destro\u201d, corremos risco de um efeito Orloff: o Brasil pode ser a Argentina amanh\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO populismo pode ser cal\u00e7ado com o p\u00e9 esquerdo ou o p\u00e9 direito, por\u00e9m, n\u00e3o ressurge num ambiente de industrializa\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o dos direitos sociais que lhe dariam sustenta\u00e7\u00e3o\u201d \u00c9 do fil\u00f3sofo Isaiah Berlin, citado pelo historiador Alberto Aggio num instigante artigo sobre o populismo na Am\u00e9rica Latina (Um lugar no mundo, Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira\/Fundazione Instituto Gramsci), a compara\u00e7\u00e3o do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[291,576,561,36,46,4,92,292,188,9,3,48,187],"tags":[430,283,130,542,577,386,331,190],"class_list":["post-4332","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-argentina","category-bolivia-2","category-chile","category-economia","category-eleicoes","category-governo","category-literatura","category-macri","category-maduro","category-politica-2","category-politica","category-trabalho","category-venezuela","tag-argentina","tag-bolivia","tag-bolsonaro","tag-chile","tag-colombia","tag-populismo","tag-vargas","tag-venezuela"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4332"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4332\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4338,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4332\/revisions\/4338"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}