{"id":4347,"date":"2019-11-29T08:14:59","date_gmt":"2019-11-29T11:14:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4347"},"modified":"2019-11-29T08:14:59","modified_gmt":"2019-11-29T11:14:59","slug":"nas-entrelinhas-politicas-diversionistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-politicas-diversionistas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Pol\u00edticas diversionistas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cVendeu-se um terreno na Lua para a opini\u00e3o p\u00fablica, com a reforma da Previd\u00eancia, que era necess\u00e1ria e foi aprovada, mas n\u00e3o garantiu a retomada autom\u00e1tica do crescimento, como se dizia\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Qualquer cidad\u00e3o razoavelmente informado \u00e9 capaz de identificar os tr\u00eas principais problemas da vida banal: emprego, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Se for acrescentar mais dois: moradia e mobilidade urbana. Dependendo da regi\u00e3o, a viol\u00eancia atropela at\u00e9 a primeira lista, como nos morros e \u201ccomplexos\u201d do Rio de Janeiro. S\u00e3o temas que inevitavelmente estar\u00e3o no centro do debate eleitoral do pr\u00f3ximo ano e que dependem das pol\u00edticas p\u00fablicas federais, sob o peso da crise fiscal. Entretanto, quando abrimos os jornais (ou melhor, as redes sociais), as prioridades do governo Bolsonaro n\u00e3o s\u00e3o exatamente essas, s\u00e3o as pautas identit\u00e1rias que supostamente levaram \u00e0 derrota a oposi\u00e7\u00e3o, em 2018.<\/p>\n<p>Ao insistir numa agenda que confronta os movimentos identit\u00e1rios, o governo executa uma t\u00e1tica diversionista, para distrair a oposi\u00e7\u00e3o e deslocar o eixo dos debates das verdadeiras prioridades do pa\u00eds. Essa pol\u00edtica pode ser um tremendo tiro no p\u00e9, como foi a tentativa da esquerda de se refugiar nessa pauta para evitar a autocr\u00edtica de seus erros e o debate sobre sua pr\u00f3pria crise \u00e9tica, o que resultou na sua derrota eleitoral. A mais recente jogada para confrontar a pauta identit\u00e1ria foi a nomea\u00e7\u00e3o do novo presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, Sergio Nascimento de Camargo, advers\u00e1rio declarado do movimento negro e da pol\u00edtica de cotas, que afrontou de tal forma as lideran\u00e7as negras que foi chamado de \u201ccapit\u00e3o do mato\u201d pelo pr\u00f3prio irm\u00e3o, o m\u00fasico e produtor cultural Wadico Camargo.<\/p>\n<p>O novo chefe da Funda\u00e7\u00e3o Palmares est\u00e1 alinhado ao secret\u00e1rio de Cultura do governo federal, o dramaturgo Roberto Alvim, que promove uma cruzada contra esquerda no movimento art\u00edstico e cultural, assim como h\u00e1 outras cruzadas, contra ambientalistas, feministas, \u00edndios, professores e a imprensa. A miss\u00e3o de Camargo \u00e9 ingl\u00f3ria, quando nada porque n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil reescrever a hist\u00f3ria do negro no Brasil, ainda mais depois do livro Escravid\u00e3o, de Laurentino Gomes, cujo primeiro volume aborda o tema do primeiro leil\u00e3o de cativos em Portugal at\u00e9 a morte de Zumbi dos Palmares. Foram 300 anos at\u00e9 a Aboli\u00e7\u00e3o, per\u00edodo em que 5 milh\u00f5es de negros e negras foram submetidos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 opress\u00e3o brutais. S\u00f3 um sujeito mal-intencionado pode afirmar que \u201ca escravid\u00e3o foi ben\u00e9fica para os descendentes de escravos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ponto fraco<\/strong><br \/>\nQuando nada, a escravid\u00e3o est\u00e1 na raiz das desigualdades sociais no Brasil, que se agravaram nos \u00faltimos anos, em consequ\u00eancia do colapso do governo Dilma Rousseff e da recess\u00e3o que isso provocou: entre 2014 e 2017, segundo a Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Cont\u00ednua do IBGE, 8,5 milh\u00f5es de brasileiros se somaram aos 14 milh\u00f5es que j\u00e1 viviam abaixo da linha da pobreza. No mesmo per\u00edodo, o contingente daqueles que sobreviviam em situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema passou de 5,2 milh\u00f5es para 11,8 milh\u00f5es. Por mais que Bolsonaro tenha herdado esse passivo social, sua elei\u00e7\u00e3o surfou o descontentamento por ele provocado e, mais cedo ou mais tarde, seu governo ter\u00e1 que mostrar resultados positivos na \u00e1rea social. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o ponto mais fraco do governo.<\/p>\n<p>O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, at\u00e9 por causa da composi\u00e7\u00e3o de sua equipe, domina a pol\u00edtica para o mercado financeiro e as contas da Uni\u00e3o, isto \u00e9, a superestrutura da economia, mas a infraestrutura, ou seja, o mundo real da produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a praia da atual equipe econ\u00f4mica ultraliberal. Muito menos as pol\u00edticas sociais. A superestrutura vai muito bem, obrigado. O Banco Central tem reservas da ordem dos US$ 370 bilh\u00f5es, para uma d\u00edvida externa de US$ 100 bilh\u00f5es. Com isso, a economia suporta bem a alta do d\u00f3lar, pois nossos ativos tamb\u00e9m aumentam quando o real se desvaloriza. Ainda bem que estamos livres de uma crise cambial, o que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, principalmente se olharmos para os lados na Am\u00e9rica do Sul e para a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China.<\/p>\n<p>Entretanto, com a infla\u00e7\u00e3o na casa dos 3% e a taxa de juros na faixa dos 4,5%, a economia n\u00e3o deslancha e o governo n\u00e3o sabe bem o que fazer. Vendeu-se um terreno na Lua para a opini\u00e3o p\u00fablica, com a reforma da Previd\u00eancia, que era necess\u00e1ria e foi aprovada, mas n\u00e3o garantiu a retomada autom\u00e1tica do crescimento, como se dizia. Depois, Guedes se perdeu ao apresentar, simultaneamente, tr\u00eas pacotes de reformas ao Congresso, de forma enviesada, pois a discuss\u00e3o come\u00e7ou pelo Senado e n\u00e3o pela C\u00e2mara, como seria mais natural. Resultado: o ano est\u00e1 acabando, sem que nenhum deles seja aprovado. Restou o diversionismo das pol\u00edticas identit\u00e1rias, que funciona como iscas para desviar a aten\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que o reacionarismo do governo nas \u00e1reas cultural e social acaba provocando a ojeriza dos setores moderados da sociedade, contr\u00e1rios \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVendeu-se um terreno na Lua para a opini\u00e3o p\u00fablica, com a reforma da Previd\u00eancia, que era necess\u00e1ria e foi aprovada, mas n\u00e3o garantiu a retomada autom\u00e1tica do crescimento, como se dizia\u201d Qualquer cidad\u00e3o razoavelmente informado \u00e9 capaz de identificar os tr\u00eas principais problemas da vida banal: emprego, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Se for acrescentar mais dois: moradia e mobilidade urbana. 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