{"id":4355,"date":"2019-12-03T06:55:01","date_gmt":"2019-12-03T09:55:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4355"},"modified":"2019-12-03T06:55:01","modified_gmt":"2019-12-03T09:55:01","slug":"tragedia-na-vida-banal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/tragedia-na-vida-banal\/","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia na vida banal"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>A repress\u00e3o policial \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais da periferia n\u00e3o \u00e9 eficaz, apenas amplia a base social do crime organizado. Se fosse, n\u00e3o existiria mais pancad\u00e3o em S\u00e3o Paulo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Not\u00e1vel ge\u00f3grafo, o falecido professor Milton Santos era um observador arguto da vida banal nas periferias do mundo, ou seja, o dia a dia dos cidad\u00e3os afetados pela globaliza\u00e7\u00e3o, com suas desigualdades e grande exclus\u00e3o. Dedicou a vida a analisar sua \u00e9poca, com um olhar cr\u00edtico sobre o atual modelo de rela\u00e7\u00f5es internacionais, constitu\u00eddo entre 1980 e 1990, e que est\u00e1 sendo posto em xeque tanto no centro como nas periferias do mundo.<\/p>\n<p>Sua geografia desenvolveu novos conceitos sobre espa\u00e7o, lugar, paisagem e regi\u00e3o, nos quais o fator humano tem um papel central. Sempre p\u00f4s uma lupa no uso pol\u00edtico dos territ\u00f3rios para compreender o desenvolvimento. Teria hoje 93 anos se fosse vivo e, com certeza, do alto da pilha dos seus 40 livros publicados e com o prest\u00edgio de doutor honoris causa em mais de 20 universidades do mundo, seria mais uma voz a subir o tom diante da trag\u00e9dia deste fim de semana em Parais\u00f3polis, a maior favela de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Dizia que a captura das pol\u00edticas p\u00fablicas pelos grandes interesses privados acaba por deixar ao relento o cotidiano da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, que se v\u00ea obrigada a buscar alternativas de sobreviv\u00eancia numa esp\u00e9cie de beco sem sa\u00edda social, porque esses interesses estavam mais voltados para o lucro do que para os objetivos das pol\u00edticas urbanas e sociais. Segundo ele, a vida banal \u00e9 desprezada pelo poder p\u00fablico e, no espa\u00e7o urbano onde essa aus\u00eancia \u00e9 maior, surgem as solu\u00e7\u00f5es improvisadas, as transgress\u00f5es e a economia informal (o g\u00e1s, a gambiarra, o gatonet, a prote\u00e7\u00e3o a agiotagem etc.), que muitas vezes acaba capturada pelo crime organizado, que achaca, chantageia e mata, seja ele o tr\u00e1fico de drogas, sejam as mil\u00edcias.<\/p>\n<p>O que deseja um cidad\u00e3o das periferias? Projetar seu pr\u00f3prio futuro, vislumbrar perspectivas dignas da exist\u00eancia, expressar sua maneira de entender o mundo, seja por meio de cren\u00e7as, manifesta\u00e7\u00f5es culturais ou pr\u00e1ticas sociopol\u00edticas. Ter qualidade de vida, viver num ambiente agrad\u00e1vel e sustent\u00e1vel, provido de \u00e1gua, esgoto, energia e meios de comunica\u00e7\u00e3o na medida adequada, com assist\u00eancia m\u00e9dica, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura, meios de transporte e um sistema de abastecimento adequado.<\/p>\n<p>Agrega-se a isso o acesso ao entretenimento e ao lazer, que tamb\u00e9m s\u00e3o as aspira\u00e7\u00f5es da maioria dos jovens brasileiros, por\u00e9m, para parcela consider\u00e1vel deles, principalmente nas periferias, s\u00e3o inating\u00edveis. De certa forma, isso se reflete na cultura de periferia, no hip-hop, no funk, nos bailes de charme, no slam e no passinho. Como as pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o chegam \u00e0s periferias na escala necess\u00e1ria, \u00e9 natural que essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais fomentem a economia informal que dela se retroalimenta, do ambulante que vende \u00e1gua mineral, cerveja e destilados aos traficantes que distribuem a maconha, a coca\u00edna e o crack para animar a festa, como tamb\u00e9m ocorre na maioria das \u201craves\u201d de classe m\u00e9dia, sem que a pol\u00edcia toque o terror.<\/p>\n<p><b>Economia criativa<\/b><br \/>\nSem ironia, cada territ\u00f3rio tem a sua pr\u00f3pria \u201ceconomia criativa\u201d. Festas de funk como o Baile da 17, em Parais\u00f3polis, no qual nove jovens morreram pisoteados na madrugada deste domingo, ap\u00f3s uma a\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar, ocorrem em todas as comunidades de periferia das grandes cidades, principalmente S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Somente neste ano, foram realizadas 7,5 mil \u201cOpera\u00e7\u00f5es Pancad\u00e3o\u201d em S\u00e3o Paulo, nas quais foram efetuadas 874 pris\u00f5es, 76 apreens\u00f5es de adolescentes, apreens\u00e3o de 1,8 tonelada de drogas e de 77 armas, de acordo com a corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo uma trag\u00e9dia como essa acontecer. Ningu\u00e9m tem d\u00favida de que a viol\u00eancia \u00e9 um dos principais problemas da nossa vida urbana, mas o endurecimento da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica e o est\u00edmulo \u00e0 venda de armas como alternativa de autodefesa para a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o uma resposta \u00e0 altura do problema. Al\u00e9m disso, a desconstru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para as periferias, principalmente na cultura e na educa\u00e7\u00e3o, contribui para agravar o problema. A repress\u00e3o policial \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais da periferia n\u00e3o \u00e9 eficaz, apenas amplia a base social do crime organizado. Se fosse, depois de tantas opera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o existiria mais pancad\u00e3o em S\u00e3o Paulo. \u00c9 preciso oferecer aos jovens das periferias alternativas melhores para manifesta\u00e7\u00f5es culturais, entretenimento e lazer. Bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio, spray de pimenta, balas de borracha e muita porrada, como vimos em Parais\u00f3polis, s\u00f3 podem resultar em trag\u00e9dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA repress\u00e3o policial \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais da periferia n\u00e3o \u00e9 eficaz, apenas amplia a base social do crime organizado. Se fosse, n\u00e3o existiria mais pancad\u00e3o em S\u00e3o Paulo\u201d Not\u00e1vel ge\u00f3grafo, o falecido professor Milton Santos era um observador arguto da vida banal nas periferias do mundo, ou seja, o dia a dia dos cidad\u00e3os afetados pela globaliza\u00e7\u00e3o, com suas desigualdades [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[176,36,4,32,9,3,115,323,80,68],"tags":[584,582,583,585,150,69],"class_list":["post-4355","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidades","category-economia","category-governo","category-juventude","category-politica-2","category-politica","category-rio-de-janeiro","category-sao-paulo","category-seguranca","category-violencia","tag-culktura","tag-funk","tag-juventude","tag-paraisopolis","tag-seguranca","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4355","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4355"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4355\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4362,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4355\/revisions\/4362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4355"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4355"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4355"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}