{"id":4373,"date":"2019-12-08T08:59:11","date_gmt":"2019-12-08T11:59:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4373"},"modified":"2019-12-08T10:50:18","modified_gmt":"2019-12-08T13:50:18","slug":"nas-entrelinhas-sobre-raposas-e-ouricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sobre-raposas-e-ouricos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sobre raposas e ouri\u00e7os"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cOs indiv\u00edduos de sociedades pluralistas pertencem a diversas coletividades, cada qual com sua identidade. Por isso mesmo, a imposi\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica identidade est\u00e1 na g\u00eanese dos conflitos raciais, religiosos e \u00e9tnicos\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em tempos de radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica direita versus esquerda, um pouco de John Stuart Mill n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m, parafraseando o velho ditado que compara a prud\u00eancia ao caldo de galinha. H\u00e1 quase 200 anos, o te\u00f3rico liberal ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX, no rastro de John Locke, o pai do liberalismo e da Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia americana, marco das democracias modernas, foi um cr\u00edtico da \u201ctirania da maioria\u201d. Ao examinar as mudan\u00e7as pol\u00edticas que ocorriam em meados do s\u00e9culo XIX, com a forma\u00e7\u00e3o de governos eleitos, Mill procurou delimitar a fronteira entre o controle social e a liberdade individual. O tema \u00e9 atual\u00edssimo, principalmente na conjuntura em que vivemos.<\/p>\n<p>Mill advertia que governos eleitos selecionam as vis\u00f5es da maioria e, muitas vezes, acabam por oprimir a minoria. Essa tend\u00eancia \u00e9 refor\u00e7ada pela opini\u00e3o p\u00fablica, que se move pelo interesse pr\u00f3prio e imediato, em bases arraigadas, pela como\u00e7\u00e3o, pela influ\u00eancia religiosa ou pela tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o poucas vezes, no \u00e2mago das quest\u00f5es, maiorias conjunturais refletem velhos interesses de grupos dominantes da sociedade. O longo e glorioso reinado da Rainha Vit\u00f3ria (1838-1901), em meados do s\u00e9culo XIX, foi o pano de fundo das ideias de Mill.<\/p>\n<p>A Era Vitoriana foi marcada pelo bin\u00f4mio paz e prosperidade, com os lucros adquiridos a partir da expans\u00e3o do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, no auge e consolida\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e do surgimento de novas inven\u00e7\u00f5es. Tr\u00eas gigantes do pensamento ocidental surgiram nessa \u00e9poca: Charles Darwin, Sigmund Freud e Karl Marx. Apesar da emerg\u00eancia de uma grande classe m\u00e9dia e dos avan\u00e7os da ci\u00eancia, da compreens\u00e3o do indiv\u00edduo e da din\u00e2mica econ\u00f4mica, essa \u00e9poca tamb\u00e9m foi marcada na Inglaterra por r\u00edgidos costumes, moralismo social e sexual, fundamentalismo religioso e muita explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Mill tenta estabelecer um ponto de equil\u00edbrio entre a autonomia individual e a interfer\u00eancia governamental. A chave \u00e9 o \u201cprinc\u00edpio do dano\u201d, hoje consagrado no direito: a sociedade s\u00f3 pode interferir na vida do indiv\u00edduo, de maneira justificada, para impedir que cause dano a outra pessoa. \u201cSobre si mesmo, sobre seu pr\u00f3prio corpo e mente, o indiv\u00edduo \u00e9 soberano\u201d, defende Mill. Parece trivial, na pr\u00e1tica, por\u00e9m, \u00e9 mais complicado, porque o princ\u00edpio se aplica ao pensamento, \u00e0 express\u00e3o de opini\u00e3o e tamb\u00e9m \u00e0s a\u00e7\u00f5es. Entretanto, foram essas as premissas dos novos conhecimentos e da inova\u00e7\u00e3o. \u00c0 \u00e9poca, a Europa vivia a plenitude do Iluminismo, enquanto o peso da tradi\u00e7\u00e3o e a rigidez do mandarinato estagnavam a China, a grande pot\u00eancia do planeta por mil\u00eanios.<\/p>\n<p><strong>Pluralismo progressista<\/strong><\/p>\n<p>Liberdade de pensamento, de gostos e objetivos e de associa\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos fizeram a grande diferen\u00e7a. Um fragmento de poema do fil\u00f3sofo grego Anquiloco de Paros (s\u00e9culo 7 a.C), citado pelo pensador ingl\u00eas Isaiah Berlin, num ensaio liter\u00e1rio sobre Tolstoi, ajuda a entender a raz\u00e3o: \u201cA raposa sabe muitas coisas, mas o ouri\u00e7o sabe apenas uma coisa importante\u201d. Existe um grande abismo entre aqueles que, por um lado, relacionam tudo a uma \u00fanica vis\u00e3o central, um princ\u00edpio organizador universal em termos do qual tudo que eles s\u00e3o e dizem encontra significado \u2014 e, do outro lado, aqueles que perseguem v\u00e1rios objetivos, frequentemente n\u00e3o relacionados e mesmo contradit\u00f3rios. Estes \u00faltimos levam vidas, agem e contemplam ideias que s\u00e3o centr\u00edfugas ao inv\u00e9s de centr\u00edpetas; seu pensamento \u00e9 diverso ou difuso, movendo-se em muitos n\u00edveis, aproveitando-se da ess\u00eancia de uma vasta variedade de experi\u00eancias e objetos. \u201cO primeiro tipo de intelectual e personalidade art\u00edstica pertence aos ouri\u00e7os, o segundo \u00e0s raposas\u2026\u201d, dizia Berlin.<\/p>\n<p>A vida atual, cada vez mais organizada em redes, corrobora a analogia, inclusive na pol\u00edtica. Pr\u00eamio Nobel de 1998, o economista indiano Amartya Sen foi um dos que observou o fato de que os indiv\u00edduos de sociedades pluralistas pertencem a diversas coletividades, cada qual com sua identidade. Por isso mesmo, a imposi\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica identidade, que a\u00e7ambarca e define tudo, est\u00e1 na g\u00eanese dos conflitos raciais, religiosos e \u00e9tnicos. Essa diversidade \u00e9 uma das causas do decl\u00ednio dos velhos partidos pol\u00edticos, com a ultrapassagem da sociedade industrial estruturada em classes bem definidas, e, contraditoriamente, do surgimento de movimentos regressivos, pautados pela xenofobia, pela homofobia e pelo reacionarismo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>No Brasil, estamos vivendo um momento na vida pol\u00edtica em que essas tend\u00eancias emergem com muita for\u00e7a, seja pela via do sectarismo ideol\u00f3gico e obscurantista oficial, seja pela recidiva \u201cclassista\u201d por parte da oposi\u00e7\u00e3o, da\u00ed a oportunidade desse resgate do velho Stuart Mill. N\u00e3o \u00e0 toa, desde as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, surgem movimentos c\u00edvicos de car\u00e1ter liberal que se contrap\u00f5em, no plano pol\u00edtico, ao \u201chegemonismo\u201d de direita ou de esquerda. Esses movimentos \u2014 por exemplo, Acredito, Livres, Raps, Renova-BR etc. \u2014 refletem a diversidade de opini\u00f5es da sociedade e buscam, pela via da pol\u00edtica liberal, uma sociedade mais moderna e pluralista. Esse liberalismo progressista n\u00e3o subordina os direitos humanos e a democracia ao desempenho da economia e pode ser um fator de renova\u00e7\u00e3o dos costumes pol\u00edticos e dos partidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs indiv\u00edduos de sociedades pluralistas pertencem a diversas coletividades, cada qual com sua identidade. 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