{"id":4382,"date":"2019-12-11T07:39:07","date_gmt":"2019-12-11T10:39:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4382"},"modified":"2019-12-11T07:39:07","modified_gmt":"2019-12-11T10:39:07","slug":"nas-entrelinhas-a-iniquidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-iniquidade-social\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A iniquidade social"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>A estagna\u00e7\u00e3o da escolaridade e a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda s\u00e3o os vetores mais dram\u00e1ticos da nossa desigualdade, pois puxam para baixo a qualidade de vida de toda a popula\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Obra pr\u00e9-modernista, de car\u00e1ter hist\u00f3rico-liter\u00e1rio, Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha (1866-1909), publicado em 1902, foi a primeira grande cr\u00edtica \u00e0 iniquidade social no Brasil. Embora de car\u00e1ter regionalista, ao narrar os sangrentos acontecimentos da Guerra de Canudos (1896-1897), liderada por Ant\u00f4nio Conselheiro (1830-1897), no interior da Bahia, teve grande impacto na opini\u00e3o p\u00fablica da \u00e9poca, em especial entre os jovens militares, sendo uma das fontes de inspira\u00e7\u00e3o do Tenentismo.<\/p>\n<p>A obra descreve o sert\u00e3o nordestino (o relevo, a fauna, a flora e o clima), o homem (o sertanejo, o jagun\u00e7o, o cangaceiro e o l\u00edder messi\u00e2nico) e, finalmente, a luta (as quatro ingl\u00f3rias campanhas do Ex\u00e9rcito para destruir o pequeno arraial de 20 mil habitantes). Nunca antes a quest\u00e3o social no Brasil havia sido abordada com tanto realismo, nem mesmo na campanha abolicionista, cujo coroamento fora a Lei \u00c1urea, 14 anos antes.<\/p>\n<p>A justificativa para o massacre de Canudos fora uma suposta amea\u00e7a \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do regime republicano, devido ao car\u00e1ter sebastianista do movimento liderado pelo m\u00edstico Ant\u00f4nio Conselheiro. No livro, Euclides da Cunha questiona o ufanismo e o nacionalismo da \u00e9poca, bem como a vis\u00e3o idealizada que se tinha sobre a forma\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter do povo brasileiro.<\/p>\n<p>O homem descrito por Euclides da Cunha, que fez a cobertura jornal\u00edstica da Guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, 100 anos depois, vive nas periferias e favelas dos grandes centros urbanos do pa\u00eds, seja na condi\u00e7\u00e3o de trabalhador informal, seja como traficante ou miliciano. A iniquidade social \u00e9 a mesma. A diferen\u00e7a \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resolver o problema \u00e0 bala, como em Canudos, embora alguns continuem tentando.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca de Ant\u00f4nio Conselheiro n\u00e3o havia IDH, o \u00edndice criado para a ONU pelos economistas Amartya Sen, indiano, pr\u00eamio Nobel de 1998, e Mahbub al Huq, paquistan\u00eas, com objetivo de mensurar as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, de escolaridade e de renda das popula\u00e7\u00f5es e assim aferir os n\u00edveis de desigualdades entre os pa\u00edses. O do Brasil, divulgado no domingo passado, mostra um quadro desolador, em grande parte agravado pela recess\u00e3o provocada pela \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d do segundo mandato do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e do governo Dilma Rousseff.<\/p>\n<p><b>Direitos humanos<\/b><br \/>\nS\u00e3o impressionantes os efeitos negativos da recess\u00e3o, entre os quais a exist\u00eancia de 12 milh\u00f5es de desempregados cr\u00f4nicos. O \u00edndice brasileiro perdeu tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es desde 2013. De 2017 a 2018, em um ranking de 189 pa\u00edses, retrocedemos do 78\u00ba lugar para 79\u00ba, com um IDH de 0,761 (quanto mais pr\u00f3ximo de 1, maior o desenvolvimento humano). Estamos atr\u00e1s da R\u00fassia e da Argentina, para usar apenas esses dois paradigmas. E muito distantes da Noruega e da Su\u00ed\u00e7a, que lideram os IDHs dos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o da escolaridade e a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda s\u00e3o os vetores mais dram\u00e1ticos da nossa desigualdade, pois puxam para baixo a qualidade de vida de toda a popula\u00e7\u00e3o. O quadro \u00e9 ainda mais grave porque n\u00e3o h\u00e1 igualdade de oportunidades na largada, no meio do caminho, muito menos na reta de chegada. Ou seja, do nascimento de nossas crian\u00e7as \u00e0 vida adulta.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nos remete \u00e0 quest\u00e3o dos direitos humanos, consagrados pela ONU em 1948 e incorporados \u00e0 nossa Constitui\u00e7\u00e3o, em 1988. Seu conceito mudou ao longo da hist\u00f3ria, desde a Declara\u00e7\u00e3o de Direitos de Virg\u00ednia, nos Estados Unidos (1776), e a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o (1789), na Fran\u00e7a. Grosso modo, foram fundamentais para a consolida\u00e7\u00e3o dos Estados nacionais e para o desenvolvimento capitalista. Afinal, nem um nem outro seriam poss\u00edveis sem ex\u00e9rcitos de massa e o chamado ex\u00e9rcito industrial de reserva, respectivamente, que requeriam m\u00e3o de obra saud\u00e1vel e minimamente escolarizada.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que mora o perigo. Com a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso, nem as guerras nem a produ\u00e7\u00e3o exigem a mesma disponibilidade de recursos humanos; os direitos \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o deixando de ser um assunto de interesse universal, ou seja, inclusive patronal. Enquanto nos pa\u00edses desenvolvidos o estado de bem-estar social est\u00e1 em crise, na periferia do mundo deixou de ser um objetivo comum a ser alcan\u00e7ado. Nunca as pol\u00edticas p\u00fablicas de car\u00e1ter social foram t\u00e3o negligenciadas.<\/p>\n<p>Ocorre que o mundo se move. O esgar\u00e7amento social provocado pelas pol\u00edticas ultraliberais \u00e9 uma realidade, seja nos pa\u00edses desenvolvidos, como na Fran\u00e7a, seja na periferia, como no Chile, cujo IDH, como vimos acima, \u00e9 melhor do que o nosso. Com toda certeza, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es municipais, essa vari\u00e1vel ter\u00e1 que ser considerada, tanto quanto a gera\u00e7\u00e3o de oportunidades de trabalho e o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 inefici\u00eancia na gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA estagna\u00e7\u00e3o da escolaridade e a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda s\u00e3o os vetores mais dram\u00e1ticos da nossa desigualdade, pois puxam para baixo a qualidade de vida de toda a popula\u00e7\u00e3o\u201d Obra pr\u00e9-modernista, de car\u00e1ter hist\u00f3rico-liter\u00e1rio, Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha (1866-1909), publicado em 1902, foi a primeira grande cr\u00edtica \u00e0 iniquidade social no Brasil. 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