{"id":4402,"date":"2019-12-30T06:59:15","date_gmt":"2019-12-30T09:59:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4402"},"modified":"2019-12-30T06:59:15","modified_gmt":"2019-12-30T09:59:15","slug":"nas-entrelinhas-a-coerencia-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-coerencia-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A coer\u00eancia de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cO bolsonarismo tem certos antecedentes hist\u00f3ricos, mas \u00e9 um fen\u00f4meno \u00fanico, que n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a quebra de paradigmas da pol\u00edtica, a crise \u00e9tica e a emerg\u00eancia das redes sociais\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem o direito de dizer que se enganou com o presidente Jair Bolsonaro. A caracter\u00edstica mais marcante de seu primeiro ano de mandato \u00e9 a coer\u00eancia com o discurso de campanha. Esse entendimento vale para seus apoiadores e para a oposi\u00e7\u00e3o. Pela primeira vez, temos um governo assumidamente de direita, que tirou do arm\u00e1rio uma parcela do eleitorado que andava enrustida e desorganizada, mas que agora se articula nacionalmente, em torno do cl\u00e3 Bolsonaro, e est\u00e1 constituindo um novo partido, a Alian\u00e7a pelo Brasil, que j\u00e1 conta com 100 mil filiados.<\/p>\n<p>Uma direita org\u00e2nica, de car\u00e1ter nacional, sem vergonha de mostrar a pr\u00f3pria cara, \u00e9 um fen\u00f4meno raro no Brasil. Temos a A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira, de Pl\u00ednio Salgado, na d\u00e9cada de 1930, liquidada por Get\u00falio Vargas, no Estado Novo, ap\u00f3s uma tentativa frustrada de tomada do poder, em 1938. A antiga UDN era mais heterog\u00eanea, surgiu como uma frente democr\u00e1tica, em S\u00e3o Paulo, inclusive com a participa\u00e7\u00e3o dos comunistas, antes de se transformar no partido conservador e golpista que marcou a Segunda Rep\u00fablica. A vertente da UDN mais pr\u00f3xima do bolsonarismo foi o lacerdismo, no Rio de Janeiro, um movimento da classe m\u00e9dia carioca liderado pelo ent\u00e3o governador da antiga Guanabara, Carlos Lacerda. Na transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, o que mais poderia se aproximar do bolsonarismo \u00e9 o malufismo, um fen\u00f4meno paulista, em decorr\u00eancia da penetra\u00e7\u00e3o popular do ex-governador Paulo Maluf, que nunca teve um car\u00e1ter org\u00e2nico nem nacional.<\/p>\n<p>Podemos concluir que o bolsonarismo tem certos antecedentes hist\u00f3ricos, mas \u00e9 um fen\u00f4meno \u00fanico, que n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a quebra de paradigmas da pol\u00edtica, a crise \u00e9tica e a emerg\u00eancia das redes sociais. Sem isso, n\u00e3o seria poss\u00edvel a Jair Bolsonaro ter feito com \u00eaxito um movimento contr\u00e1rio ao de seus antecessores, que buscaram apoio pol\u00edtico entre as for\u00e7as do centro, como Fernando Henrique Cardoso e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, pela via dos governos de coaliz\u00e3o. Bolsonaro desprezou as alian\u00e7as partid\u00e1rias, prestigiou apenas os setores do Congresso que o apoiaram nas elei\u00e7\u00f5es, como evang\u00e9licos, ruralistas e a \u201cbancada da bala\u201d. Desprezou at\u00e9 mesmo o partido pelo qual se elegeu, o PSL, que contava com a segunda maior bancada na C\u00e2mara, com 41 deputados, muitos dos quais policiais e militares.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a pelo Brasil \u00e9 uma jogada que n\u00e3o deve ser subestimada, pois visa \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um partido de massas, de car\u00e1ter nacional, com uma doutrina reacion\u00e1ria e liga\u00e7\u00f5es internacionais. De certa forma, essa foi a decis\u00e3o mais audaciosa que Bolsonaro tomou no plano estritamente pol\u00edtico, nesse primeiro ano de mandato. \u00c9 uma aposta estrat\u00e9gica para a sua pr\u00f3pria reelei\u00e7\u00e3o. Sua base social \u00e9 formada pelos segmentos que o apoiam incondicionalmente, como militares, policiais, caminhoneiros, garimpeiros, evang\u00e9licos pentecostais, ruralistas e milicianos. N\u00e3o formam a maioria do eleitorado, mas t\u00eam grande capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e identidade program\u00e1tica com a nova legenda.<\/p>\n<p><b>Lava-Jato<\/b><br \/>\n\u00c9 para esses segmentos que a ala ideol\u00f3gica do governo trabalha, mas \u00e9 um erro supor que somente esses setores est\u00e3o sendo atendidos pelo governo. O meio empresarial aposta no sucesso de Bolsonaro, por causa da pol\u00edtica ultraliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes; e tamb\u00e9m setores de classe m\u00e9dia, insatisfeita com a viol\u00eancia urbana e a crise \u00e9tica na pol\u00edtica. S\u00e3o setores que n\u00e3o t\u00eam a mesma afinidade ideol\u00f3gica com Bolsonaro, mas foram decisivos para sua elei\u00e7\u00e3o por causa do seu antipetismo. \u00c9 com essas for\u00e7as que Bolsonaro conta para neutralizar a oposi\u00e7\u00e3o no Congresso e na opini\u00e3o p\u00fablica. Gra\u00e7as a isso, vem mantendo a avalia\u00e7\u00e3o de seu governo na faixa dos 30% de bom e \u00f3timo, 32% de regular e 36% de ruim e p\u00e9ssimo. Se o governo n\u00e3o descarrilar, isso significa presen\u00e7a garantida no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quanto a isso, o ministro da Justi\u00e7a, S\u00e9rgio Moro, passou a ser uma pe\u00e7a-chave no jogo pol\u00edtico, pois encarna a bandeira da \u00e9tica no governo, mas goza de mais prest\u00edgio popular do que Bolsonaro e com ele vem tendo uma rela\u00e7\u00e3o cada vez mais conflituosa. A quest\u00e3o que mais tensiona a rela\u00e7\u00e3o entre ambos \u00e9 o caso Fabr\u00edcio Queiroz, uma investiga\u00e7\u00e3o que envolve o senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (RJ), filho do presidente da Rep\u00fablica, de quem era assessor parlamentar. No momento, o maior estresse entre ambos ocorre porque Bolsonaro n\u00e3o vetou a cria\u00e7\u00e3o pelo Congresso do chamado \u201cjuiz de garantia\u201d, que Moro critica, porque, no seu entendimento, favoreceria a impunidade para os crimes de colarinho branco. Defendida por advogados e a maioria dos pol\u00edticos, a medida \u00e9 pol\u00eamica e enfrenta forte oposi\u00e7\u00e3o de procuradores e ju\u00edzes de primeira inst\u00e2ncia, com o agravante de que teria havido um acordo com o governo no Senado para que a proposta fosse vetada, em troca da aprova\u00e7\u00e3o ainda neste ano do pacote anticrime negociado na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>O assunto esquentou no final do ano porque dois partidos, Podemos e Cidadania, questionam a constitucionalidade da nova lei no Supremo Tribunal Federal (STF), que tamb\u00e9m est\u00e1 sendo muito pressionado pela opini\u00e3o p\u00fablica. A mesma pesquisa Datafolha divulgada ontem mostra que 39% dos consultados avaliam a atua\u00e7\u00e3o do Supremo como ruim ou p\u00e9ssima, enquanto somente 19% dos brasileiros a consideram \u00f3tima ou boa. Para 38%, o trabalho da Corte \u00e9 regular; outros 4% disseram n\u00e3o saber avaliar.Tamb\u00e9m h\u00e1 insatisfa\u00e7\u00e3o com o Congresso, que tem 14% de bom\/\u00f3timo, 38% de regular e 45% de ruim\/p\u00e9ssimo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO bolsonarismo tem certos antecedentes hist\u00f3ricos, mas \u00e9 um fen\u00f4meno \u00fanico, que n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a quebra de paradigmas da pol\u00edtica, a crise \u00e9tica e a emerg\u00eancia das redes sociais\u201d Ningu\u00e9m tem o direito de dizer que se enganou com o presidente Jair Bolsonaro. 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