{"id":4406,"date":"2019-12-31T08:24:15","date_gmt":"2019-12-31T11:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4406"},"modified":"2019-12-31T08:25:14","modified_gmt":"2019-12-31T11:25:14","slug":"nas-entrelinhas-a-fortuna-do-jair","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-fortuna-do-jair\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A Fortuna do Jair"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201c<strong>Bolsonaro n\u00e3o pode tudo, n\u00e3o faz o que quer, quando quer e como quer, embora tente, \u00e0s vezes. Est\u00e1 sendo contingenciado por vari\u00e1veis que, algumas vezes, o obrigam a recuar ou a desistir de certos objetivo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Para encerrar a trilogia de balan\u00e7o do primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro e desejar um ano-novo melhor para todos, essa \u00e9 a esperan\u00e7a generalizada na sociedade, nada melhor do que recorrer ao cl\u00e1ssico dos cl\u00e1ssicos da pol\u00edtica moderna: O Pr\u00edncipe, de Nicolau Maquiavel. Publicada postumamente em 1532, ainda hoje serve de refer\u00eancia para a an\u00e1lise pol\u00edtica. Portanto, quando estamos nos referindo \u00e0 Fortuna, n\u00e3o se trata da evolu\u00e7\u00e3o patrimonial do cl\u00e3 Bolsonaro, mas das circunst\u00e2ncias em que chegou \u00e0 Presid\u00eancia e nas quais governa. Segundo o s\u00e1bio de Floren\u00e7a, h\u00e1 quatro formas de chegar ao poder: pela Virt\u00f9, pela Fortuna; pela viol\u00eancia e pelo consentimento dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Virt\u00f9 e Fortuna formam um par dial\u00e9tico, assim como a for\u00e7a e o consentimento. Obviamente, nas democracias, o consentimento \u00e9 pr\u00e9-requisito para a chegada ao poder. Trocando em mi\u00fados, Virt\u00f9 \u00e9 a coragem, o valor, a capacidade, a efic\u00e1cia pol\u00edtica; j\u00e1 a Fortuna, a sorte, o acaso e as circunst\u00e2ncias. A primeira representava o talento pessoal para dominar as situa\u00e7\u00f5es e alcan\u00e7ar um objetivo, por qualquer meio. Entretanto, a conquista do poder n\u00e3o depende exclusivamente das virtudes individuais, mas tamb\u00e9m das circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis. Na vis\u00e3o de Maquiavel, por\u00e9m, o poder \u00e9 mais duradouro quando obtido pela Virt\u00f9. Conquistado devido \u00e0s circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis, e n\u00e3o pelo pr\u00f3prio m\u00e9rito, \u00e9 inst\u00e1vel e destinados a desaparecer em pouco tempo. Maquiavel usou uma met\u00e1fora para descrever a Fortuna:<\/p>\n<p>\u201cComparo a sorte a um desses rios impetuosos que, quando se irritam, alagam as plan\u00edcies, arrasam as \u00e1rvores e as casas, arrastam terras de um lado para levar a outro: todos fogem deles, mas cedem ao seu \u00edmpeto, sem poder det\u00ea-los em parte alguma. Mesmo assim, nada impede que, voltando a calma, os homens tomem provid\u00eancias, construam barreiras e diques, de modo que, quando a cheia se repetir, ou o rio flua por um canal, ou sua for\u00e7a se torne menos livre e danosa. O mesmo acontece com a Fortuna, que demonstra a sua for\u00e7a onde n\u00e3o encontra uma Virt\u00f9 ordenada, pronta para resistir-lhe e volta o seu \u00edmpeto para onde sabe que n\u00e3o foram erguidos diques ou barreiras para cont\u00ea-las.\u201d<\/p>\n<p>Da mesma forma como circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis facilitaram a vit\u00f3ria de Bolsonaro \u2014 n\u00e3o estou falando da facada que levou em Juiz de Fora, em plena campanha, e seu papel catalisador junto aos eleitores, mas do contexto econ\u00f4mico e pol\u00edtico em que as elei\u00e7\u00f5es se realizaram \u2014, as condi\u00e7\u00f5es em que governa poder\u00e3o selar a sorte de sua gest\u00e3o. Bolsonaro n\u00e3o pode tudo, n\u00e3o faz o que quer, quando quer e como quer, embora tente, \u00e0s vezes. Est\u00e1 sendo contingenciado por vari\u00e1veis que, algumas vezes, o obrigam a recuar ou a desistir de certos objetivos. Um dia desses, Fernando Gabeira, com a arg\u00facia de sempre, chamou a aten\u00e7\u00e3o para isso. O melhor exemplo \u00e9 a pol\u00edtica externa. Seu alinhamento com Donald Trump, num primeiro momento, parecia p\u00f4r o Brasil em plena Guerra Fria, mas as circunst\u00e2ncias frustraram objetivos emblem\u00e1ticos, como a deposi\u00e7\u00e3o de Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela, transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusal\u00e9m, dar as costas ao Mercosul ou entrar em guerra comercial contra a China.<\/p>\n<p><strong>Estado de direito<\/strong><br \/>\n\u00c9 o caso tamb\u00e9m da agenda de costumes de Bolsonaro. O presidente da Rep\u00fablica est\u00e1 implementando sua plataforma eleitoral, o que implica desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas de seus antecessores, em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, cultura e direitos humanos. Mas n\u00e3o pode tudo, porque \u00e9 contingenciado por outros poderes da Rep\u00fablica, como Congresso, que derruba vetos, engaveta projetos e deixa caducar medidas provis\u00f3rias, e o Judici\u00e1rio, como no caso da homofobia, criminalizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). H\u00e1 que se destacar tamb\u00e9m o papel da alta burocracia federal e outros entes federados, como estados e munic\u00edpios, na tarefa de mitigar certas a\u00e7\u00f5es e propostas do governo que confrontam amplos consensos existentes na esfera p\u00fablica e na sociedade.<\/p>\n<p>A mesma coisa vale para a economia, por exemplo, ainda que esse seja o ponto forte de seu governo. A efic\u00e1cia da pol\u00edtica ultraliberal do ministro Paulo Guedes tem uma fronteira sinuosa do ponto de vista social: a retomada do crescimento n\u00e3o se dar\u00e1 na escala necess\u00e1ria para resolver o problema do desemprego, at\u00e9 porque o aumento da produtividade das empresas depende muito mais dos insumos tecnol\u00f3gicos e da inova\u00e7\u00e3o do que da explora\u00e7\u00e3o intensiva de m\u00e3o de obra. A concentra\u00e7\u00e3o de renda e a iniquidade social no Brasil n\u00e3o podem ser atribu\u00eddas ao governo Bolsonaro, s\u00e3o fruto de um modelo de desenvolvimento que se esgotou e, nos \u00faltimos 50 anos, todas as vezes em que buscou altas taxas de crescimento, provocou desajustes estruturais por falta de sustentabilidade.<\/p>\n<p>Mas, na verdade, ao se eleger presidente da Rep\u00fablica, Bolsonaro virou s\u00f3cio desses problemas. \u00c9 contingenciado por eles e, em algum momento, como seus antecessores, ser\u00e1 instado pelo povo a apresentar solu\u00e7\u00f5es exequ\u00edveis. Esse ser\u00e1 um momento crucial de seu governo, que submeter\u00e1 a democracia brasileira a um teste de for\u00e7a, porque a tend\u00eancia de Bolsonaro, at\u00e9 agora, ao frustrar expectativas populares, tem sido mobilizar seus apoiadores para responsabilizar os demais poderes e a oposi\u00e7\u00e3o pelas suas dificuldades. O fato \u00e9 que temos um governo assumidamente de direita num contexto institucional de Estado de direito democr\u00e1tico, essa \u00e9 a grande Fortuna. Bolsonaro faz um governo contingenciado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988; por isso mesmo, n\u00e3o pode ser caracterizado como protofascista, como afirmam certos setores da oposi\u00e7\u00e3o. Entretanto, quando n\u00e3o respeita o direito ao dissenso e \u00e0 identidade das minorias, afronta a democracia e legitima essa narrativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro n\u00e3o pode tudo, n\u00e3o faz o que quer, quando quer e como quer, embora tente, \u00e0s vezes. 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