{"id":4410,"date":"2020-01-01T09:17:41","date_gmt":"2020-01-01T12:17:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4410"},"modified":"2020-01-01T09:17:41","modified_gmt":"2020-01-01T12:17:41","slug":"nas-entrelinhas-a-forca-do-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-forca-do-dialogo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A for\u00e7a do di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201dSe Deus soubesse o que acontecer\u00e1, o futuro seria uma verdade absoluta e n\u00e3o existiria liberdade de escolha. Entretanto, ainda n\u00e3o aconteceu. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel influenci\u00e1-lo\u201c<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com dire\u00e7\u00e3o primorosa de Fernando Meirelles, roteiro de Anthony McCarten e fotografia de Cesar Charlone, Dois Papas \u00e9 um filma\u00e7o da Netflix, com interpreta\u00e7\u00f5es impec\u00e1veis de Jonathan Pryce, no papel do cardeal Jorge Berg\u00f3lio, que viria a ser eleito o papa Francisco, e Anthony Hopkins, aos 80 anos, encarnando o Papa Bento XVI, que surpreendeu o mundo com uma ren\u00fancia at\u00e9 ent\u00e3o inimagin\u00e1vel. Os dois travam um duelo verbal no qual os fatos hist\u00f3ricos e a fic\u00e7\u00e3o se desenrolam como uma espiral de h\u00e9lice dupla, que simultaneamente descreve as personalidades de ambos e traduz velhas pol\u00eamicas sobre o livre-arb\u00edtrio e o poder da f\u00e9. \u00c9 um filme que mostra a for\u00e7a e a import\u00e2ncia do di\u00e1logo.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dele que sugiro uma reflex\u00e3o sobre 2020. As comemora\u00e7\u00f5es de passagem de ano t\u00eam origem 3 mil anos antes de Cristo, na Babil\u00f4nia. Duravam 11 dias, seis a mais do que as de Salvador neste ano. Inclu\u00edam prociss\u00f5es, ritos de fertilidade e sacrif\u00edcios. O ano-novo romano, que deu origem \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o mais universal (tamb\u00e9m existem o ano-novo chin\u00eas, o isl\u00e2mico e o judaico), foi criado por Julio Cesar, 43 anos antes de Cristo, por meio de decreto que dedicou o primeiro dia do ano a Jano, o deus de duas cabe\u00e7as das origens. \u00c9 uma festa pag\u00e3, cujas supersti\u00e7\u00f5es t\u00eam as mais diversas proced\u00eancias, das oferendas \u00e0 Iemanj\u00e1, de origem iorub\u00e1, ao costume tcheco de comer lentilhas. Como rito de passagem, por\u00e9m, as comemora\u00e7\u00f5es de ano-novo nunca foram celebradas pela B\u00edblia, que condena a adora\u00e7\u00e3o falsa e os excessos das festas de fim de ano.<\/p>\n<p>\u00c9 uma das muitas contradi\u00e7\u00f5es da doutrina cat\u00f3lica com a pr\u00f3pria f\u00e9 dos crist\u00e3os, o fio condutor do di\u00e1logo entre Berg\u00f3lio, um ex-jesu\u00edta, e Joseph Aloisius Ratzinger, que ascendeu ao papado como grande te\u00f3logo conservador de Jo\u00e3o Paulo II. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o espa\u00e7o vazio deixado pela Igreja, ap\u00f3s as comemora\u00e7\u00f5es do Natal, acabou ocupado no Brasil pela alegria e pela energia espiritual do candombl\u00e9 e da umbanda, que dominam o sincretismo do ano-novo. Para os crist\u00e3os, independentemente dos ritos, ano-novo \u00e9 sin\u00f4nimo de esperan\u00e7a e mudan\u00e7a, tem tudo a ver com o livre-arb\u00edtrio e o poder da f\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Livre-arb\u00edtrio<\/strong><br \/>\nA pol\u00eamica crist\u00e3 sobre o livre-arb\u00edtrio surgiu no norte da \u00c1frica, no in\u00edcio do s\u00e9culo V, entre Santo Agostinho e o monge celta Pel\u00e1gio, por causa do batismo de uma crian\u00e7a. Os crist\u00e3os acreditavam que o batismo lavava as manchas do pecado original. Perl\u00e1gio dizia que as crian\u00e7as n\u00e3o precisavam ser batizadas, porque n\u00e3o tinham livre-arb\u00edtrio e, portanto, n\u00e3o pecavam. E se mais tarde escolhessem o caminho de Deus, nem precisariam ser batizadas. Agostinho de Hipona, que estudou filosofia grega em Cartago e somente foi batizado aos 33 anos, depois de retornar ao cristianismo que havia abandonado quando jovem, sustentou a tese de que era imposs\u00edvel escolher o caminho de Deus por vontade pr\u00f3pria. Para isso, segundo ele, era preciso a ajuda de Deus, da\u00ed a import\u00e2ncia do batismo.<\/p>\n<p>No filme, a conversa entre os dois papas gravita em torno do livre-arb\u00edtrio e da vontade de Deus, porque Berg\u00f3lio queria se aposentar e precisava da autoriza\u00e7\u00e3o do papa. Mas n\u00e3o sabia que Ratzinger tinha o mesmo desejo e via nele seu sucessor, embora divergissem em quase tudo. De forma subliminar, a conversa entre ambos gira em torno da doutrina da predestina\u00e7\u00e3o, desenvolvida por Agostinho: \u00e9 imposs\u00edvel a escolha do caminho de Deus por vontade pr\u00f3pria, para isso \u00e9 preciso uma gra\u00e7a divina. Fora uma sa\u00edda salom\u00f4nica para a preserva\u00e7\u00e3o do dogma do batismo, a gra\u00e7a redentora do pecado original, a partir da qual o livre-arb\u00edtrio \u00e9 poss\u00edvel. Curioso \u00e9 que a tese da predestina\u00e7\u00e3o foi adotada de forma radical pelos protestantes, principalmente os calvinistas, a partir do princ\u00edpio de que Deus n\u00e3o falha, tudo est\u00e1 decidido por Ele. N\u00e3o era essa, por\u00e9m, a vis\u00e3o de Agostinho: a escolha de Deus n\u00e3o substitui a escolha humana, mas a possibilita.<\/p>\n<p>Essa pol\u00eamica \u00e9 o fio condutor da conversa entre os dois papas sobre a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com o mundo atual, entre ironias, piadas e d\u00favidas existenciais sobre a f\u00e9 em Deus. O resultado do di\u00e1logo entre o conservador Ratzinger e o reformista Berg\u00f3lio \u00e9 a op\u00e7\u00e3o de ambos pela mudan\u00e7a. O primeiro era impopular, sendo at\u00e9 chamado de ex-nazista por sua passagem pela Juventude Hitlerista na Alemanha; o segundo, carrega a culpa de ter conciliado com a ditadura da Argentina, quando fora o chefe dos jesu\u00edtas, o que acarretou a pris\u00e3o de alguns religiosos aos quais havia proibido de ministrar o sacramento, por fazerem oposi\u00e7\u00e3o ao regime, o que serviu de justificativa para que fossem presos.<\/p>\n<p>Embora Deus seja onisciente, para os te\u00f3logos, se Deus soubesse o que acontecer\u00e1, o futuro seria uma verdade absoluta e n\u00e3o existiria liberdade de escolha. Nesse caso, a pr\u00f3pria bondade de Deus estaria comprometida e n\u00e3o teria sentido a vinda de Jesus para a Terra, t\u00e3o celebrada pelo cristianismo nas noites de Natal. Entretanto, como o futuro ainda n\u00e3o aconteceu, ele n\u00e3o existe. Por isso, para o cristianismo, \u00e9 poss\u00edvel influenci\u00e1-lo com rezas e a\u00e7\u00f5es no presente. O futuro \u00e9 aberto \u00e0s mudan\u00e7as. Em tempos de terraplanistas e fundamentalistas, esse \u00e9 o recado do filme para cat\u00f3licos e n\u00e3o-cat\u00f3licos. Feliz ano-novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201dSe Deus soubesse o que acontecer\u00e1, o futuro seria uma verdade absoluta e n\u00e3o existiria liberdade de escolha. Entretanto, ainda n\u00e3o aconteceu. 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