{"id":4429,"date":"2020-01-07T06:52:12","date_gmt":"2020-01-07T09:52:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4429"},"modified":"2020-01-07T06:52:12","modified_gmt":"2020-01-07T09:52:12","slug":"nas-entrelinhas-sentinelas-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sentinelas-da-liberdade\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Sentinelas da liberdade"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cSe um homem faz a imprensa dizer coisas atrozes, ele se torna t\u00e3o respons\u00e1vel por elas como se ele as tivesse dito pela boca&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O baiano Cipriano Jos\u00e9 Barata de Almeida (Salvador, 1762; Natal, 1838) foi o mais famoso jornalista da \u00e9poca da Independ\u00eancia, causa que abra\u00e7ou e que lhe valeu longos per\u00edodos de cadeia: foi detido um ano e meio durante a Conjura\u00e7\u00e3o Baiana (1798); por causa da Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana de 1817, foi preso por ordem pessoal de D. Pedro I entre novembro de 1823 e setembro de 1830; e voltou \u00e0s grades no per\u00edodo Regencial, entre 1831 e in\u00edcio de 1834, o que somaram 11 anos de pris\u00e3o, mais do que o per\u00edodo em que o l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes esteve preso durante a ditadura de Get\u00falio Vargas: de 1936 a 1945.<\/p>\n<p>Formado em filosofia na Universidade de Coimbra, Cipriano foi impiedosamente perseguido porque, nas d\u00e9cadas de 1820-30, se tornou o s\u00edmbolo da luta pela autonomia das prov\u00edncias, do Par\u00e1 e Maranh\u00e3o ao Rio Grande do Sul. Era influente principalmente no Cear\u00e1, na Para\u00edba, em Pernambuco, na Bahia, em Minas Gerais e at\u00e9 no Rio de Janeiro. Amigo de Frei Caneca, um dos l\u00edderes da Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, tornou-se advers\u00e1rio de antigos aliados, como Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrade e Silva, Jos\u00e9 da Silva Lisboa (visconde de Cairu) e o regente Diogo Feij\u00f3.<\/p>\n<p>Deputado constituinte, em 1823, Cipriano lan\u00e7ou o jornal Sentinela da Liberdade. Defendia a Independ\u00eancia com mudan\u00e7as radicais e era contra a escravatura. O jornal sa\u00eda \u00e0s quartas-feiras, com linguagem vigorosa e cr\u00edtica, mostrando as falhas do poder. Em 1825, depois de ser preso na Fortaleza do Brum, no Recife, por participar da Confedera\u00e7\u00e3o do Equador (rebeli\u00e3o que reuniu v\u00e1rios estados do Nordeste contra D. Pedro I), Barata publicou seu jornal com o t\u00edtulo Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco.<\/p>\n<p>Cada vez que mudava de pris\u00e3o, quando surgia a oportunidade, com ajuda dos aliados, publicava um novo jornal: Sentinela da Liberdade na Guarda do Quartel General, Sentinela da Liberdade na Guarita de Villegaignon. Em 1835, Barata escrevia o seu \u00faltimo Sentinela da Liberdade, aos 73 anos. O jornal durou 13 anos, mas outros apareceram em todo o pa\u00eds, com o mesmo nome, mesmo depois de sua morte, em 1\u00ba de julho de 1838.<\/p>\n<p>Foi um \u201ccampe\u00e3o da liberdade de imprensa\u201d: \u201cToda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre est\u00e1 em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, seguran\u00e7a e fortuna; se, pelo fato contr\u00e1rio, aquela sociedade ou povo que tiver imprensa cortada pela censura pr\u00e9via, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, \u00e9 povo escravo que pouco a pouco h\u00e1 de ser desgra\u00e7ado at\u00e9 se reduzir ao mais brutal cativeiro\u201d, dizia.<\/p>\n<p><b>Responsabilidade<\/b><br \/>\nA trajet\u00f3ria de Cipriano Barata s\u00f3 encontra paralelo na de Thomas Paine (1737-1809), cidad\u00e3o ingl\u00eas julgado e condenado por trai\u00e7\u00e3o em seu pa\u00eds, cidad\u00e3o honor\u00e1rio da Fran\u00e7a, pioneiro defensor dos direitos do homem e ativo participante das duas principais revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas modernas, a francesa e a americana. Suas ideias foram resgatadas por Barack Obama nas comemora\u00e7\u00f5es dos 200 anos da Independ\u00eancia dos Estados Unidos. \u00c9 dele o primeiro texto a sistematizar o conceito de liberdade de imprensa, publicado no American Citizen, em 19 de outubro de 1806, um jornal influente em Nova York \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Amigo do ent\u00e3o presidente dos EUA, Thomas Jefferson (1743-1826), Paine dizia que o patrim\u00f4nio mais importante dos jornais \u00e9 a sua credibilidade. Sem ela, as causas defendidas por eles ser\u00e3o sempre derrotadas, porque \u201cningu\u00e9m acredita em um mentiroso vulgar ou em um difamador comum\u201d. Segundo Paine, o termo liberdade de imprensa passou a ser usado quando a Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa de 1688 aboliu a exig\u00eancia de autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do \u201cImprimateur\u201d do governo (autoriza\u00e7\u00e3o) para a impress\u00e3o de textos. Ele chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a liberdade de imprimir nada tem a ver com o conte\u00fado impresso. A responsabilidade sobre o conte\u00fado \u00e9 de quem escreve. Para ele, a liberdade de imprimir n\u00e3o exime o autor de ser julgado pelo p\u00fablico ou de responder, perante os poderes constitu\u00eddos, pelo conte\u00fado impresso:<\/p>\n<p>\u201cA imprensa, que \u00e9 uma l\u00edngua para os olhos, foi, ent\u00e3o, colocada exatamente na situa\u00e7\u00e3o da l\u00edngua humana. Um homem n\u00e3o demanda liberdade antecipadamente para falar algo que ele tem a dizer, mas ele se torna respons\u00e1vel depois pelas atrocidades que ele pode ter dito. Da mesma forma, se um homem faz a imprensa dizer coisas atrozes, ele se torna t\u00e3o respons\u00e1vel por elas como se ele as tivesse dito pela boca. O Sr. Jefferson disse em seu discurso de posse que \u2018o erro de opini\u00e3o pode ser tolerado quando a raz\u00e3o foi deixada livre para combat\u00ea-lo\u2019.\u201d<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro disse ontem que os jornalistas s\u00e3o uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o. No natimorto projeto de reforma trabalhista do governo, a categoria fazia parte das profiss\u00f5es que seriam extintas, mas isso dependeria do Congresso e, sobretudo, do mercado. A imprensa passa por uma crise decorrente da mudan\u00e7a de plataforma de comunica\u00e7\u00e3o, na qual o velho tipo m\u00f3vel de Guttemberg deu lugar ao hiperlink da internet, o papel, ao smartphone, as rotativas, \u00e0s redes sociais. Mas a alma dos jornalistas, como as de Barata e Paine, n\u00e3o morreu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe um homem faz a imprensa dizer coisas atrozes, ele se torna t\u00e3o respons\u00e1vel por elas como se ele as tivesse dito pela boca&#8221; O baiano Cipriano Jos\u00e9 Barata de Almeida (Salvador, 1762; Natal, 1838) foi o mais famoso jornalista da \u00e9poca da Independ\u00eancia, causa que abra\u00e7ou e que lhe valeu longos per\u00edodos de cadeia: foi detido um ano e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28,4,7,9,3,48],"tags":[616,130,379,590,617],"class_list":["post-4429","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-governo","category-justica","category-politica-2","category-politica","category-trabalho","tag-barata","tag-bolsonaro","tag-imprensa","tag-liberdade","tag-paine"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4429"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4429\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4435,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4429\/revisions\/4435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}