{"id":4464,"date":"2020-01-19T07:13:54","date_gmt":"2020-01-19T10:13:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4464"},"modified":"2020-01-19T07:16:05","modified_gmt":"2020-01-19T10:16:05","slug":"nas-entrelinhas-a-banalidade-do-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-banalidade-do-odio\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A banalidade do \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<h4>\u201c<em><strong>Ricardo Alvim procurou implantar uma pol\u00edtica cultural reacion\u00e1ria, de inspira\u00e7\u00e3o \u2014 agora est\u00e1 comprovado \u2014 nazista&#8221;<\/strong><\/em><\/h4>\n<p>Hannah Arendt (1906-1975), a fil\u00f3sofa judia de origem alem\u00e3 que cunhou o conceito de \u201cbanalidade do mal\u201d no livro Eichmann em Jerusal\u00e9m, criou grande pol\u00eamica ao afirmar que a massifica\u00e7\u00e3o da sociedade gerou uma multid\u00e3o incapaz de fazer julgamentos, aceitando e cumprindo ordens sem questionar. Por essa raz\u00e3o, Adolf Eichmmann, raptado pelos servi\u00e7os secretos israelitas na Argentina em 1960, e julgado em Jerusal\u00e9m (caso que a fil\u00f3sofa acompanhou de corpo presente no tribunal, numa reportagem para a revista The New Yorker), n\u00e3o \u00e9 tratado como um monstro. Ela o considerou apenas um funcion\u00e1rio zeloso que foi incapaz de resistir \u00e0s ordens que recebeu, embora fosse um dos respons\u00e1veis pela execu\u00e7\u00e3o da chamada \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d, o Holocausto.<\/p>\n<p>Arendt escandalizou a comunidade judaica ao citar exemplos de judeus e institui\u00e7\u00f5es judaicas que se submeteram aos nazistas ou cumpriram as suas diretivas sem questionar. A autora de As origens do totalitarismo; A condi\u00e7\u00e3o humana; Sobre a viol\u00eancia; e Homens em tempos sombrios merece ser revisitada nesses momentos nebulosos que a sociedade brasileira atravessa, a prop\u00f3sito da cita\u00e7\u00e3o de trechos do ide\u00f3logo nazista Joseph Goebbels pelo dramaturgo Roberto Alvim, rec\u00e9m-exonerado do cargo de secret\u00e1rio de Cultura do governo Bolsonaro por esse motivo.<\/p>\n<p>Disc\u00edpulo de Olavo de Carvalho, gozava de grande prest\u00edgio junto ao chefe do governo, a ponto de o presidente Jair Bolsona, numa live, na quinta-feira passada, ter afirmado: \u201cAo meu lado, aqui, o Roberto Alvim, o nosso secret\u00e1rio de Cultura. Agora temos, sim, um secret\u00e1rio de Cultura de verdade. Que atende o interesse da maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira, popula\u00e7\u00e3o conservadora e crist\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo de inspira\u00e7\u00e3o nazista de Alvim foi o auge de uma s\u00e9rie de fatos nos quais o ex-secret\u00e1rio procurou implantar uma pol\u00edtica cultural reacion\u00e1ria, de inspira\u00e7\u00e3o \u2014 agora est\u00e1 comprovado \u2014 nazista. Num v\u00eddeo institucional, o dramaturgo interpretou o papel do ministro da propaganda nazista, tendo a Cruz de Lorena como ins\u00edgnia no cen\u00e1rio; como trilha sonora, a \u00f3pera Lohengrin, de Richard Wagner, compositor favorito de Adolf Hitler. O mais grave foi ter utilizado o conceito de cultura de Goebbels, num trecho de sua fala, na qual imitava o ar sisudo do pol\u00edtico nazista: \u201cA arte brasileira da pr\u00f3xima d\u00e9cada ser\u00e1 heroica e ser\u00e1 nacional, ser\u00e1 dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e ser\u00e1 igualmente imperativa, posto que \u00e9 profundamente vinculada \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es urgentes do nosso povo \u2014 ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada\u201d.<\/p>\n<p><strong>Bagrinho<\/strong><br \/>\nO texto original de Joseph Goebbels, reproduzido numa biografia do historiador alem\u00e3o Peter Longerich, fica comprovada a cita\u00e7\u00e3o sem refer\u00eancia ao autor, \u00e9 claro, porque a\u00ed tamb\u00e9m j\u00e1 seria bandeira demais: \u201cA arte alem\u00e3 da pr\u00f3xima d\u00e9cada ser\u00e1 heroica, ser\u00e1 ferreamente rom\u00e2ntica, ser\u00e1 objetiva e livre de sentimentalismo, ser\u00e1 nacional com grande pathos (pot\u00eancia emocional) e igualmente imperativa e vinculante, ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada\u201d. Ocorre que, como sabemos, essas coisas n\u00e3o passam despercebidas no mundo da cultura. Goebbels foi o que seria hoje o marqueteiro de Hitler, montou uma m\u00e1quina de propaganda formid\u00e1vel, respons\u00e1vel pela tal \u201cbanaliza\u00e7\u00e3o do mal\u201d. Seu fanatismo era tanto que foi nomeado seu sucessor por Hitler, antes de se suicidar; Goebbels preferiu seguir o exemplo do chefe, mas antes matou a mulher e os seis filhos.<\/p>\n<p>Goebbels tinha o cargo de chefe de propaganda do Partido Nazista e foi protagonista da tomada do poder em 1933, ao conseguir convencer a opini\u00e3o p\u00fablica de que Hitler era a melhor op\u00e7\u00e3o para aquele momento. Como ministro da Informa\u00e7\u00e3o e Propaganda, atuou para que os meios de comunica\u00e7\u00e3o social e as institui\u00e7\u00f5es culturais difundissem o ideal nazista, sendo respons\u00e1vel por convencer a sociedade alem\u00e3 de que os crimes cometidos pelo nazismo, como a \u201cnoite dos cristais\u201d, eram justific\u00e1veis. Na ocasi\u00e3o, em 1938, foram destru\u00eddas sinagogas, casas e lojas de judeus. E era o come\u00e7o do Holocausto.<\/p>\n<p>Voltando ao tema da banalidade do mal, Alvim nem de longe pode ser comparado a Goebbels. Chefiava o Centro de Artes C\u00eanicas (Ceacen) da Funarte, quando declarou apoio ao ent\u00e3o candidato do PSL. Com as devidas ressalvas, seu papel \u00e9 mais semelhante ao de Adolf Eichmmann, o burocrata que mandava os judeus para os campos de exterm\u00ednio. Faz parte do grupo de bagrinhos das mais diversas \u00e1reas que ocupam cargos importantes no governo por afinidade ideol\u00f3gica ou mero oportunismo, para cumprir ordens, mas descambou do conservadorismo dos costumes para o discurso do \u00f3dio. Quando estava na Funarte, Alvim costumava destacar a necessidade de se combater o \u201cmarxismo cultural\u201d, uma express\u00e3o amplamente utilizada na Alemanha nazista. Viu seu prest\u00edgio com Bolsonaro aumentar ao atacar, com ofensas, a atriz Fernanda Montenegro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cRicardo Alvim procurou implantar uma pol\u00edtica cultural reacion\u00e1ria, de inspira\u00e7\u00e3o \u2014 agora est\u00e1 comprovado \u2014 nazista&#8221; Hannah Arendt (1906-1975), a fil\u00f3sofa judia de origem alem\u00e3 que cunhou o conceito de \u201cbanalidade do mal\u201d no livro Eichmann em Jerusal\u00e9m, criou grande pol\u00eamica ao afirmar que a massifica\u00e7\u00e3o da sociedade gerou uma multid\u00e3o incapaz de fazer julgamentos, aceitando e cumprindo ordens sem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28,4,164,92,9,3],"tags":[637,130,100,638,363],"class_list":["post-4464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-governo","category-guerra","category-literatura","category-politica-2","category-politica","tag-alvim","tag-bolsonaro","tag-cultura","tag-goebbels","tag-nazismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4464"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4464\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4474,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4464\/revisions\/4474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}