{"id":4471,"date":"2020-01-21T07:51:53","date_gmt":"2020-01-21T10:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4471"},"modified":"2020-01-21T10:29:10","modified_gmt":"2020-01-21T13:29:10","slug":"nas-entrelinhas-a-namoradinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-namoradinha\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A namoradinha"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>&#8220;Regina Duarte na Secretaria de Cultura pode representar o fim da ofensiva obscurantista e reacion\u00e1ria contra a classe art\u00edstica, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Em mi\u00fados, pode ser pior sem ela\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro est\u00e1 em vias de transformar um lim\u00e3o em limonada, com a nomea\u00e7\u00e3o da atriz Regina Duarte para o cargo de secret\u00e1ria de Cultura, no lugar do neonazista enrustido Roberto Alvim. Ontem, o Pal\u00e1cio do Planalto confirmou que a protagonista da s\u00e9rie Malu Mulher e das novelas Minha Doce Namorada, na qual era a jovem Patr\u00edcia, e Roque Santeiro, em que interpretou a Vi\u00fava Porcina, entre outros pap\u00e9is de destaque, vir\u00e1 a Bras\u00edlia amanh\u00e3 para conhecer a Secretaria Especial da Cultura. Foi convidada por Bolsonaro para assumir o \u00f3rg\u00e3o. Os dois tiveram uma reuni\u00e3o no Rio de Janeiro, onde foi convidada. Depois da conversa, ela escreveu que est\u00e1 \u201cnoivando\u201d com o governo.<\/p>\n<p>Bolsonaro resumiu os entendimentos no Twitter: \u201cTivemos uma excelente conversa sobre o futuro da cultura no Brasil. Iniciamos um &#8216;noivado&#8217; que possivelmente trar\u00e1 frutos ao pa\u00eds\u201d, escreveu o presidente. Conservadora assumida, antipetista de primeira hora, Regina Duarte participou das campanhas das Diretas, J\u00e1!, de Tancredo Neves (1985) e Jos\u00e9 Serra (2002). Reconhecidamente, \u00e9 uma grande atriz e tem o respeito da maioria de seus colegas, mas nunca teve unanimidade. Agora, sofrer\u00e1 uma campanha de feroz oposi\u00e7\u00e3o, porque assume o cargo em circunst\u00e2ncias muito desfavor\u00e1veis, uma vez que seu antecessor desnudou um projeto reacion\u00e1rio de cultura, cuja inspira\u00e7\u00e3o estava na m\u00e1quina de propaganda nazista. A quest\u00e3o \u00e9: far\u00e1 uma inflex\u00e3o nos rumos da pasta ou seguir\u00e1 a mesma orienta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>No governo Bolsonaro, a fronteira entre o conservadorismo e o reacionarismo \u00e9 muito sinuosa, por\u00e9m, j\u00e1 foi atravessada nas \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o, cultura, direitos humanos e meio ambiente. Agora, o que foi barrado pela forte rea\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, do mundo art\u00edstico-cultural, da imprensa e at\u00e9 mesmo de setores militares no governo foi a narrativa fascista, que orienta a deriva contra a democracia de setores do governo. A crise provocada por Ricardo Alvim, ao reproduzir em v\u00eddeo trechos de um discurso de Joseph Goebbels, o ministro da Cultura e Propaganda de Adolf Hitler, levou-o \u00e0 demiss\u00e3o, a contragosto do presidente. Pouco antes do \u201csinceric\u00eddio\u201d, numa live, Bolsonaro havia elogiado o seu ent\u00e3o secret\u00e1rio de Cultura, que estava ao seu lado.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio serviu para corroborar a narrativa dos setores da oposi\u00e7\u00e3o que caracterizam o governo como fascista ou protofascista, ou seja, que denunciam a fascistiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o muito relevante por todas as suas implica\u00e7\u00f5es. Em todas as crises do governo, at\u00e9 agora, o que se viu foi um recuo de Bolsonaro diante das rea\u00e7\u00f5es da sociedade civil e dos demais poderes da Rep\u00fablica. No caso de Ricardo Alvim, esse recuo se deu em menos de 48 horas, ap\u00f3s os presidentes da C\u00e2mara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), terem solicitado a demiss\u00e3o de Alvim, al\u00e9m das cr\u00edticas do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, e da opini\u00e3o p\u00fablica nas redes sociais, principalmente no Twitter, o principal instrumento de comunica\u00e7\u00e3o direta de Bolsonaro com a sociedade. Ou seja, nesses momentos, a democracia se fez mais forte do que o presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Bonapartismo<\/strong><br \/>\nA narrativa reacion\u00e1ria e chauvinista n\u00e3o basta para caracterizar um governo como fascista, a rigor, uma ditadura aberta, que recorre ao terror de Estado para esmagar a oposi\u00e7\u00e3o. A express\u00e3o protofascista carrega ideia err\u00f4nea de inevitabilidade da fascistiza\u00e7\u00e3o do regime pol\u00edtico, porque proto significa primeiro ou o que antecede. Essa discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova. Historicamente, ocorreu na Alemanha da Rep\u00fablica de Weimar, \u00e0s v\u00e9speras da ascens\u00e3o de Hitler ao poder, quando os comunistas do KPD, herdeiros dos espartaquistas Karl Liebenik e Rosa Luxemburgo, chamavam a social-democracia alem\u00e3 de social-fascista, abrindo caminho para a ascens\u00e3o do Partido Nazista.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, situa\u00e7\u00e3o semelhante ocorreu em pleno Estado Novo, de clara inspira\u00e7\u00e3o fascista, mas o Brasil acabou entrando na II Guerra Mundial ao lado dos Aliados, porque, em seu interior, os american\u00f3filos liderados por Osvaldo Aranha, Amaral Peixoto e Gustavo Capanema demoveram o ditador Get\u00falio Vargas e isolaram os simpatizantes do Eixo, encabe\u00e7ados por Francisco Campos, G\u00f3is Monteiro e Filinto M\u00fcller. Agora, Ricardo Alvim ofendeu a mem\u00f3ria da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB), que lutou nos campos da It\u00e1lia contra o nazifascismo, da\u00ed a rea\u00e7\u00e3o dos militares que integram o governo, que tamb\u00e9m pediram sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O governo Bolsonaro tem caracter\u00edsticas bonapartistas, ou seja, preserva autonomia relativa e se coloca acima das classes sociais, embora sua pol\u00edtica econ\u00f4mica esteja alinhada ao mercado financeiro. Ao confundir alhos com bugalhos, a oposi\u00e7\u00e3o unifica o governo e acaba, ela sim, se isolando. De certa forma, a presen\u00e7a de Regina Duarte na Secretaria de Cultura pode representar o fim da ofensiva obscurantista e reacion\u00e1ria contra a classe art\u00edstica, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Trocando em mi\u00fados, pode ser pior sem ela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Regina Duarte na Secretaria de Cultura pode representar o fim da ofensiva obscurantista e reacion\u00e1ria contra a classe art\u00edstica, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. 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