{"id":4510,"date":"2020-02-02T07:53:39","date_gmt":"2020-02-02T10:53:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4510"},"modified":"2020-02-02T07:53:39","modified_gmt":"2020-02-02T10:53:39","slug":"nas-entrelinhas-humanos-como-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-humanos-como-nos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Humanos como n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<h4>\u201c<em><strong>Os povos isolados t\u00eam o direito de decidir se preferem viver em isolamento ou n\u00e3o. Para exercer esse direito, por\u00e9m, precisam de tempo e espa\u00e7o\u201d<\/strong><\/em><\/h4>\n<p>Considerado o pai da antropologia estruturalista, o franco-belga Claude L\u00e9vi-Strauss (1908 \u2014 2009), entre 1935 e 1939, dedicou-se a estudar os \u00edndios do Brasil Central, base para a publica\u00e7\u00e3o de sua tese As estruturas elementares do parentesco, em 1949. Ele rompeu com a ideia de que os \u00edndios s\u00e3o apenas \u00edndios, porque n\u00e3o concordava com a divis\u00e3o entre civilizados e selvagens. L\u00e9vi-Strauss foi professor da rec\u00e9m-criada Universidade de S\u00e3o Paulo, com sua esposa Dinah L\u00e9vi-Strauss, Fernand Braudel, Jean Maug\u00fc\u00e9 e Pierre Monbeig, e realizou pesquisas de campo em Goi\u00e1s, Mato Grosso e Paran\u00e1, que tamb\u00e9m resultaram no livro Tristes Tr\u00f3picos (1955). Procurou decifrar as rela\u00e7\u00f5es entre o ser humano, a natureza e a cultura.<\/p>\n<p>Para o antrop\u00f3logo, o ser humano se diferencia dos outros animais devido ao uso de s\u00edmbolos para se comunicar, n\u00e3o importa as particularidades de cada grupo humano. Seu objetivo n\u00e3o era estudar uma sociedade espec\u00edfica, mas identificar o que h\u00e1 nela de universal; por exemplo, sistemas de parentesco e restri\u00e7\u00f5es matrimoniais. Gra\u00e7as aos \u00edndios, por exemplo, sua compreens\u00e3o do incesto ultrapassou as explica\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas ou morais. A proibi\u00e7\u00e3o de manter rela\u00e7\u00f5es sexuais com certas mulheres (como a m\u00e3e ou a irm\u00e3) e a permiss\u00e3o para t\u00ea-las com outras teceram as alian\u00e7as fundadoras da vida social. O sistema de parentesco \u00e9 o meio pelo qual se cumpre a transi\u00e7\u00e3o entre a natureza e a cultura. Explica, por exemplo, como se formou a economia do sert\u00e3o no Brasil colonial, a partir da miscigena\u00e7\u00e3o e do escambo entre os tupis e os portugueses.<\/p>\n<p>Na monumental Mitol\u00f3gicas, de 1960, com mais de 2 mil p\u00e1ginas, L\u00e9vi-Straus analisou 813 mitos origin\u00e1rios de povos do continente americano, desde os bororos, os j\u00eas e os tupi-cava\u00edbas do Brasil at\u00e9 os hopi, os pueblo, os mohawk e os kwakiutl da Am\u00e9rica do Norte. No primeiro volume, intitulado O Cru e o Cozido, comparou a an\u00e1lise conjunta dos mitos americanos \u00e0 audi\u00e7\u00e3o de uma sinfonia. Os m\u00fasicos, por\u00e9m, est\u00e3o separados no tempo e no espa\u00e7o, e cada um executa seu fragmento sem saber a partitura completa. S\u00f3 \u00e9 capaz de ouvir a m\u00fasica inteira quem estiver a dist\u00e2ncia. O concerto, segundo L\u00e9vi-Strauss, iniciou-se h\u00e1 mil\u00eanios e hoje poucos m\u00fasicos remanescentes continuam a tocar na orquestra.<\/p>\n<p><b>Isolamento<\/b><br \/>\nNo Maranh\u00e3o, Karapiru, um ind\u00edgena Aw\u00e1, \u00e9 um dos remanescentes da orquestra. Sobreviveu a um ataque de homens armados e, durante dez anos, morou sozinho, se escondendo na floresta. Agora vive com outros Aw\u00e1, que s\u00e3o ca\u00e7adores-coletores e n\u00f4mades em constante movimento. Em Rond\u00f4nia, outro \u00edndio solit\u00e1rio talvez seja o \u00fanico sobrevivente de uma tribo massacrada por grileiros que ocuparam a regi\u00e3o de Tanuro. Vive em fuga e \u00e9 conhecido como \u201chomem do buraco\u201d, porque escava grandes covas para se esconder e guardar seus alimentos. Desde 1987, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) tem um departamento dedicado aos povos ind\u00edgenas isolados, cuja pol\u00edtica \u00e9 fazer contato somente nos casos em que sua sobreviv\u00eancia est\u00e1 em risco iminente. Em vez disso, a Funai busca demarcar e proteger suas terras de invasores.<\/p>\n<p>Os povos isolados t\u00eam o direito de decidir se preferem viver em isolamento ou n\u00e3o. Para exercer esse direito, por\u00e9m, precisam de tempo e espa\u00e7o. \u00c9 o caso dos Piripkura, ou o \u201cpovo borboleta\u201d, como s\u00e3o chamados pelos \u201cGavi\u00f5es\u201d, com quem interagem. Eles falam Tupi-Kawahib, o mesmo tronco lingu\u00edstico de v\u00e1rios outros povos do Brasil. Os Piripkura eram cerca de 20 pessoas quando a Funai fez o primeiro contato no final da d\u00e9cada de 1980. Depois, voltaram para a floresta, e mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas com os sertanistas. Somente sobreviver\u00e3o se suas terras forem protegidas. H\u00e1 centenas de grupos isolados na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Agora, o presidente da Funai, Marcelo Augusto Xavier, pretende nomear o antrop\u00f3logo Ricardo Lopes Dias para a Coordenadoria Geral de \u00cdndios Isolados e Rec\u00e9m Contatados. Formado pela Faculdade Teol\u00f3gica Sul Americana, atuou por mais de dez anos para a Miss\u00e3o Novas Tribos do Brasil (MNTB), organiza\u00e7\u00e3o que tem por objetivo evangelizar os ind\u00edgenas. Lopes Dias ter\u00e1 a miss\u00e3o de tornar o \u00edndio cada vez mais \u201cum ser humano igual a n\u00f3s\u201d, para usar a express\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 antropologia, que explica muitas coisas. Papa do estudo das religi\u00f5es, o escoc\u00eas Victor Turner (1920 \u2014 1983) tamb\u00e9m bebeu das \u00e1guas das sociedades primitivas. Tendo por base os Lunda-Ndembus, na regi\u00e3o Noroeste da antiga Rod\u00e9sia do Norte, atual Z\u00e2mbia, entre 1950 e 1954, viveu na aldeia e estudou o papel dos ritos, dos s\u00edmbolos e das met\u00e1foras nos dramas sociais. Nesse per\u00edodo, de tempos em tempos, eclodiram conflitos, nos quais Turner identificou um padr\u00e3o universal:<\/p>\n<p>Primeiro, uma crise irrompia no cotidiano, expondo as tens\u00f5es existentes; depois, os envolvidos acionavam suas redes de parentela, rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a e amizade, e a crise se ampliava; a seguir, surgia a turma do deixa disso, que buscava a concilia\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00f5es em rituais coletivos; finalmente, havia um rearranjo e as posi\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es eram redefinidas, ou n\u00e3o se chegava a um acordo e a cis\u00e3o se tornava inevit\u00e1vel, seguindo a clivagem de parentesco e suas alian\u00e7as, o que daria origem a uma nova aldeia. Qualquer semelhan\u00e7a com o que tamb\u00e9m acontece nas religi\u00f5es e na pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs povos isolados t\u00eam o direito de decidir se preferem viver em isolamento ou n\u00e3o. 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