{"id":4556,"date":"2020-02-16T08:40:20","date_gmt":"2020-02-16T11:40:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4556"},"modified":"2020-02-16T08:44:05","modified_gmt":"2020-02-16T11:44:05","slug":"nas-entrelinhas-encosta-abaixox","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-encosta-abaixox\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Encosta abaixo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cN\u00e3o sei se Buarque se inspirou em Tony Judt, mas, com certeza, a esquerda brasileira tem as mesmas dificuldades de Eric Hobsbawm para fazer autocr\u00edtica. Persiste nos pr\u00f3prios erros\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Autor da grande trilogia Era das revolu\u00e7\u00f5es (1789-1948), A era do capital (1848-1875) e A era dos imp\u00e9rios (1875-1914) \u2014, Eric John Hobsbawm fez a cabe\u00e7a da esquerda brasileira sobre o mundo atual, com A era dos extremos: o breve s\u00e9culo XX. O historiador nasceu em Alexandria, Egito, quando o pa\u00eds se encontrava sob dom\u00ednio brit\u00e2nico, passou a inf\u00e2ncia entre Viena e Berlim e migrou para Londres aos 14 anos. Quando jovem, ingressou no Partido Comunista brit\u00e2nico; durante a II Guerra Mundial, cavou trincheiras no litoral do Canal da Mancha e fez parte da intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a guerra, Hobsbawm voltou para Cambridge, onde se tornou um expoente da historiografia mundial, ao lado de Christopher Hill, Rodney Hilton e Edward Palmer Thompson. Sua Era dos extremos \u00e9 o livro mais lido sobre a hist\u00f3ria recente da humanidade, e Tempos interessantes, de 2002, recebeu o Pr\u00eamio Balzan para a Hist\u00f3ria da Europa. Membro da Academia Brit\u00e2nica e da Academia Americana de Artes e Ci\u00eancia, lecionou na Universidade de Londres e na New School for Social Research, de Nova Iorque. Morreu em Londres, em 2012.<\/p>\n<p>Nascido em 1948, o londrino Tony Judt era neto de russos e rabinos lituanos. Aos 15 , aderiu ao sionismo e quis emigrar para Israel, contra a vontade dos pais. Em 1966, foi passar o ver\u00e3o num kibbutz machanaim e acabou servindo como motorista e tradutor no Ex\u00e9rcito de Israel, na Guerra dos Seis Dias. No fim da guerra, por\u00e9m, voltou para Inglaterra. Judt graduou-se em hist\u00f3ria na Universidade de Cambridge (1969), mas realizou suas primeiras pesquisas em Paris, na \u00c9cole Normale Sup\u00e9rieure, onde completou seu Ph.D., em 1972.<\/p>\n<p>Em outubro de 2003, publicou um artigo na New York Review of Books, no qual recriminou Israel por se tornar um Estado \u00e9tnico \u201cbeligerante, intolerante, orientado pela f\u00e9\u201d e defendeu a transforma\u00e7\u00e3o do Estado judeu num estado binacional, que deveria incluir toda a atual \u00e1rea de Israel, mais a Faixa de Gaza, Jerusal\u00e9m Oriental e a Cisjord\u00e2nia. Nesse novo Estado, segundo sua proposta, haveria direitos iguais para todos os judeus e \u00e1rabes residentes em Israel e nos territ\u00f3rios palestinos. Seu artigo causou um terremoto na comunidade judaica e lhe valeu a expuls\u00e3o do conselho editorial da revista.<\/p>\n<p>Judt lecionou na Universidade de Nova York, na cadeira de Estudos Europeus. Seu livro P\u00f3s-guerra \u2014 uma hist\u00f3ria da Europa desde 1945 \u00e9 monumental. Em mar\u00e7o de 2008, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotr\u00f3fica (ELA). Um ano depois, estava tetrapl\u00e9gico; faleceu em 2010, depois de um calv\u00e1rio no qual escreveu tr\u00eas livros: O mal ronda a Terra, O chal\u00e9 da mem\u00f3ria e Pensando o s\u00e9culo XX, baseado em conversa\u00e7\u00f5es com Timothy Snyder. Judt fez parte do que chamou de \u201cgera\u00e7\u00e3o Hobsbawm\u201d, homens e mulheres que come\u00e7aram a se ocupar do estudo do passado em algum momento da \u201clonga d\u00e9cada de 1960\u201d (entre 1959 e 1975), cujo interesse \u201cfoi marcado de forma indel\u00e9vel pelos escritos de Eric Hobsbawm, por mais que eles agora discordem de muitas de suas conclus\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><b>Autocr\u00edtica<\/b><br \/>\nNo ensaio Encosta abaixo at\u00e9 o final (Quando os fatos mudam, editora Objetiva, publicado no New York Review of Books, em maio de 1995, como uma resenha de A era dos extremos: O breve s\u00e9culo XX, 1914-1991, de Eric Hobsbawm), Judt criticou duramente o seu mestre: \u201cAinda que escreva sem nenhuma ilus\u00e3o a prop\u00f3sito da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ele se mostra relutante em admitir que ela n\u00e3o tinha aspectos que a redimissem (inclusive o de desempenhar o papel de manter ou impor a estabilidade no mapa da Europa)\u201d. Judt tamb\u00e9m critica Hobsbawm por justificar o terror stalinista e as coletiviza\u00e7\u00f5es for\u00e7adas com o esfor\u00e7o de guerra.<\/p>\n<p>Segundo Judt, era dif\u00edcil para Hobsbawm fazer autocr\u00edtica da pr\u00f3pria f\u00e9: \u201cContudo, h\u00e1 duas ou tr\u00eas mudan\u00e7as cruciais que tiveram lugar no mundo \u2014 a morte do comunismo, por exemplo, ou a relacionada perda de f\u00e9 na hist\u00f3ria e nas fun\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas do Estado a respeito da qual o autor nem sempre se mostra satisfeito. Isso \u00e9 uma pena, j\u00e1 que forma e, \u00e0s vezes, deforma seu relato de maneiras que podem diminuir seu impacto sobre aqueles que mais precisam l\u00ea-lo e aprender com ele. E senti falta, em sua vers\u00e3o do s\u00e9culo XX, do olhar impiedosamente cr\u00edtico que fez dele um guia t\u00e3o indispens\u00e1vel para o s\u00e9culo XIX\u201d.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2018, o ex-senador Cristovam Buarque foi convidado a uma palestra em Oxford para falar sobre por que Bolsonaro venceu. Agora, voltou \u00e0 universidade brit\u00e2nica para lan\u00e7ar a vers\u00e3o em ingl\u00eas do pequeno livro Onde erramos: de Itamar a Temer, publicado como e-book pela Tema Editorial, no qual o ex-governador de Bras\u00edlia e ex-reitor da UnB faz uma pol\u00eamica autocr\u00edtica a partir daquela palestra. N\u00e3o sei se Buarque se inspirou em Tony Judt, mas, com certeza, a esquerda brasileira tem as mesmas dificuldades de Eric Hobsbawm para fazer autocr\u00edtica. Persiste nos pr\u00f3prios erros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o sei se Buarque se inspirou em Tony Judt, mas, com certeza, a esquerda brasileira tem as mesmas dificuldades de Eric Hobsbawm para fazer autocr\u00edtica. 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