{"id":456,"date":"2016-04-24T07:29:55","date_gmt":"2016-04-24T10:29:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=456"},"modified":"2016-04-24T09:00:17","modified_gmt":"2016-04-24T12:00:17","slug":"nas-entrelinhas-o-dogma-da-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-dogma-da-luta-de-classes\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O dogma da luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><em>Manique\u00edsmo pol\u00edtico \u00e9 a marca registrada da esquerda no poder, que fracassou \u00e0 frente dos destinos do pa\u00eds por seu voluntarismo econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social<\/em><\/p>\n<p>Uma das dificuldades da esquerda brasileira para compreender e se posicionar de maneira respons\u00e1vel no processo pol\u00edtico \u00e9 o dogma da luta de classes como motor da hist\u00f3ria. Essa ideia est\u00e1 no cerne do pensamento do anarquista russo Mikhail Bakunin e do socialista ut\u00f3pico franc\u00eas Pierre-Joseph Proudhon, mas foi consagrada pelos revolucion\u00e1rios alem\u00e3es Karl Marx e Friedrich Engels no primeiro cap\u00edtulo do Manifesto Comunista de 1848: \u201cA hist\u00f3ria de toda sociedade existente at\u00e9 hoje tem sido a hist\u00f3ria das lutas de classe\u201d.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia desse dogma alimenta a narrativa petista perante a esquerda brasileira, varrendo para debaixo do tapete todo e qualquer questionamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica pol\u00edtica de seus dirigentes e militantes e aos governos Lula e Dilma, principalmente nessa crise que o pa\u00eds atravessa. Recess\u00e3o, infla\u00e7\u00e3o, desemprego, deficit fiscal, mensal\u00e3o, petrol\u00e3o, tudo \u00e9 secund\u00e1rio para os setores que levaram o PT ao poder e se recusam a admitir que erraram feio. A culpa \u00e9 sempre do imperialismo, da direita e da burguesia; que seriam um entrave ao desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Acrescente-se a isso o \u201cglamour\u201d da luta armada contra o regime militar, que foi um lastim\u00e1vel equ\u00edvoco, principalmente por intelectuais e dirigentes pol\u00edticos que chegaram ao poder com o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, muito bem representados pela presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro da Casa Civil Jos\u00e9 Dirceu, ambos ex-guerrilheiros. Seja atrav\u00e9s da literatura seja atrav\u00e9s do cinema, figuras como Carlos Marighella e Carlos Lamarca ganharam uma import\u00e2ncia na luta contra a ditadura militar que nunca tiveram, em que pese o hero\u00edsmo pessoal, pois optaram por formas de luta que n\u00e3o tinham a menor chance de dar certo.<\/p>\n<p>Manique\u00edsmo pol\u00edtico \u00e9 a marca registrada da esquerda no poder, que fracassou \u00e0 frente dos destinos do pa\u00eds por seu voluntarismo econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social. Agora, diante do pr\u00f3prio isolamento pol\u00edtico, procura resgatar a mem\u00f3ria da crise que levou \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o o presidente Jo\u00e3o Goulart, comparando-a ao processo de impeachment em curso no Congresso, o que \u00e9 falso, at\u00e9 porque ignoram os erros cometidos pela esquerda como fatores decisivos para o sucesso do golpe. Propor a reforma agr\u00e1ria na marra e estatiza\u00e7\u00e3o das empresas estrangeiras, ignorar a maioria do Congresso, a Igreja Cat\u00f3lica e os sentimentos da classe m\u00e9dia, e at\u00e9 mesmo fomentar a rebeli\u00e3o de marinheiros foram equ\u00edvocos grav\u00edssimos. E ainda havia articula\u00e7\u00f5es para mudar as regras do jogo nas elei\u00e7\u00f5es de 1966, que visavam a reelei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart, como pretendia o ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do PCB, Lu\u00eds Carlos Prestes, ou viabilizar a candidatura de Leonel Brizola, seu cunhado, como queriam o PTB e outros setores \u00e0 esquerda que viam a candidatura de Juscelino Kubitschek como amea\u00e7a de retrocesso pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>A burguesia<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de ignorar os pr\u00f3prios erros, esses setores de esquerda ainda hoje argumentam que os militares somente conquistaram o poder, no qual permaneceram por 20 anos, porque n\u00e3o houve resist\u00eancia armada, houve \u201ccapitula\u00e7\u00e3o na luta de classes\u201d. Foi com essa l\u00f3gica que a maioria dos l\u00edderes estudantis de 1968 se desgarrou da oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, na v\u00e3 ilus\u00e3o de que a queda da ditadura se confundiria com a revolu\u00e7\u00e3o socialista por obra da guerrilha urbana e rural. Quem lutava pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e apoiava o MDB nas elei\u00e7\u00f5es era da \u201coposi\u00e7\u00e3o consentida\u201d e legitimava a ditadura. Agora, uma gera\u00e7\u00e3o de jovens que n\u00e3o participou da luta contra o regime militar e rec\u00e9m despertou para a pol\u00edtica est\u00e1 sendo convocada \u00e0s ruas para lutar contra um golpe de Estado que n\u00e3o existe, banalizando conceitos como os de Estado democr\u00e1tico de direto ou fascismo. O que far\u00e3o se o impeachment de Dilma Rousseff for aprovado? Apelar para a viol\u00eancia, como amea\u00e7a o MST?<br \/>\nO impeachment da presidente Dilma Rousseff s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o. Quem julga crime de responsabilidade \u00e9 o Congresso; em caso de afastamento do presidente da Rep\u00fablica, quem assume \u00e9 o vice-presidente da Rep\u00fablica. Nova elei\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia somente pode ser convocada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em caso de crime eleitoral ou de ren\u00fancia dos eleitos. Por cl\u00e1usula p\u00e9trea, elei\u00e7\u00f5es gerais s\u00e3o inconstitucionais.<\/p>\n<p>Voltando ao come\u00e7o da prosa: mitificar o proletariado e atribuir a seus l\u00edderes poderes de semidivindade \u00e9 t\u00e3o equivocado quanto subestimar o papel da burguesia no desenvolvimento da sociedade, que \u00e9 muito bem retratado no Manifesto Comunista: \u201cA burguesia n\u00e3o pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produ\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e, com elas, todas as rela\u00e7\u00f5es sociais (\u2026) A revolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da produ\u00e7\u00e3o, o abalo constante de todas as condi\u00e7\u00f5es sociais, a eterna agita\u00e7\u00e3o e incerteza distinguem a \u00e9poca burguesa de todas as precedentes.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manique\u00edsmo pol\u00edtico \u00e9 a marca registrada da esquerda no poder, que fracassou \u00e0 frente dos destinos do pa\u00eds por seu voluntarismo econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social Uma das dificuldades da esquerda brasileira para compreender e se posicionar de maneira respons\u00e1vel no processo pol\u00edtico \u00e9 o dogma da luta de classes como motor da hist\u00f3ria. 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