{"id":4578,"date":"2020-02-23T07:01:11","date_gmt":"2020-02-23T10:01:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4578"},"modified":"2020-02-23T07:03:12","modified_gmt":"2020-02-23T10:03:12","slug":"nas-entrelinhas-cabo-anselmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-cabo-anselmo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Cabo Anselmo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cBolsonaro tem uma milit\u00e2ncia armada e radicalizada muito numerosa, que intimida pela trucul\u00eancia, n\u00e3o apenas nas redes sociais.\u00a0Aonde isso vai parar, ningu\u00e9m sabe ainda&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 domingo de carnaval, mas vou falar de coisa s\u00e9ria. Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, nasceu em 13 de fevereiro de 1941, em Sergipe. Foi um dos protagonistas do golpe militar de 1964, atuando como um agente provocador. Em 1962, filiou-se \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), da qual se elegeu presidente. Em 25 de mar\u00e7o de 1964, durante as comemora\u00e7\u00f5es do 2\u00ba anivers\u00e1rio da AMFNB no Sindicato dos Metal\u00fargicos do Rio de Janeiro, protestou contra a puni\u00e7\u00e3o imposta a 12 dirigentes da associa\u00e7\u00e3o por apoiarem as reformas de base propostas pelo ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio era de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: derrotado no Congresso, e diante da forte oposi\u00e7\u00e3o dos governadores da antiga Guanabara, Carlos Lacerda; Minas Gerais, Magalh\u00e3es Pinto; e S\u00e3o Paulo, Adhemar de Barros, Goulart resolvera se apoiar nos sindicatos de trabalhadores e nas ligas camponesas. Os marinheiros, por\u00e9m, roubaram a cena: decidiram n\u00e3o acatar a ordem de pris\u00e3o dada aos colegas e permanecer no pr\u00e9dio do sindicato. No dia 26, parte dos fuzileiros navais enviados pelo ministro da Marinha, almirante S\u00edlvio Mota, para reprimir o levante, aderiu ao movimento. Diante da recusa do comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, almirante C\u00e2ndido Arag\u00e3o, em sufocar o motim, S\u00edlvio Mota recorreu \u00e0 Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito e demitiu Arag\u00e3o.<\/p>\n<p>Goulart acabou se colocando ao lado dos marinheiros, gerando uma crise na Marinha, que culminou com a sa\u00edda de S\u00edlvio Mota, a nomea\u00e7\u00e3o do almirante Paulo M\u00e1rio da Cunha Rodrigues para a pasta e a recondu\u00e7\u00e3o de C\u00e2ndido Arag\u00e3o ao comando do Corpo de Fuzileiros Navais, al\u00e9m da liberta\u00e7\u00e3o dos amotinados. No dia 28, Jos\u00e9 Anselmo, comemorou a vit\u00f3ria com uma passeata de marinheiros pelo centro do Rio, e, no dia 30, levou o presidente Goulart ao ato promovido pela Associa\u00e7\u00e3o de Subtenentes e Sargentos da Pol\u00edcia Militar, no Autom\u00f3vel Clube do Rio de Janeiro. Envolver-se com os amotinados foi um erro fatal do presidente da Rep\u00fablica, era o pretexto que faltava para que os principais l\u00edderes militares da \u00e9poca, \u00e0 frente o marechal Castelo Branco, assumissem o poder.<\/p>\n<p>Cassado pelo Ato Institucional n\u00ba 1, em abril, Jos\u00e9 Anselmo asilou-se na embaixada do M\u00e9xico. Quinze dias depois, deixou a embaixada, mas foi preso no dia seguinte. Em mar\u00e7o de 1966, fugiu novamente, em circunst\u00e2ncias estranhas; por\u00e9m, era reconhecido como l\u00edder pol\u00edtico de esquerda. No final do ano, seguiu para o Uruguai. Em 1967, ao lado do l\u00edder comunista Carlos Marighella, participou da 1\u00aa Confer\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o Latino-Americana de Solidariedade, realizada em Havana, que deflagrou uma onda de guerrilhas na Am\u00e9rica Latina. Ainda em Cuba, participou da forma\u00e7\u00e3o do primeiro n\u00facleo de treinamento de guerrilha da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR).<\/p>\n<p>Retornando ao Brasil, em 1970, foi designado para trabalhar em S\u00e3o Paulo. Meses depois, uma onda de pris\u00f5es e mortes de militantes que tiveram contato com Anselmo levantou suspeitas de que fosse um agente policial infiltrado. Como fora detido em junho de 1971, era inexplic\u00e1vel sua apari\u00e7\u00e3o em liberdade dias depois. Anselmo negou o fato. Em janeiro de 1972, voltou a ser alvo da mesma acusa\u00e7\u00e3o, dessa vez pela A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio de testemunhas da sua pris\u00e3o em 1971. Em fevereiro de 1973, a VPR acusou-o formalmente de ser agente da Central Intelligence Agency (CIA). Suspeita-se de que era agente do Centro de Informa\u00e7\u00e3o da Marinha, sob a supervis\u00e3o da CIA, antes mesmo de 1964.<\/p>\n<p><strong>Motins<\/strong><\/p>\n<p>Em 1984, a revista Isto\u00c9 publicou uma entrevista de Anselmo, na qual se assumia um colaborador dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Desaparecido desde ent\u00e3o, voltou a ser localizado em 1999, pela revista \u00c9poca, quando confirmou que fora o principal respons\u00e1vel pelo desmantelamento da VPR e da ALN. Em 1973, havia sido submetido a uma cirurgia pl\u00e1stica e recebera documentos falsos, fornecido pelos servi\u00e7os de intelig\u00eancia. Manteve-se na clandestinidade, apesar do direito \u00e0 anistia.<\/p>\n<p>Na quinta-feira, o Solidariedade expulsou de seus quadros o vereador Sargento Ailton, de Fortaleza, flagrado como um dos l\u00edderes do motim da Pol\u00edcia Militar do Cear\u00e1, no qual foi baleado o senador Cid Gomes (PDT-CE), ao investir com uma retroescavadeira contra o port\u00e3o de um quartel ocupado por grevistas encapuzados. Em outros estados, movimentos semelhantes est\u00e3o sendo organizados para exigir aumentos salariais e outros benef\u00edcios.<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro aceitou o pedido do governo cearense e decretou uma opera\u00e7\u00e3o de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), a cargo do Minist\u00e9rio da Defesa, cuja miss\u00e3o \u00e9 garantir a seguran\u00e7a p\u00fablica, e n\u00e3o, reprimir os amotinados. Em 72 horas, houve mais de 80 assassinatos no Cear\u00e1. A tarefa de resolver o problema da disciplina na PM continua sendo do governador petista Camilo Santana. Bolsonaro flerta com os amotinados, que s\u00e3o parte importante de sua base social.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos sargentos A\u00edltons na pol\u00edtica, fazendo agita\u00e7\u00e3o entre os policiais militares, alguns dos quais ligados \u00e0s mil\u00edcias, utilizando m\u00e9todos que n\u00e3o s\u00e3o os da pol\u00edtica propriamente dita. Bolsonaro tem uma milit\u00e2ncia armada e radicalizada muito numerosa, que intimida pela trucul\u00eancia, n\u00e3o apenas nas redes sociais. Aonde isso vai parar, ningu\u00e9m sabe ainda. Sabe-se, por\u00e9m, que nem \u00e9 preciso um novo Cabo Anselmo para que a indisciplina nos quart\u00e9is das pol\u00edcias militares vire uma crise institucional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro tem uma milit\u00e2ncia armada e radicalizada muito numerosa, que intimida pela trucul\u00eancia, n\u00e3o apenas nas redes sociais.\u00a0Aonde isso vai parar, ningu\u00e9m sabe ainda&#8221; \u00c9 domingo de carnaval, mas vou falar de coisa s\u00e9ria. Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, nasceu em 13 de fevereiro de 1941, em Sergipe. 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