{"id":4581,"date":"2020-02-27T08:56:53","date_gmt":"2020-02-27T11:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4581"},"modified":"2020-02-27T08:56:53","modified_gmt":"2020-02-27T11:56:53","slug":"nas-entrelinhas-carnaval-em-guaruja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-carnaval-em-guaruja\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Carnaval em Guaruj\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cBolsonaro n\u00e3o gosta de desfiles de escolas de samba, prefere as paradas militares. O carnaval \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de tudo o que ele pensa. Deveria, por\u00e9m, prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao recado dos foli\u00f5es\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Existe um dilema na vida nacional que somente a antropologia social d\u00e1 conta de perceb\u00ea-lo na sua dimens\u00e3o cultural: a contradi\u00e7\u00e3o entre os aspectos autorit\u00e1rios, hierarquizados e violentos da nossa sociedade e a busca de um mundo harm\u00f4nico, democr\u00e1tico e n\u00e3o conflitivo. O antrop\u00f3logo Roberto da Matta captou esse dilema no livro Carnavais, Malandros e Her\u00f3is, de 1979, um cl\u00e1ssico da interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil. Na \u00e9poca, o carnaval de rua n\u00e3o era ainda a grande manifesta\u00e7\u00e3o de massas que se registra hoje em praticamente todos os estados, por\u00e9m, os desfiles de escola de samba no Rio de Janeiro j\u00e1 traduziam a alma de um Brasil mais profundo.<\/p>\n<p>Este coment\u00e1rio de Henrique Brand\u00e3o, jornalista e um dos fundadores do bloco Simpatia \u00e9 quase amor, me remeteu das redes sociais para a obra de Da Matta: \u201cO que se viu e ouviu no Samb\u00f3dromo neste carnaval foram enredos criativos e, uma boa parte, autorreferentes. Mangueira, Tuiuti, Ilha e Tijuca usaram as comunidades de origem para contar suas hist\u00f3rias. Outras, falaram de personalidades com forte identifica\u00e7\u00e3o com as localidades de onde surgiram as escolas, como Jo\u00e3ozinho da Gomeia (Grande Rio) e Elza Soares (Mocidade). O Salgueiro exaltou o primeiro palha\u00e7o negro do Brasil. Os ind\u00edgenas que habitavam o Rio antes da chegada dos portugueses foram cantados pela Portela. As Ganhadeiras de Itapu\u00e3, negras de ganho que compravam suas alforrias em Salvador, foi o tema da Viradouro. A criatividade destes enredos se refletiu nos sambas, com uma safra de alto n\u00edvel. Enfim, mesmo lutando contra a m\u00e1 vontade do poder p\u00fablico \u2014 principalmente do prefeito-bispo que demoniza o carnaval \u2014 as escolas sa\u00edram de suas zonas de conforto e foram buscar em suas ra\u00edzes a chave para renovarem seus desfiles. H\u00e1 muito n\u00e3o via um carnaval t\u00e3o bom na Sapuca\u00ed\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Da Matta, o lado autorit\u00e1rio e hierarquizado da sociedade brasileira tem tr\u00eas dimens\u00f5es: uma ordem formal, baseada em posi\u00e7\u00f5es de status e prest\u00edgio social bem definidos, onde n\u00e3o existem conflitos e onde \u201ccada um sabe o seu lugar\u201d; uma oposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica entre o mundo das \u201cpessoas\u201d, socialmente reconhecidas em seus direitos e privil\u00e9gios, e um universo igualit\u00e1rio dos indiv\u00edduos, onde as leis impessoais funcionam como instrumentos de opress\u00e3o e de controle (\u201cpara os amigos, tudo; para os inimigos, a lei\u201d); e o sagrado, onde se opera uma suposta equaliza\u00e7\u00e3o da sociedade, j\u00e1 que todos s\u00e3o filhos de Deus, mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o mantidas estruturas claramente hier\u00e1rquicas de santidade.<\/p>\n<p>Nesses sistemas, se estabelece uma tens\u00e3o permanente entre a vida dom\u00e9stica, na qual deve reinar a paz e a harmonia e cada um vale pelo que \u00e9, e a vida mundana, onde a batalha cotidiana pela sobreviv\u00eancia \u00e9 an\u00f4nima, dura e impiedosa. Os privil\u00e9gios da elite do tipo \u201cvoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando\u201d imp\u00f5em \u00e0 maioria as rela\u00e7\u00f5es de mercado e as regras da burocracia, restando ao cidad\u00e3o comum o velho \u201cjeitinho\u201d para minimizar as agruras da vida banal. \u00c9 a\u00ed que o carnaval subverte tudo, pois \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o essencialmente igualit\u00e1ria, na qual a transgress\u00e3o e a liberdade traduzem para as ruas as rela\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas. O carnaval de rua cresce, inverte a ordem e mostra que continuamos a ser uma sociedade hier\u00e1rquica, desigual; na folia, as mulheres, os negros, os pobres e os exclu\u00eddos assumem o lugar que quase sempre lhes \u00e9 negado nos demais dias do ano.<\/p>\n<p>Napole\u00e3o<br \/>\nParadas militares, prociss\u00f5es e solenidades oficiais ritualizam e explicitam os aspectos hier\u00e1rquicos e autorit\u00e1rios da sociedade brasileira; a irrever\u00eancia dos blocos de rua e os her\u00f3is populares das escolas de samba, o seu oposto. O carnaval \u00e9 essencialmente igualit\u00e1rio e, nos seus quatro dias, dramatiza e transp\u00f5e para o mundo da \u201crua\u201d os ideais das rela\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, afetivas, e essencialmente sim\u00e9tricas que s\u00e3o o outro lado da ordem imposta de cima para baixo.<\/p>\n<p>Na antropologia, a \u201ccultura\u201d \u00e9 um conceito-chave para a interpreta\u00e7\u00e3o da vida social, n\u00e3o \u00e9 uma forma de hierarquizar a sociedade. N\u00e3o marca uma hierarquia de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, mas a maneira de viver de um grupo, sociedade, pa\u00eds ou pessoa. \u00c9 justamente porque compartilham de parcelas importantes desse c\u00f3digo (a cultura) que indiv\u00edduos com interesses e capacidades distintas e at\u00e9 mesmo opostas transformam-se num grupo e podem viver juntos como parte de uma mesma totalidade. Segundo Da Matta, desenvolvem rela\u00e7\u00f5es entre si porque a cultura lhes forneceu normas que dizem respeito aos modos de comportamento diante de certas situa\u00e7\u00f5es. A cultura n\u00e3o \u00e9 um c\u00f3digo que se escolhe simplesmente. \u00c9 algo que est\u00e1 dentro e fora de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro passou o carnaval em Guaruj\u00e1, n\u00e3o gosta de desfiles de escolas de samba, prefere as paradas militares. O carnaval \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de tudo o que ele pensa. Como primeiro mandat\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, deveria prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao recado dos foli\u00f5es, compreenderia melhor o nosso povo e suas aspira\u00e7\u00f5es mais profundas. Entretanto, enquanto o povo se divertia, endossou pelas redes sociais a convoca\u00e7\u00e3o de uma manifesta\u00e7\u00e3o para fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Como quem prepara um \u201ccoup d\u2019\u00e9tat\u201d, Bolsonaro testa suas cadeias de comando e capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, numa afronta \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Com todo respeito, nesse \u201capronto\u201d, vestiu a fantasia de Lu\u00eds Napole\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro n\u00e3o gosta de desfiles de escolas de samba, prefere as paradas militares. O carnaval \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de tudo o que ele pensa. Deveria, por\u00e9m, prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao recado dos foli\u00f5es\u201d Existe um dilema na vida nacional que somente a antropologia social d\u00e1 conta de perceb\u00ea-lo na sua dimens\u00e3o cultural: a contradi\u00e7\u00e3o entre os aspectos autorit\u00e1rios, hierarquizados e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[335,176,28,4,92,113,9,3],"tags":[130,144,77,674,673,79],"class_list":["post-4581","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-carnaval","category-cidades","category-cultura","category-governo","category-literatura","category-militares","category-politica-2","category-politica","tag-bolsonaro","tag-carnaval","tag-congresso","tag-escolas-de-samba","tag-golpe","tag-supremo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4581"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4587,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4581\/revisions\/4587"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}