{"id":4589,"date":"2020-03-01T08:08:43","date_gmt":"2020-03-01T11:08:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4589"},"modified":"2020-03-01T08:08:43","modified_gmt":"2020-03-01T11:08:43","slug":"nas-entrelinhas-o-mito-e-seu-lugar-de-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-mito-e-seu-lugar-de-fala\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O Mito e seu lugar de fala"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201dDiariamente, Bolsonaro se relaciona com os jornalistas tratando-os como &#8216;p\u00e1rias\u2019. Suportar essa situa\u00e7\u00e3o para qualquer um humilhante faz parte das agruras da profiss\u00e3o\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o discurso e a verdade \u00e9 cada vez mais complexa. Na teoria, trabalha-se com tr\u00eas conceitos fundamentais: condi\u00e7\u00f5es de validade (ou seja, se a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida ou corresponde aos fatos); pretens\u00f5es de validade (a narrativa ou os argumentos utilizados para o convencimento) e o resgate das condi\u00e7\u00f5es de validade (quando o discurso \u00e9 legitimado pelo ideal de fala e como tal, apesar de imposto unilateralmente, obt\u00e9m certo consenso). Se na filosofia lidar com a verdade \u00e9 um assunto complexo, nas redes sociais ent\u00e3o nem se fala. A verdade morre e ressuscita todos os dias, de diferentes maneiras, num embate cujo desfecho nem sempre \u00e9 o melhor para a sociedade. A opini\u00e3o p\u00fablica se forma a partir do choque de vers\u00f5es, no qual o contradit\u00f3rio acaba sendo o meio mais eficaz de aproxima\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Nessa guerra de informa\u00e7\u00e3o, a tropa de elite \u00e9 formada pelos jornalistas profissionais, cuja rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica \u00e9 quase insepar\u00e1vel. H\u00e1 cerca de 100 anos, numa palestra antol\u00f3gica (\u201cA pol\u00edtica como voca\u00e7\u00e3o\u201d), o soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber destacou que os jornalistas pertencem a uma esp\u00e9cie de \u201ccasta de p\u00e1rias\u201d e que \u201cas mais estranhas representa\u00e7\u00f5es sobre os jornalistas e seu trabalho s\u00e3o, por isso, correntes\u201d. Ao discorrer sobre o mundo da pol\u00edtica, o papel da imprensa e as vicissitudes do jornalismo, dizia a que a vida do jornalista \u00e9 muitas vezes \u201cmarcada pela pura sorte\u201d e sob condi\u00e7\u00f5es que \u201ccolocam \u00e0 prova constantemente a seguran\u00e7a interior, de um modo que muito dificilmente pode ser encontrado em outras situa\u00e7\u00f5es\u201d: \u201cA experi\u00eancia com frequ\u00eancia amarga na vida profissional talvez n\u00e3o seja nem mesmo o mais terr\u00edvel. Precisamente no caso dos jornalistas exitosos, exig\u00eancias internas particularmente dif\u00edceis lhe s\u00e3o apresentadas. N\u00e3o \u00e9 de maneira alguma uma iniquidade lidar nos sal\u00f5es dos poderosos da terra aparentemente no mesmo p\u00e9 de igualdade (&#8230;) Espantoso n\u00e3o \u00e9 o fato de que h\u00e1 muitos jornalistas humanamente disparatados ou desvalorizados, mas o fato de, apesar de tudo, precisamente essa classe encerra em si um n\u00famero t\u00e3o grande de homens valiosos e completamente aut\u00eanticos, algo que os outsiders n\u00e3o suporiam facilmente\u201d.<\/p>\n<p>Grandes mulheres tamb\u00e9m, diria Max Weber, nos dias de hoje, porque h\u00e1 100 anos o jornalismo n\u00e3o era uma profiss\u00e3o majoritariamente feminina, como agora acontece; muito pelo contr\u00e1rio, havia poucas mulheres nas reda\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, sobrevivem ainda o machismo, a misoginia e o ass\u00e9dio sexual e\/ou moral, em todos os n\u00edveis de rela\u00e7\u00f5es de poder, \u00e0s vezes at\u00e9 nas reda\u00e7\u00f5es. \u00c9 \u00f3bvio que estou contextualizando o embate entre o presidente Jair Bolsonaro e a jornalista Vera Magalh\u00e3es, colunista do Estado de S\u00e3o Paulo que divulgou mensagens de WhatSApp do presidente da Rep\u00fablica em apoio \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), convocadas para 15 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Comportamento<\/strong><\/p>\n<p>Diariamente, Bolsonaro se relaciona com os jornalistas tratando-os como \u201cp\u00e1rias\u201d, ao sair do Pal\u00e1cio do Alvorada. Suportar essa situa\u00e7\u00e3o para qualquer um humilhante faz parte das agruras da profiss\u00e3o, da mesma forma como aspirar g\u00e1s lacrimog\u00eaneo na cobertura de manifesta\u00e7\u00f5es e correr o risco de ser v\u00edtima de uma bala perdida nas reportagens policiais. Bolsonaro coleciona agress\u00f5es verbais a jornalistas, como as recentes declara\u00e7\u00f5es mis\u00f3ginas contra Patr\u00edcia Campos Mello. Volte e meia, ofende um colega numa coletiva. Suportar esse tipo de agress\u00e3o n\u00e3o faz parte dos manuais de reda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe um comportamento padr\u00e3o para isso, a rea\u00e7\u00e3o depende de cada um. No caso mais recente, por\u00e9m, Bolsonaro colidiu com \u201cSua Excel\u00eancia, o fato\u201d, como diria Ulysses Gumar\u00e3es, numa situa\u00e7\u00e3o na qual se contrap\u00f4s ao Congresso, ao Supremo e \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Perdeu! Vera validou o que disse com tr\u00eas v\u00eddeos compartilhados pelo pr\u00f3prio Bolsonaro.<\/p>\n<p>A \u201cmimesi\u201d de Bolsonaro nas redes sociais faz parte da constru\u00e7\u00e3o do \u201cMito\u201d. \u00c9 uma imita\u00e7\u00e3o da realidade, n\u00e3o uma reprodu\u00e7\u00e3o. A mimesi ocorre quando a a\u00e7\u00e3o humana \u00e9 representada de forma melhor (trag\u00e9dia e epopeia) ou pior (com\u00e9dia) do que a realidade. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o em torno do mito, ou seja, da a\u00e7\u00e3o, que deve seguir sempre os crit\u00e9rios da verossimilhan\u00e7a. O mito \u00e9 caracterizado por um conjunto de a\u00e7\u00f5es escolhidas e organizadas, sua constru\u00e7\u00e3o se remete a algo que poderia acontecer e n\u00e3o ao que aconteceu.<\/p>\n<p>Bolsonaro construiu o Mito a partir de um \u201clugar de fala\u201d que n\u00e3o \u00e9 a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, mas o universo de origem de sua candidatura. Procura manter um eleitorado cativo, com perfil origin\u00e1rio de suas elei\u00e7\u00f5es para a C\u00e2mara, mas agora nacionalizado: militares, policiais, milicianos, caminhoneiros, taxistas, ruralistas, pentecostais, ultraconservadores e reacion\u00e1rios. Em consequ\u00eancia, aparta a autoridade constitu\u00edda \u2014 a Presid\u00eancia \u2014 do carisma do \u201cMito\u201d e se isola politicamente. Ocorre que um determinado mito pode ser epis\u00f3dico (s\u00e3o os piores) e fruto da surpresa (emo\u00e7\u00e3o causada por fatos inesperados). Isso depende da percep\u00e7\u00e3o do espectador, n\u00e3o depende, por exemplo, de haver um \u00fanico her\u00f3i na trama. Na trag\u00e9dia, como na sua campanha eleitoral, o mito se forma pela perip\u00e9cia e o reconhecimento; na com\u00e9dia, por\u00e9m, acaba desconstru\u00eddo. \u00c9 o que pode acontecer com Bolsonaro na Presid\u00eancia quando briga com os fatos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201dDiariamente, Bolsonaro se relaciona com os jornalistas tratando-os como &#8216;p\u00e1rias\u2019. Suportar essa situa\u00e7\u00e3o para qualquer um humilhante faz parte das agruras da profiss\u00e3o\u201d A rela\u00e7\u00e3o entre o discurso e a verdade \u00e9 cada vez mais complexa. 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