{"id":4664,"date":"2020-03-25T06:59:43","date_gmt":"2020-03-25T09:59:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4664"},"modified":"2020-03-25T06:59:43","modified_gmt":"2020-03-25T09:59:43","slug":"nas-entrelinhas-reflexoes-sobre-a-epidemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-reflexoes-sobre-a-epidemia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Reflex\u00f5es sobre a epidemia"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>Na cabe\u00e7a do presidente, n\u00e3o existe guerra sem defuntos: as taxas de letalidade da epidemia s\u00e3o baixas demais para justificar uma recess\u00e3o econ\u00f4mica\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quando as ideias liberais cl\u00e1ssicas de Adam Smith pareciam consagradas no Ocidente, em meio \u00e0 corrida mundial para reinventar o Estado, a epidemia de coronav\u00edrus virou tudo de pernas para o ar. O revisionismo reformista de Lord John Maynard Keynes parece renascer das cinzas, com sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro. Para conter a epidemia, o mundo est\u00e1 mergulhando numa recess\u00e3o geral, fruto da globaliza\u00e7\u00e3o tanto quanto a propaga\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus, que come\u00e7ou na China, tomou de assalto a Europa, se instala nos Estados Unidos e se expande na periferia, na qual pa\u00edses como a \u00cdndia e o Brasil se preparam para a uma trag\u00e9dia anunciada.<\/p>\n<p>Para o keynesianismo, os n\u00edveis de consumo, de investimentos p\u00fablico e privados e aplica\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os s\u00e3o determinantes da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Quando eles se retraem, a crise vem a galope. A velha f\u00f3rmula de Keynes para enfrentar essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo exumada por ningu\u00e9m menos do que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pretende injetar mais de US$ 1 trilh\u00e3o na economia norte-americana para aliviar o sufoco gerado pela paralisa\u00e7\u00e3o da economia. A Casa Branca foi o centro da resist\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica de distanciamento social preconizada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), mas capitulou, diante da tomada de Nova York pela epidemia. Da cidade mais rica do mundo, a epidemia se espalha por todos os estados da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Como na Grande Depress\u00e3o de 1929, s\u00f3 o Estado pode conter o atual desequil\u00edbrio da economia. Aquela crise teve outras causas: foi consequ\u00eancia da grande expans\u00e3o de cr\u00e9dito por meio de oferta monet\u00e1ria (emiss\u00e3o de dinheiro e t\u00edtulos), que precisou ser freada. O governo parou, come\u00e7ou a enxugar o mercado e a operar uma pol\u00edtica de restri\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimos. Temendo a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda, muitas pessoas e empresas retiraram suas reservas dos bancos, dando in\u00edcio a um processo de recess\u00e3o.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para esse problema seria controlar a recess\u00e3o, permitindo a liberdade de pre\u00e7os e sal\u00e1rios, at\u00e9 que o mercado se adequasse \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o. No entanto, ao contr\u00e1rio disso, o governo passou a exercer arrochado controle sobre os pre\u00e7os e os sal\u00e1rios, al\u00e9m de promover aumento de impostos. Isso agravou a recess\u00e3o e, em cinco dias, a Bolsa quebrou, levando \u00e0 fal\u00eancia empresas e bancos e, ao desemprego, 12 milh\u00f5es de pessoas nos Estados Unidos, uma recess\u00e3o que se alastrou por todo o mundo.<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula de Keynes era os governos aplicarem grandes remessas de capital na realiza\u00e7\u00e3o de investimentos que aquecessem a economia de modo geral, al\u00e9m de linhas de cr\u00e9dito a baixo custo para garantir a realiza\u00e7\u00e3o de investimentos do setor privado e a eleva\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de emprego. Mas isso era uma ofensa ao \u201clivre mercado\u201d. Coube ao presidente Franklin Delano Roosevelt, um homem parapl\u00e9gico por causa da poliomielite, enfrentar a recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Governador de Nova York desde 1928, disputou e ganhou a Presid\u00eancia dos Estados Unidos em 1932, prometendo um novo e ousado plano de a\u00e7\u00e3o para resgatar a na\u00e7\u00e3o dos efeitos da grande depress\u00e3o. Convenceu os americanos de que n\u00e3o havia mais nada a temer. Empossado em mar\u00e7o de 1933, em apenas 100 dias, Roosevelt conseguiu aprovar no Congresso seu plano baseado nas ideias keynesianas. O New Deal (Nova Ordem) garantiu US$ 3,3 bilh\u00f5es para investir na cria\u00e7\u00e3o de empregos e na recupera\u00e7\u00e3o industrial. Nascia o Estado de bem-estar social.<\/p>\n<p><strong>Err\u00e1tico<\/strong><br \/>\nRoosevelt prop\u00f4s programas inovadores, que geraram milh\u00f5es de empregos, e criou a Lei de Seguridade Social, um plano de aposentadoria com abrang\u00eancia nacional, a grande heran\u00e7a de seu governo. Reeleito tr\u00eas vezes (1936, 1940 e 1944), morreu pouco antes do fim da II Guerra Mundial, na qual foi um dos Tr\u00eas Grandes, ao lado de Winston Churchill, o primeiro-ministro brit\u00e2nico, e Youssef St\u00e1lin, o l\u00edder da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que comandaram as for\u00e7as aliadas contra o nazifascismo.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, diante da epidemia de coronav\u00edrus, a pol\u00edtica econ\u00f4mica ultraliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, entrou em colapso. Tornou-se insustent\u00e1vel diante da redu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica. Na verdade, seus resultados j\u00e1 eram p\u00edfios antes da epidemia.. Economistas como Arm\u00ednio Fraga, Monica de Bolle e Andr\u00e9 Lara Rezende j\u00e1 vinham questionando o ministro. O mercado j\u00e1 est\u00e1 com saudades do ex-ministro Henrique Meirelles, hoje secret\u00e1rio da Fazenda de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u00c9 esse debate que est\u00e1 por tr\u00e1s do embate entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas de quarentena adotadas nos estados e munic\u00edpios. Na cabe\u00e7a do presidente, n\u00e3o existe guerra sem defuntos: as taxas de letalidade da epidemia s\u00e3o baixas demais para justificar uma recess\u00e3o econ\u00f4mica. O rem\u00e9dio \u00e9 deixar morrer. Ontem, foi \u00e0 tev\u00ea, em cadeia nacional, para atacar a imprensa, os governadores e os prefeitos e criticar as medidas de distanciamento social adotadas para conter a epidemia, que continua chamando de gripezinha. Quando parecia ter entrado em entendimento com os demais governantes, recrudesceu. Temos um presidente err\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise que o pa\u00eds enfrenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNa cabe\u00e7a do presidente, n\u00e3o existe guerra sem defuntos: as taxas de letalidade da epidemia s\u00e3o baixas demais para justificar uma recess\u00e3o econ\u00f4mica\u201d Quando as ideias liberais cl\u00e1ssicas de Adam Smith pareciam consagradas no Ocidente, em meio \u00e0 corrida mundial para reinventar o Estado, a epidemia de coronav\u00edrus virou tudo de pernas para o ar. 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