{"id":4684,"date":"2020-04-01T07:51:37","date_gmt":"2020-04-01T10:51:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4684"},"modified":"2020-04-01T07:56:05","modified_gmt":"2020-04-01T10:56:05","slug":"nas-entrelinhas-a-alegoria-de-camus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-alegoria-de-camus\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A alegoria de Camus"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>A epidemia de meningite s\u00f3 acabou ap\u00f3s a vacina\u00e7\u00e3o de 80 milh\u00f5es de pessoas, o que seria imposs\u00edvel com a manuten\u00e7\u00e3o da censura sobre a doen\u00e7a\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Publicado em 1947, A Peste, do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960), \u00e9 uma alegoria da ocupa\u00e7\u00e3o nazista. Por isso, fez tanto sucesso n\u00e3o s\u00f3 na Fran\u00e7a como na Europa do p\u00f3s-guerra e tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina, inclusive no Brasil, nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970. Camus foi um militante da Resist\u00eancia, mas teve uma posi\u00e7\u00e3o muito moderada em rela\u00e7\u00e3o aos que colaboraram com os invasores alem\u00e3es durante a II Grande Guerra, condenando os \u201cjusti\u00e7amentos\u201d. J\u00e1 era um escritor consagrado, com duas obras elogiad\u00edssimas pela cr\u00edtica: O estrangeiro e O mito de S\u00edsifo.<\/p>\n<p>Albert Camus nasceu em 7 de novembro de 1913 na Arg\u00e9lia, \u00e0 \u00e9poca uma col\u00f4nia francesa, cen\u00e1rio de seu romance, que conta a hist\u00f3ria de uma epidemia na cidade de Oran, no norte daquele pa\u00eds. Em 1940, um m\u00e9dico encontrou um rato morto ao deixar seu consult\u00f3rio. Comunicou o fato ao respons\u00e1vel pela limpeza do pr\u00e9dio. No dia seguinte, outro rato foi encontrado morto no mesmo lugar. A esposa do m\u00e9dico tinha tuberculose e foi levada para um sanat\u00f3rio. A quantidade de ratos aumentou exponencialmente. Em um \u00fanico dia, oito mil ratos foram coletados e encaminhados para crema\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em p\u00e2nico, a cidade declarou estado de calamidade, as pessoas tinham febre e morriam em massa. Os muros foram fechados, em quarentena, ningu\u00e9m entrava ou sa\u00eda; os doentes foram isolados, as fam\u00edlias, separadas. Enquanto o padre apregoava que tudo aquilo era um castigo divino, prisioneiros eram mobilizados para enterrar os cad\u00e1veres, que empilhavam nas ruas: velhos, mulheres e crian\u00e7as morriam. O livro \u00e9 uma alegoria da condi\u00e7\u00e3o de vida regulada pela morte, fez muito sucesso porque era uma cr\u00edtica ao fascismo e relatava as diferen\u00e7as de comportamento diante de situa\u00e7\u00f5es-limite. Fora escrito durante a ocupa\u00e7\u00e3o militar alem\u00e3. Camus foi editor do jornal clandestino Combat, porta-voz dos partisans.<\/p>\n<p>Em 1951, Camus lan\u00e7ou o livro O homem revoltado, no qual condenava a pena de morte e criticava duramente o comunismo e o marxismo, o que provocou uma ruptura com seu amigo e fil\u00f3sofo Jean-Paul Sartre, que liderou seu linchamento moral por parte da intelectualidade francesa. Mesmo depois do Pr\u00eamio Nobel de Literatura, em 1957, continuou sendo um renegado para a esquerda. Seu discurso na premia\u00e7\u00e3o foi prof\u00e9tico. Permanece atual nestes tempos de epidemia de coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cCada gera\u00e7\u00e3o se sente, sem d\u00favida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que n\u00e3o o reformar\u00e1. Mas a sua tarefa \u00e9 talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfa\u00e7a. Herdeira de uma hist\u00f3ria corrupta onde se mesclam revolu\u00e7\u00f5es deca\u00eddas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes med\u00edocres podem hoje a tudo destruir, mas n\u00e3o sabem mais convencer, onde a intelig\u00eancia se rebaixou para servir ao \u00f3dio e \u00e0 opress\u00e3o, esta gera\u00e7\u00e3o tem o d\u00e9bito, com ela mesma e com as gera\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, de restabelecer, a partir de suas pr\u00f3prias nega\u00e7\u00f5es, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer\u201d, disse Camus.<\/p>\n<p><b>Epidemia<\/b><br \/>\nEm comemora\u00e7\u00e3o aos 60 anos de sua morte, divulgou-se na Fran\u00e7a um de seus textos da \u00e9poca da resist\u00eancia, cujo original foi encontrado nos arquivos do general De Gaulle, o presidente franc\u00eas que liderara a Resist\u00eancia do ex\u00edlio. O documento era destinado \u00e0s for\u00e7as que combatiam o marechal P\u00e9tain e trata de dois sentimentos presentes no contexto da ocupa\u00e7\u00e3o: ansiedade e incerteza. A ansiedade \u201cem uma luta contra o rel\u00f3gio\u201d para reconstruir o pa\u00eds; a incerteza, em raz\u00e3o do fato de que, \u201cse a guerra mata homens, tamb\u00e9m pode matar suas ideias\u201d.<\/p>\n<p>A alegoria de A Peste tamb\u00e9m serve de advert\u00eancia diante de certas manifesta\u00e7\u00f5es de apoio ao regime militar implantado ap\u00f3s o golpe de 1964, cujo anivers\u00e1rio foi comemorado ontem. Em 1974, o Brasil enfrentou a pior epidemia contra a meningite de sua hist\u00f3ria. Para evitar o cont\u00e1gio, o governo decretou a suspens\u00e3o das aulas e cancelou os Jogos Pan-Americanos de 1975, que foram transferidos de S\u00e3o Paulo para o M\u00e9xico. A epidemia come\u00e7ou em 1971, no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo. Com dor de cabe\u00e7a, febre alta e rigidez na nuca, muitos morreram sem diagn\u00f3stico ou tratamento.<\/p>\n<p>Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu \u00e1pice. A propor\u00e7\u00e3o era de 200 casos por 100 mil habitantes, como no \u201cCintur\u00e3o Africano da Meningite\u201d, que hoje compreende 26 pa\u00edses e se estende do Senegal at\u00e9 a Eti\u00f3pia. O Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas, com apenas 300 leitos dispon\u00edveis, chegou a internar 1,2 mil pacientes. Na \u00e9poca, eu era um jovem rep\u00f3rter do jornal O Fluminense, de Niter\u00f3i (RJ). Com a cumplicidade de um acad\u00eamico de medicina, conseguimos fotografar pela janela uma enfermaria lotada de crian\u00e7as com meningite, no Hospital Universit\u00e1rio Ant\u00f4nio Pedro (UFF). A foto foi publicada com a mat\u00e9ria, mas gerou a maior crise pol\u00edtica para a dire\u00e7\u00e3o do jornal, porque a meningite era um assunto censurado pelos militares. A epidemia s\u00f3 acabou no ano seguinte, ap\u00f3s a vacina\u00e7\u00e3o de 80 milh\u00f5es de pessoas, que seria imposs\u00edvel com a manuten\u00e7\u00e3o da censura sobre a meningite pelo governo do general Ernesto Geisel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA epidemia de meningite s\u00f3 acabou ap\u00f3s a vacina\u00e7\u00e3o de 80 milh\u00f5es de pessoas, o que seria imposs\u00edvel com a manuten\u00e7\u00e3o da censura sobre a doen\u00e7a\u201d Publicado em 1947, A Peste, do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960), \u00e9 uma alegoria da ocupa\u00e7\u00e3o nazista. 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