{"id":4690,"date":"2020-04-02T07:57:04","date_gmt":"2020-04-02T10:57:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4690"},"modified":"2020-04-02T07:57:04","modified_gmt":"2020-04-02T10:57:04","slug":"nas-entrelinhas-o-ponto-fraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-ponto-fraco\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O ponto fraco"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cCom a falta de testes, o n\u00famero de \u00f3bitos e casos de coronav\u00edrus confirmados est\u00e1 subnotificado. Pode ser muito maior o contingente de infectados&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Enquanto a maioria esmagadora da sociedade v\u00ea a epidemia de coronav\u00edrus como uma terr\u00edvel amea\u00e7a, a aposta do presidente Jair Bolsonaro foi de que era uma oportunidade de encurralar os advers\u00e1rios pol\u00edticos, principalmente os governadores de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria (PSDB); do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC); e do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que enfrentam mais dificuldades na crise. Fez um movimento de alt\u00edssimo risco: responsabiliz\u00e1-los pela paralisia da economia, que entraria em recess\u00e3o inevitavelmente, at\u00e9 porque a retra\u00e7\u00e3o \u00e9 global. Para isso, por\u00e9m, Bolsonaro se lan\u00e7ou contra a pol\u00edtica de distanciamento social e conclamou comerciantes, ambulantes, diaristas e outros trabalhadores informais a sa\u00edrem da quarentena, entrando em choque aberto com a pol\u00edtica de seu pr\u00f3prio ministro da Sa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta.<\/p>\n<p>Bolsonaro cometeu um crasso erro: se aventurar num terreno que n\u00e3o conhece, a sa\u00fade p\u00fablica. N\u00e3o percebeu que a gravidade da situa\u00e7\u00e3o estava acima de suas disputas pol\u00edticas e fez uma aposta no ponto futuro, a retomada da economia, que n\u00e3o ser\u00e1 nada f\u00e1cil, outro assunto que n\u00e3o domina. Se isolou dentro do pr\u00f3prio governo, porque os generais que hoje formam seu estado-maior administrativo n\u00e3o concordaram com essa estrat\u00e9gia de alto risco, bem como os ministros da Justi\u00e7a, S\u00e9rgio Moro, e da Economia, Paulo Guedes. Enquanto o primeiro barrou qualquer possibilidade institucional de confronta\u00e7\u00e3o com os governos estaduais, o segundo deu um salto triplo carpado na pol\u00edtica econ\u00f4mica: abandonou as reformas ultraliberais e abriu os cofres da Uni\u00e3o para atender aos trabalhadores que ficaram sem nenhuma fonte de renda por causa do confinamento.<\/p>\n<p>O n\u00facleo pol\u00edtico que assessora Bolsonaro, liderado pelos filhos e pela equipe de comunica\u00e7\u00e3o do Planalto, tentou uma rea\u00e7\u00e3o, mas fracassou. O apoio a Bolsonaro nas redes sociais est\u00e1 sendo volatilizado e o presidente da Rep\u00fablica passou a ser cobrado pela demora na libera\u00e7\u00e3o dos recursos, que exigem uma agilidade da administra\u00e7\u00e3o federal, que, at\u00e9 agora, n\u00e3o foi revelada. Tanto os governadores como o Congresso passaram a cobrar do governo que os recursos fossem repassados imediatamente para a popula\u00e7\u00e3o, enquanto a for\u00e7a-tarefa de ministros formada para gerenciar a crise, coordenada pelo ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, passou a ser uma esp\u00e9cie de fiadora da pol\u00edtica de Mandetta no governo. Para se fragilizar ainda mais, Bolsonaro demorou a sancionar a lei que concedeu uma ajuda de R$ 600 aos sem nenhuma atividade econ\u00f4mica, o chamado \u201ccorona voucher\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto Bolsonaro sa\u00eda \u00e0s ruas no Sudoeste, em Ceil\u00e2ndia, em Taguatinga, em Bras\u00edlia, para estimular que comerciantes e ambulantes mantivessem suas lojas funcionando, a maioria da popula\u00e7\u00e3o preferiu seguir a orienta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, dos governadores e dos prefeitos e se manteve dentro de casa, se resguardando da epidemia. A ades\u00e3o da sociedade ao isolamento social \u00e9 o ponto forte na crise. Mesmo assim, os n\u00fameros est\u00e3o dobrando a cada tr\u00eas dias. No balan\u00e7o de ontem, j\u00e1 eram 241 mortes e 6.836 casos confirmados, a uma taxa de 3,5% de letalidade. Na ter\u00e7a-feira, eram 201 mortes e 5.717 casos confirmados de infectados pelo novo coronav\u00edrus, o que aumentou a tens\u00e3o entre os profissionais de sa\u00fade. Como h\u00e1 escassez de testes, o n\u00famero de \u00f3bitos e casos confirmados est\u00e1 subnotificado. O pr\u00f3prio ministro Mandetta admitiu ontem que pode ser muito maior o contingente de infectados.<\/p>\n<p><strong>Equipamentos<\/strong><br \/>\nO ponto fraco do sistema, por ora, n\u00e3o \u00e9 a falta de leitos, \u00e9 de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o para o pessoal da sa\u00fade. O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) j\u00e1 registrou 2.600 den\u00fancias de falta, escassez e restri\u00e7\u00e3o de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o entre enfermeiros, t\u00e9cnicos e auxiliares de enfermagem. As den\u00fancias v\u00e3o desde relatos de proibi\u00e7\u00e3o de uso do material existente na institui\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o instaurar p\u00e2nico na popula\u00e7\u00e3o atendida, \u00e0 falta de equipamentos b\u00e1sicos. Entre aqueles que fizeram as den\u00fancias, 87% relatam a falta de m\u00e1scaras do tipo N95 ou PF2, indicadas para o atendimento de casos da doen\u00e7a, e a falta do \u00e1lcool em gel com 70% de \u00e1lcool, em 28% das den\u00fancias. Al\u00e9m disso, em 51% dos locais denunciados, faltam de quatro a sete tipos diferentes de materiais, como luvas, gorro e \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Mesmo os hospitais de refer\u00eancia est\u00e3o tendo problemas. O Hospital Albert Einstein e S\u00edrio-Liban\u00eas j\u00e1 afastaram 452 funcion\u00e1rios. No Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (HC-FMUSP), 125 profissionais foram afastados por infec\u00e7\u00e3o. O hospital utiliza, em m\u00e9dia, 5.700 m\u00e1scaras. Com o coronav\u00edrus, passaram a ser 40 mil m\u00e1scaras. O consumo de \u00e1lcool em gel passou de 1.330 litros para 6.700 litros mensais; aventais, de 15 para 45 mil, e toucas, de 105 mil para 211 mil. Esse \u00e9 o cen\u00e1rio mais delicado no momento, apesar da mobiliza\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias, como Ambev e Natura; confec\u00e7\u00f5es, como a Lupo, e at\u00e9 bancos, como Bradesco, Ita\u00fa e Santander, para produzir ou doar equipamentos. \u00c9 grande o risco de o sistema de sa\u00fade entrar em colapso por causa do n\u00famero de casos da epidemia, da\u00ed a import\u00e2ncia de manter o confinamento. H\u00e1 que se considerar, sobretudo, a situa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos e enfermeiros, principalmente intensivistas e infectologistas. Ontem, por exemplo, o infectologista H\u00e9lio Bacha, de 70 anos, do Alberto Einstein, confirmou que est\u00e1 com coronav\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCom a falta de testes, o n\u00famero de \u00f3bitos e casos de coronav\u00edrus confirmados est\u00e1 subnotificado. 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