{"id":4696,"date":"2020-04-03T06:57:19","date_gmt":"2020-04-03T09:57:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4696"},"modified":"2020-04-03T07:07:40","modified_gmt":"2020-04-03T10:07:40","slug":"__trashed-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/__trashed-2\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A epidemia pelas ventas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201d\u00c9 genocida a ideia de que a epidemia tem baixa letalidade e, por isso, \u00e9 prefer\u00edvel que tenha um ciclo curto, para que a economia se recupere r\u00e1pido\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Todo velejador sabe que diante da tempestade \u00e9 melhor prevenir do que remediar. Quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel chegar a um porto seguro antes da borrasca, isso significa rizar bem as velas, ou seja, diminuir a \u00e1rea v\u00e9lica proporcionalmente \u00e0 for\u00e7a do vento, e enfrentar as ondas longe da costa. Em situa\u00e7\u00f5es limites, p\u00f4r o barco em capa, aquartelando as velas no sentido contr\u00e1rio ao leme, at\u00e9 o mau tempo passar; ou correr com o tempo, em \u00e1rvore seca, isto \u00e9, sem as velas, firme no leme para manter o barco longe dos arrecifes. No desespero, muitas vezes, a sa\u00edda \u00e9 encalhar o barco numa praia.<\/p>\n<p>Em quaisquer circunst\u00e2ncias, o timoneiro tem que saber posicionar o barco corretamente em meio \u00e0s ondas, para n\u00e3o naufragar. Em capa, \u00e9 preciso aguentar o aguaceiro pelas ventas, ou seja, a onda batendo na proa da embarca\u00e7\u00e3o, sem deixar o barco virar. Em \u00e1rvore seca, ou seja, sem as velas, com a onda batendo na popa, o risco de virar tamb\u00e9m existe, a sa\u00edda \u00e9 reduzir a velocidade e n\u00e3o deixar o barco atravessar. Mesmo os grandes navios est\u00e3o sujeitos a ter que fazer essas manobras nas grandes tempestades.<\/p>\n<p>\u00c9 v\u00e1lida a analogia das manobras de mau tempo com o combate \u00e0 epidemia de coronav\u00edrus, que parece uma mistura de tsunami com tempestade tropical. O presidente Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um velho marujo. N\u00e3o consegue entender o risco de seu pr\u00f3prio naufr\u00e1gio. A pandemia come\u00e7ou como uma pequena ondula\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1 crescendo como um tsunami que se aproxima da costa; para piorar, vem acompanhada de ventos equivalentes a uma tempestade tropical, a recess\u00e3o da economia mundial. S\u00e3o dois fen\u00f4menos conjugados, sem precedentes desde a gripe espanhola, em 1918, e a Grande Depress\u00e3o de 1929, sem esse intervalo de tempo.<\/p>\n<p>O que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, os governadores e os prefeitos fizeram at\u00e9 agora foi tentar preparar o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) enquanto o tsunami n\u00e3o chega \u00e0 praia, o que vai acontecer mais cedo ou mais tarde. A Sa\u00fade \u00e9 um sistema federativo, financiado 40% pelo governo federal, 40% pelos estados e 20% pelos munic\u00edpios, mas assim\u00e9trico no atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o: 15% a cargo da Uni\u00e3o, 35% dos estados e 50% dos munic\u00edpios. A Uni\u00e3o s\u00f3 gasta 5% com hospitais, 50% dos custos s\u00e3o arcados pelos estados e 45%, pelos munic\u00edpios.<\/p>\n<p><strong>Ultimato<\/strong><br \/>\n\u00c9 preciso levar o barco devagar, como lembrou o ministro da Sa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta, citando o samba famoso de Paulinho da Viola. N\u00e3o h\u00e1 outra maneira de manter esse sistema operacional sem reduzir a circula\u00e7ao de pessoas e garantir os meios para que suas necessidades b\u00e1sicas possam ser atendidas, em termos de recursos financeiros, servi\u00e7os e abastecimento. Trata-se de evitar o naufr\u00e1gio dos hospitais no meio da tormenta, mantendo o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas longe da costa, para quando a onda chegar \u00e0 praia os estragos serem menores.<\/p>\n<p>O colapso do sistema de sa\u00fade p\u00fablica somente poder\u00e1 ser evitado diluindo a demanda de leitos e equipamentos ao longo do tempo. O pre\u00e7o disso \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, com o que o presidente Jair Bolsonaro n\u00e3o concorda, porque deixa grande parte da for\u00e7a de trabalho sem renda. Mas, se isso n\u00e3o for feito, o custo humano e econ\u00f4mico ser\u00e1 muito maior, advertem os economistas. A sa\u00edda \u00e9 governo garantir uma renda b\u00e1sica para todos e financiar a inatividade das empresas.<\/p>\n<p>\u00c9 genocida a ideia de que a epidemia tem baixa letalidade e, por isso, \u00e9 prefer\u00edvel que tenha um ciclo curto, para que a economia se recupere mais r\u00e1pido, mesmo com a morte de idosos. Sim, a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie estar\u00e1 garantida por aqueles que s\u00e3o mais jovens, com maior resist\u00eancia ao v\u00edrus, mas o c\u00e1lculo econ\u00f4mico desse \u201cdarwinismo social\u201d \u00e9 completamente equivocado: os preju\u00edzos ser\u00e3o muito maiores se os hospitais entrarem em colapso e houver mortes em massa. A perda de recursos humanos tamb\u00e9m prejudica a economia.<\/p>\n<p>Ontem, Bolsonaro voltou a questionar a pol\u00edtica de isolamento social no Twitter e, em entrevista \u00e0 Jovem Pan, disse que sua rela\u00e7\u00e3o com o ministro da Sa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta, est\u00e1 desgastada. \u201cO Mandetta j\u00e1 sabe que a gente est\u00e1 se bicando h\u00e1 algum tempo. Eu n\u00e3o pretendo demiti-lo no meio da guerra. Agora, ele em algum momento extrapolou\u201d, declarou. Bolsonaro j\u00e1 demitiu cinco ministros e advertiu que tamb\u00e9m pode exonerar Mandetta, se o ministro n\u00e3o flexibilizar o isolamento social na pr\u00f3xima semana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201d\u00c9 genocida a ideia de que a epidemia tem baixa letalidade e, por isso, \u00e9 prefer\u00edvel que tenha um ciclo curto, para que a economia se recupere r\u00e1pido\u201d Todo velejador sabe que diante da tempestade \u00e9 melhor prevenir do que remediar. 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