{"id":4712,"date":"2020-04-09T07:52:15","date_gmt":"2020-04-09T10:52:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4712"},"modified":"2020-04-09T07:53:32","modified_gmt":"2020-04-09T10:53:32","slug":"nas-entrelinhas-uma-homenagem-postuma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-uma-homenagem-postuma\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Uma homenagem p\u00f3stuma"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>Bolsonaro enquadrou Mandetta e responsabiliza governadores e prefeitos pelo desemprego, embora tenham a dura tarefa de conter a epidemia na ponta\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Escrevo antes do pronunciamento de Bolsonaro de ontem \u00e0 noite, em cadeia de tev\u00ea. Pela live que compartilhou no Twitter, a conversa que teve com Luiz Henrique Mandetta obrigou o ministro da Sa\u00fade a flexibilizar geograficamente a pol\u00edtica de distanciamento social, levando em conta a progress\u00e3o da doen\u00e7a nos estados. \u00c9 um perigo, mas Mandetta hasteou a bandeira branca e bateu contin\u00eancia para o presidente da Rep\u00fablica. Na entrevista coletiva que deu \u00e0 tarde, deixou isso claro: \u201cQuem comanda este time aqui \u00e9 o presidente Jair Messias Bolsonaro\u201d, disse. \u201cTivemos nossas dificuldades internas, isso \u00e9 p\u00fablico, mas estamos prontos, cada um ciente de seu papel nesta hist\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o sei qual o acordo que fizeram, mas essa \u00e9 a ordem natural das coisas num sistema de poder no qual o v\u00e9rtice \u00e9 o presidente da Rep\u00fablica. A prop\u00f3sito, Norberto Bobbio, ap\u00f3s o assassinato do primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, escreveu uma s\u00e9rie de artigos sobre a crise italiana, reunidos numa colet\u00e2nea publicada no Brasil, intitulada As ideologias e o poder em crise, em tradu\u00e7\u00e3o de Marco Aur\u00e9lio Nogueira. Destaco dois deles: a pol\u00edtica n\u00e3o pode absolver o crime, no cap\u00edtulo sobre Os fins e os meios, e Quem governa?, em O mau governo.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia a Bobbio veio ao caso devido a uma passagem da entrevista do ministro Mandetta. Em certo momento, no chamamento que fez \u00e0 uni\u00e3o de todos contra a epidemia, disse que as autoridades m\u00e9dicas precisam da ajuda de todos, inclusive das mil\u00edcias e dos traficantes. O ministro n\u00e3o \u00e9 nenhum ing\u00eanuo, deve ter algum motivo para ter falado isso, mesmo sabendo que seria duramente criticado por essa refer\u00eancia ao crime organizado. A grande d\u00favida \u00e9 se fez um apelo dram\u00e1tico por puro desespero, pois estamos num momento crucial do crescimento exponencial da epidemia, ou se realmente houve um pacto do governo Bolsonaro com as mil\u00edcias e os traficantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria a primeira que vez que isso aconteceria, com consequ\u00eancias desastrosas, porque favorece a expans\u00e3o do crime organizado na sociedade e sua infiltra\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica. Por outro lado, \u00e9 muito f\u00e1cil faz\u00ea-lo, pela via das rela\u00e7\u00f5es perigosas nos sistemas de seguran\u00e7a p\u00fablica e penitenci\u00e1rio. Ministro-chefe da Casa Civil, o general Braga Netto, ex-interventor no Rio de Janeiro, conhece bem essas conex\u00f5es. Qual \u00e9 a l\u00f3gica perversa por tr\u00e1s desse racioc\u00ednio? Todos sabemos que a epidemia ainda n\u00e3o chegou ao pov\u00e3o, est\u00e1 na classe m\u00e9dia alta, e s\u00f3 agora registra os primeiros casos de mortes nas favelas e periferias das grandes cidades e regi\u00f5es metropolitanas conurbadas, principalmente em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Manaus. Na pr\u00e1tica, isso significa toque de recolher e dura puni\u00e7\u00e3o nas favelas e nas periferias, numa hora em que o presidente da Rep\u00fablica pressiona pela flexibiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de isolamento social.<\/p>\n<p><strong>Quem governa?<\/strong><br \/>\nGovernos monol\u00edticos nas democracias n\u00e3o existem, ainda mais num sistema federativo e de equil\u00edbrio entre os poderes. Bolsonaro enquadrou Mandetta e responsabiliza governadores e prefeitos pelo distanciamento social e o desemprego. Mas sabe tamb\u00e9m que os governadores e prefeitos, que t\u00eam a dura tarefa de conter a epidemia na ponta, contam com o apoio do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) para agir com autonomia, na esfera de suas compet\u00eancias. Por mais que queira, n\u00e3o existe correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para Bolsonaro intervir nos estados. \u00c9 assim que funciona na democracia.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro \u00e9 ampliado, cada minist\u00e9rio \u00e9 um subgoverno que se relaciona com os demais poderes e esferas de poder com relativa autonomia, al\u00e9m de terem imbrica\u00e7\u00f5es com ag\u00eancias privadas e grandes setores empresariais. Mas \u00e9 da\u00ed que veio a rea\u00e7\u00e3o para garantir o funcionamento do sistema de sa\u00fade, com produ\u00e7\u00e3o de suprimentos de prote\u00e7\u00e3o individual, equipamentos e aparelhos de sa\u00fade para ampliar a capacidade de absor\u00e7\u00e3o de pacientes pelos hospitais. Existe um grande business na \u00e1rea da sa\u00fade, cujas pol\u00edticas p\u00fablicas foram capturadas por grande fornecedores, muitos dos quais importadores, e tamb\u00e9m algumas m\u00e1fias, que desviaram recursos ao longo dos anos. Agora, chegou a hora de verdade: os profissionais de sa\u00fade est\u00e3o no comando, o governo est\u00e1 sendo obrigado a inventar um novo or\u00e7amento da Sa\u00fade e a recriar a ind\u00fastria do setor.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, foi pat\u00e9tica a constata\u00e7\u00e3o de que os hospitais federais do Rio de Janeiro n\u00e3o t\u00eam profissionais para atuar contra a epidemia, assim como os hospitais universit\u00e1rios. O governo federal \u00e9 respons\u00e1vel por 5% da capacidade hospitalar do pa\u00eds, por\u00e9m, deveria entrar com mais for\u00e7a, principalmente na montagem de hospitais de campanha e na contrata\u00e7\u00e3o de profissionais para atuar junto \u00e0s comunidades de periferia e regi\u00f5es remotas da Amaz\u00f4nia e nos sert\u00f5es do Nordeste, resgatando o Programa Mais M\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Finalmente, uma homenagem p\u00f3stuma ao sanitarista S\u00e9rgio Arouca, grande idealizador do SUS, que liderou milhares de profissionais de sa\u00fade que hoje est\u00e3o na linha de frente do combate \u00e0 epidemia. Lembro-me de duas conversas com ele: na primeira, me disse que a emerg\u00eancia era o ponto mais fraco do sistema, subestimada pela cultura dos sanitaristas; na segunda, lamentou n\u00e3o ter conseguido levar adiante seu programa de agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade no Rio de Janeiro, sem os quais seria imposs\u00edvel erradicar a dengue e conter epidemias mais graves nas comunidades pobres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro enquadrou Mandetta e responsabiliza governadores e prefeitos pelo desemprego, embora tenham a dura tarefa de conter a epidemia na ponta\u201d Escrevo antes do pronunciamento de Bolsonaro de ontem \u00e0 noite, em cadeia de tev\u00ea. 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