{"id":4752,"date":"2020-04-22T07:44:27","date_gmt":"2020-04-22T10:44:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4752"},"modified":"2020-04-22T09:02:51","modified_gmt":"2020-04-22T12:02:51","slug":"nas-entrelinhas-distopia-no-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-distopia-no-presente\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Distopia no presente"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cNos tornamos seres perigosos, suspeitos. Qualquer aproxima\u00e7\u00e3o menor que dois metros \u00e9 uma amea\u00e7a e provoca uma rea\u00e7\u00e3o de leg\u00edtima defesa\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A pergunta de meu amigo Carlos Alberto Jr., jornalista e cidad\u00e3o do mundo, numa live, inspirou a coluna de hoje: \u201cEstamos vivendo uma distopia no presente?\u201d. Normalmente, a distopia est\u00e1 associada ao futuro, porque \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da utopia, ou seja, da sociedade desejada, uma proje\u00e7\u00e3o pessimista do futuro. De certa forma, sim, estamos vivendo uma realidade dist\u00f3pica, como as que aparecem no cinema. A s\u00e9rie inglesa Black Mirror (Espelho Negro), lan\u00e7ada h\u00e1 quase 10 anos, por exemplo, em cada um de seus epis\u00f3dios, que s\u00e3o independentes, nos deixa em situa\u00e7\u00e3o muito desconfort\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia, \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, ao poder e \u00e0 \u201csociedade do espet\u00e1culo\u201d.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a grande distopia que estamos vivendo aqui no Brasil? Uma pandemia de coronav\u00edrus amea\u00e7a sair do controle e seu combate come\u00e7a a ser militarizado, com a substitui\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica participativa por estrat\u00e9gias militares que se baseiam em grandes manobras, controle de informa\u00e7\u00f5es e sa\u00eddas racionais para situa\u00e7\u00f5es fora do controle, como criar mais vagas nos cemit\u00e9rios para evitar que o aumento do n\u00famero de mortos gere outro grave problema sanit\u00e1rio: cad\u00e1veres insepultos. \u00c9 uma hip\u00f3tese sinistra, mas faz sentido, porque a concep\u00e7\u00e3o do combate \u00e0 epidemia \u00e9 a de que se trata de uma guerra. Em tese, militares estariam mais preparados para isso do que civis, o que, obviamente, \u00e9 um equ\u00edvoco em se tratando de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>O inimigo invis\u00edvel entre n\u00f3s, no trabalho, no supermercado, na fila da lot\u00e9rica, dentro de casa. Todos nos tornamos seres perigosos, suspeitos. Qualquer aproxima\u00e7\u00e3o menor que dois metros \u00e9 uma amea\u00e7a e provoca uma rea\u00e7\u00e3o de leg\u00edtima defesa, nem sempre um educado \u201cpor favor, chegue mais para l\u00e1\u201d. Os mais aptos a conviver com o novo coronav\u00edrus \u2014 os contaminados assintom\u00e1ticos \u2014, hoje s\u00e3o a maior amea\u00e7a, n\u00e3o importa se \u00e9 um antigo colega de trabalho, um parente querido, um amigo de inf\u00e2ncia, a pessoa amada; amanh\u00e3, por\u00e9m, poder\u00e3o ser os salvadores da p\u00e1tria, portadores de anticorpos e perpetuadores da esp\u00e9cie, os primeiros a voltar ao trabalho.<\/p>\n<p>A salva\u00e7\u00e3o vir\u00e1 dos mais fortes e do Estado Levit\u00e3, que pode tudo? Qual ser\u00e1 o custo de tudo isso? Na l\u00f3gica do presidente Jair Bolsonaro, \u00e9 prefer\u00edvel um maior n\u00famero de mortos do que o colapso da economia; \u00e9 preciso salvar o com\u00e9rcio, a ind\u00fastria, os pequenos neg\u00f3cios e os biscates. No fundo, seu racioc\u00ednio antecipa a escolha de Sofia do intensivista que seria obrigado a escolher quem vai ter acesso ao respirador na UTI quando o sistema de sa\u00fade entrar em colapso.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica, de Plat\u00e3o, citada pelo ex-ministro da Sa\u00fade Luiz Henrique Mandetta numa alus\u00e3o ir\u00f4nica ao famoso Mito da Caverna (met\u00e1fora criada pelo fil\u00f3sofo grego para explicar a condi\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia em que vivem os seres humanos e o que seria necess\u00e1rio para atingir o verdadeiro \u201cmundo real\u201d), inspirou Thomas Morus (1478-1535) a escrever Utopia. Publicada na Basil\u00e9ia, em 1516, na \u00e9poca dos Descobrimentos, criticou a tirania e descreveu a sociedade ideal, prontamente associada ao Novo Mundo. Na Inglaterra, seu livro s\u00f3 viria a ser publicado em 1551, 17 anos ap\u00f3s a morte do fil\u00f3sofo e estadista cat\u00f3lico executado por ordem de Henrique VIII, da Inglaterra.<\/p>\n<p><strong>Tirania<\/strong><br \/>\nCoube a outro ingl\u00eas cunhar a express\u00e3o \u201cdistopia\u201d, o liberal progressista John Stuart Mill, o primeiro a defender o direito ao dissenso e as prerrogativas das minorias, num famoso discurso no Parlamento brit\u00e2nico, em 1868, ao invocar os valores defendidos por Thomas Morus em confronto com a realidade do proletariado da Inglaterra durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. O tema da distopia foi retomado no Admir\u00e1vel Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e em 1984, de George Orwell. Na primeira obra, a sociedade \u00e9 dominada por uma casta, que a submete a um condicionamento biol\u00f3gico e psicol\u00f3gico; no segundo, numa alegoria do burocratismo stalinista, um ditador muda a l\u00edngua do povo, controla a vida dos cidad\u00e3os e manipula a imprensa.<\/p>\n<p>Na literatura, portanto, a distopia \u00e9 a den\u00fancia da sociedade indesejada, autocr\u00e1tica, submetida \u00e0 tirania e \u00e0 ordem unida. Na vida real, voltando \u00e0 pergunta inquietante do amigo, \u00e9 uma amea\u00e7a latente, seria quase uma distopia do presente. Estamos vivendo uma situa\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel, num mundo globalizado, conectado em rede, onde todos acompanham tudo em tempo real. Trata-se de um colapso da economia mundial, provocado por um fen\u00f4meno da natureza que tem a ver com o \u201cgrande encontro\u201d da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, a associa\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus mutante e uma bact\u00e9ria, que se reproduz em velocidade igual ou maior do que a moderna transmiss\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o dist\u00f3pica dos filmes de cat\u00e1strofes vira realidade, com centenas de milhares de mortos. Ontem, o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos v\u00e3o suspender a imigra\u00e7\u00e3o legal por dois meses. O \u201csonho americano\u201d, inspirado na Utopia de Thomas Morus, entrou em colapso. Aqui no Brasil, a grande distopia seria o colapso do nosso regime democr\u00e1tico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNos tornamos seres perigosos, suspeitos. 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