{"id":4761,"date":"2020-04-24T08:10:45","date_gmt":"2020-04-24T11:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4761"},"modified":"2020-04-24T08:10:45","modified_gmt":"2020-04-24T11:10:45","slug":"nas-entrelinhas-companheiro-de-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-companheiro-de-viagem\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Companheiro de viagem"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cN\u00e3o \u00e9 de ontem que Bolsonaro quer nomear o diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, exonerando o delegado Maur\u00edcio Valeixo, homem de confian\u00e7a do ministro Moro\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sou f\u00e3 incondicional do escritor belgo-franc\u00eas Georges Simenon, ao qual fui apresentado pelo meu falecido amigo Carlos Jurandir Monteiro Lopes, jornalista, escritor, m\u00fasico, guru liter\u00e1rio e musical, parceiro nas noites bo\u00eamias do Lamas e da Estudantina, no Rio de Janeiro. Seus pequenos romances comp\u00f5em um grande mosaico na literatura francesa, admirado entre outros por Andr\u00e9 Gide (O imoralista, A volta do filho pr\u00f3digo), pr\u00eamio Nobel da Literatura de 1947, e nossa universal Clarice Lispector (Perto do cora\u00e7\u00e3o selvagem, A hora da estrela), a judia ucraniana que escolheu o Brasil como sua p\u00e1tria e, entre os sete idiomas que dominava, a l\u00edngua portuguesa para tecer sua obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das hist\u00f3rias policiais, nas quais o famoso inspetor Maigret poderia pontificar ou n\u00e3o, Simenon escreveu grandes romances psicol\u00f3gicos, como O Burgomestre de Furnes, que trata do embrutecimento, do \u00f3dio e da avareza; O gato, o inferno dom\u00e9stico de um casal de idosos, que se digladiam por meio de pequenos bilhetes provocadores; e a hist\u00f3ria do quarent\u00e3o Kees Popinga, um respeit\u00e1vel cidad\u00e3o holand\u00eas, dedicado ao trabalho e \u00e0 fam\u00edlia, ao xadrez e aos charutos, cuja maior curiosidade era apenas conhecer os passageiros do trem noturno que diariamente via passar de sua janela.<\/p>\n<p>A vida de Popinga vira de pernas para o ar quando seu patr\u00e3o vai \u00e0 fal\u00eancia e resolve forjar a pr\u00f3pria morte. O pacato cidad\u00e3o, num surto inexplic\u00e1vel, embarca numa viagem sem volta num trem noturno para Paris, no qual comete o que seria um \u201ccrime perfeito\u201d. Entretanto, seu comportamento paranoico e fora do padr\u00e3o desperta suspeitas e, por isso, acaba preso. O livro \u00e9 um mergulho psicol\u00f3gico no personagem: quem \u00e9 Kees Popinga? Um maluco? Ou t\u00e3o normal quanto qualquer cidad\u00e3o? Sua vida cheia de regras era normal? A hist\u00f3ria tem um desfecho dostoieviskiano, imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar do j\u00f3vem Rask\u00f3lnikov, o personagem central de Crime e Castigo.<\/p>\n<p>Simenon produzia de seis a sete romances por ano, de um s\u00f3 f\u00f4lego, trancado no escrit\u00f3rio por duas ou tr\u00eas semanas. Entre um livro e outro, observa a alma das ruas e seus atores, para construir personagens e boas hist\u00f3rias. Sua atualidade n\u00e3o est\u00e1 no estilo, mas na trama sem julgamento moral, nua e crua, que desnuda dramas psicol\u00f3gicos e comportamentos sociais. Jurandir dizia que todo rep\u00f3rter de pol\u00edtica deveria ler Simenon, n\u00e3o apenas para melhorar o pr\u00f3prio texto, mas para aprender a levar em conta a psicologia de suas fontes e personagens. Imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar de suas li\u00e7\u00f5es na hora de escrever sobre a mais nova crise do governo Bolsonaro, desta fez, a fritura do ministro da Justi\u00e7a, S\u00e9rgio Moro, que pode ser a pr\u00f3xima baixa na Esplanada dos Minist\u00e9rios.<\/p>\n<p><b>Federais<\/b><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 de ontem que Bolsonaro quer nomear o diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, exonerando o delegado Maur\u00edcio Valeixo, homem de confian\u00e7a do ministro Moro. A tens\u00e3o entre o presidente da Rep\u00fablica e seu ministro \u00e9 antiga, decorre da investiga\u00e7\u00e3o sobre o caso das \u201crachadinhas\u201d da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), na qual o senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (Republicanos-RJ) \u00e9 investigado, por causa do ex-assessor Fabr\u00edcio Queiroz, e suas conex\u00f5es com as mil\u00edcias do Rio de Janeiro, respons\u00e1veis pelo assassinato da vereadora carioca do PSol, Marielle Franco, e seu motorista, Anderson Gomes.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, por\u00e9m, as investiga\u00e7\u00f5es est\u00e3o na esfera do Rio de Janeiro. Entretanto, Fl\u00e1vio Bolsonaro, por ter direito a foro especial, recorreu ao Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF). As investiga\u00e7\u00f5es chegaram a ser congeladas pelo presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, em liminar que desautorizou as quebras de sigilo fiscal pela Pol\u00edcia Federal sem autoriza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a, mas o plen\u00e1rio da Corte decidiu por ampla maioria autorizar seu prosseguimento. O fornecimento dessas informa\u00e7\u00f5es pelo antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ent\u00e3o subordinado ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, provocou o primeiro grande estresse entre Moro e Bolsonaro. O desfecho foi a transfer\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o para o Banco Central (BC) e o agastamento entre ambos.<\/p>\n<p>Mesmo enfraquecido, Moro permaneceu no governo, mantendo o controle sobre a Pol\u00edcia Federal (PF). Agora, a corda esticou novamente, por duas raz\u00f5es. Primeiro, a investiga\u00e7\u00e3o aberta pelo Supremo para investigar as fake news, sob comando do ministro Alexandre de Moraes, que est\u00e1 muito pr\u00f3xima de sua conclus\u00e3o e, aparentemente, envolve deputados federais. Segundo, a pedido de Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), o Supremo tamb\u00e9m vai investigar os organizadores das manifesta\u00e7\u00f5es de domingo passado, que foram consideradas pelo procurador-geral da Rep\u00fablica, Augusto Aras, um atentado \u00e0 democracia, ou seja, crime contra a Lei de Seguran\u00e7a Nacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma informa\u00e7\u00e3o oficial de que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) esteja envolvido no caso das fake news, tudo corre em segredo de Justi\u00e7a. Na bolsa de apostas de Bras\u00edlia, por\u00e9m, seu nome est\u00e1 cotad\u00edssimo. O do irm\u00e3o Carlos, vereador no Rio de Janeiro, tamb\u00e9m. O mais preocupante, por\u00e9m, \u00e9 a segunda investiga\u00e7\u00e3o. Bolsonaro foi ao ato de domingo, se estiver envolvido na sua realiza\u00e7\u00e3o, isso ser\u00e1 considerado um fato grave. Nesse caso, segundo a Constitui\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 ser investigado, pois se trata de ato cometido no decorrer do seu mandato, que pode ser considerado crime de responsabilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 de ontem que Bolsonaro quer nomear o diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, exonerando o delegado Maur\u00edcio Valeixo, homem de confian\u00e7a do ministro Moro\u201d Sou f\u00e3 incondicional do escritor belgo-franc\u00eas Georges Simenon, ao qual fui apresentado pelo meu falecido amigo Carlos Jurandir Monteiro Lopes, jornalista, escritor, m\u00fasico, guru liter\u00e1rio e musical, parceiro nas noites bo\u00eamias do Lamas e da Estudantina, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[371,4,22,7,92,9,3,80],"tags":[130,718,322,159,719,79],"class_list":["post-4761","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-etica","category-governo","category-impeachment","category-justica","category-literatura","category-politica-2","category-politica","category-seguranca","tag-bolsonaro","tag-fakemews","tag-milicias","tag-moro","tag-rachadinhas","tag-supremo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4761"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4761\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4767,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4761\/revisions\/4767"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}