{"id":4788,"date":"2020-05-05T08:16:43","date_gmt":"2020-05-05T11:16:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4788"},"modified":"2020-05-05T10:16:04","modified_gmt":"2020-05-05T13:16:04","slug":"nas-entrelinhas-emergencia-e-friccao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-emergencia-e-friccao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Emerg\u00eancia e fric\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cBolsonaro agrega \u00e0 epidemia de coronav\u00edrus um ambiente pol\u00edtico de conflitos desnecess\u00e1rios e estresse institucional, com crises criadas dentro do governo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Nunca vivemos, desde a gripe espanhola de 1918, uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria como a que o mundo atravessa. O problema do novo coronav\u00edrus \u00e9 que ainda h\u00e1 mais d\u00favidas do que certezas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a, exceto que se propaga muito rapidamente, \u00e9 letal para um contingente significativo de suas v\u00edtimas e n\u00e3o se tem previs\u00e3o de quando e se teremos uma vacina que o previna, nem um rem\u00e9dio realmente eficaz para combat\u00ea-lo. O que tem sido mais eficiente no combate \u00e0 epidemia \u00e9 o distanciamento social e um sistema p\u00fablico de sa\u00fade robusto, para tratar os casos graves e salvar vidas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m estava preparado para enfrentar o coronav\u00edrus, essa \u00e9 a verdade. Mas talvez nenhum outro governante no mundo tenha revelado tanto despreparo para lidar com a situa\u00e7ao como o presidente Jair Bolsonaro. At\u00e9 hoje, n\u00e3o se deu conta de que a volta \u00e0 normalidade \u00e9 imposs\u00edvel enquanto o v\u00edrus estiver se propagando numa velocidade maior do que a capacidade de atender as pessoas que necessitam de assist\u00eancia m\u00e9dica, pois isso significa p\u00f4r em colapso o sistema de sa\u00fade e, consequentemente, toda a economia.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros revelados at\u00e9 ontem s\u00e3o eloquentes: 7.321 mortes e 107.780 casos confirmados, dos quais 32.187 em S\u00e3o Paulo, com 2.654 mortes. Com a subnotifica\u00e7\u00e3o, calcula-se que o n\u00famero de pessoas contaminadas no pa\u00eds pode se aproximar de 1 milh\u00e3o. Uma conta simples, usando como base o \u00edndice otimista de que 3% necessitar\u00e3o de interna\u00e7\u00e3o, projeta uma demanda pr\u00f3xima de 30 mil vagas em leitos hospitalares nos pr\u00f3ximos 30 dias. Essa \u00e9 a bucha na m\u00e3o de governadores e prefeitos de todo o pa\u00eds. Em Manaus, Recife, Fortaleza e Rio de Janeiro, j\u00e1 h\u00e1 gente morrendo por falta de vagas nas UTIs, o que pode se reproduzir nos demais estados, a come\u00e7ar por Santa Catarina, a bola da vez.<\/p>\n<p>\u00c9 inequ\u00edvoco que o pa\u00eds est\u00e1 sofrendo as consequ\u00eancias do relaxamento da pol\u00edtica de distanciamento social, que \u00e9 estimulado sistematicamente pelo presidente Jair Bolsonaro, com eco no desespero da parcela da popula\u00e7\u00e3o que perdeu suas fontes de renda. Com o agravante de que os R$ 600 aprovados pelo Congresso ainda n\u00e3o chegaram \u00e0 parcela consider\u00e1vel dos que t\u00eam direito ao benef\u00edcio, por dificuldades operacionais da Caixa Econ\u00f4mica Federal, que centralizou, desnecessariamente, o cadastramento dos beneficiados e a distribui\u00e7\u00e3o dos recursos. O desespero nas filas das ag\u00eancias da Caixa revela a outra face do drama humano que estamos vivendo.<\/p>\n<p>Entretanto, o custo econ\u00f4mico do colapso total do sistema de sa\u00fade, provocado pela volta atabalhoada \u00e0s atividades do com\u00e9rcio e dos servi\u00e7os, seria muito maior do que o da atual pol\u00edtica de distanciamento social. Essa dimens\u00e3o do problema o presidente Bolsonaro n\u00e3o quer aceitar, assim como a bolha de apoiadores fanatizados com a qual interage. Ningu\u00e9m sabe como sairemos dessa crise. Com certeza, por\u00e9m, ter\u00edamos perspectivas mais otimistas se n\u00e3o houvesse tanta fric\u00e7\u00e3o no combate \u00e0 epidemia, principalmente pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo<\/strong><\/p>\n<p>Quem mais protagoniza essa fric\u00e7\u00e3o \u00e9 o presidente da Rep\u00fablica, que parece sabotar os pr\u00f3prios esfor\u00e7os do governo para combater a epidemia e criar um ambiente de coopera\u00e7\u00e3o entre os Poderes e demais entes federados, para mitigar seus efeitos econ\u00f4micos e sociais. At\u00e9 mesmo as rela\u00e7\u00f5es com os parceiros internacionais, dos quais dependemos para obter mais equipamentos e insumos, notadamente, a China, sofre os efeitos dessa fric\u00e7\u00e3o. Na cena internacional, o Brasil voltou a ser um pa\u00eds ex\u00f3tico e, agora, politicamente isolado. A constru\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es de diplomatas do Itamaraty est\u00e1 sendo implodida pelo chanceler Ernesto Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Essa fric\u00e7\u00e3o agrega \u00e0 epidemia de coronav\u00edrus um ambiente pol\u00edtico de conflitos desnecess\u00e1rios e estresse institucional, deteriorado por crises criadas dentro do pr\u00f3prio governo, pelo presidente da Rep\u00fablica. Ontem, Bolsonaro nomeou a toque de caixa o novo diretor da Pol\u00edcia Federal, delegado Rolando Alexandre de Souza, que decidiu trocar a chefia da superintend\u00eancia do Rio de Janeiro. Carlos Henrique Oliveira, atual comandante do estado fluminense, foi convidado para ser o diretor executivo da Pol\u00edcia Federal, deixando a Superintend\u00eancia do Rio, cuja dire\u00e7\u00e3o Bolsonaro sempre quis indicar. Por sua vez, o procurador-geral da Rep\u00fablica, Augusto Aras, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que autorize novas dilig\u00eancias no inqu\u00e9rito que apura suposta interfer\u00eancia pol\u00edtica do presidente Jair Bolsonaro na Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>Relator do caso, cabe ao ministro Celso de Mello autorizar a oitiva de pessoas citadas por Moro em depoimento; a recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1udio ou v\u00eddeo que comprove a suposta tentativa de interfer\u00eancia; e a per\u00edcia nas informa\u00e7\u00f5es obtidas a partir do celular de Moro. Dez pessoas do alto escal\u00e3o do governo ser\u00e3o ouvidas, entre as quais os ministros Luiz Eduardo Ramos (Governo); Augusto Heleno (GSI), Braga Netto (Casa Civil); a deputada Carla Zambelli (PSL-SP); o ex-diretor-geral da Pol\u00edcia Federal Maur\u00edcio Valeixo; e os delegados da PF Ricardo Saadi, Carlos Henrique de Oliveira Sousa, Alexandre Saraiva, Rodrigo Teixeira e Alexandre Ramagem Rodrigues. O que se investiga? \u201cO eventual patroc\u00ednio, direto ou indireto, de interesses privados do Presidente da Rep\u00fablica perante o Departamento de Pol\u00edcia Federal, visando ao provimento de cargos em comiss\u00e3o e a exonera\u00e7\u00e3o de seus ocupantes\u201d. Mais fric\u00e7\u00e3o \u00e0 vista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro agrega \u00e0 epidemia de coronav\u00edrus um ambiente pol\u00edtico de conflitos desnecess\u00e1rios e estresse institucional, com crises criadas dentro do governo\u201d Nunca vivemos, desde a gripe espanhola de 1918, uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria como a que o mundo atravessa. 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