{"id":4798,"date":"2020-05-07T09:21:13","date_gmt":"2020-05-07T12:21:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4798"},"modified":"2020-05-07T09:21:13","modified_gmt":"2020-05-07T12:21:13","slug":"nas-entrelinhas-onde-mora-o-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-onde-mora-o-perigo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Onde mora o perigo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cRamagem voltou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin) com superpoderes, depois de indicar seu bra\u00e7o direito para o comando da PF\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma parte da oposi\u00e7\u00e3o considera o governo Bolsonaro protofascista. Discordo do conceito por dois motivos: primeiro, porque vivemos numa ordem democr\u00e1tica; segundo, porque a fascistiza\u00e7\u00e3o do governo n\u00e3o \u00e9 inexor\u00e1vel. Toda vez que o presidente da Rep\u00fablica faz um gesto autorit\u00e1rio, tipo mandar um jornalista calar a boca, ou prestigia uma manifesta\u00e7\u00e3o a favor de uma interven\u00e7\u00e3o militar, por\u00e9m, a narrativa do protofascista ganha novos argumentos: \u201cE agora, voc\u00ea ainda acha que n\u00e3o estamos caminhando para o fascismo?\u201d, questiona um velho amigo jornalista. Diante das circunst\u00e2ncias, no entanto, vejo que \u00e9 melhor explicar minha avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estou entre os que veem no governo Bolsonaro um vi\u00e9s bonapartista, porque se coloca acima da sociedade e busca se apoiar nas For\u00e7as Armadas, com respaldo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico de pequenos propriet\u00e1rios, empreendedores e corpora\u00e7\u00f5es ligadas aos setores de transportes e seguran\u00e7a p\u00fablica, al\u00e9m dos truculentos e embrutecidos de um modo geral. Mais ou menos como Lu\u00eds Bonaparte, o sobrinho de Napole\u00e3o I. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no bonapartismo, o parlamento foi completamente subjugado pelo estamento burocr\u00e1tico-militar, o que n\u00e3o \u00e9 o nosso caso, embora tenhamos um governo no qual generais da reserva e da ativa est\u00e3o dando as cartas. A l\u00f3gica desse processo \u00e9 o aparelho burocr\u00e1tico-militar avan\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o aos demais poderes, em aparente neutralidade arbitral. Na Fran\u00e7a de 1851, o golpe de estado de 2 de dezembro p\u00f4s fim ao regime parlamentar.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, diante da maior crise sanit\u00e1ria que o pa\u00eds enfrenta, desde a epidemia de febre amarela de 1918, e de uma recess\u00e3o que cavalga a pandemia, nossas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o funcionando. O Congresso realiza sess\u00f5es por videoconfer\u00eancias, em marcha batida para aprovar o chamado \u201cOr\u00e7amento de Guerra\u201d, que busca socorrer estados e munic\u00edpios. O vai e vem da emenda constitucional sobre o assunto, entre a C\u00e2mara e o Senado, decorre da divis\u00e3o do pr\u00f3prio governo, como ficou demonstrado ontem. Assessores do ministro da Economia, Paulo Guedes, atuavam nos bastidores para garantir a aprova\u00e7\u00e3o da proposta do Senado sem emendas; j\u00e1 o l\u00edder do governo na C\u00e2mara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), atuou para que houvesse modifica\u00e7\u00f5es. Questionado, disse que agiu de mando, ou seja, recebeu orienta\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Ontem, Rodrigo Maia (DEM-RJ) recebeu a visita dos ministros Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) na Presid\u00eancia da C\u00e2mara. Os dois generais s\u00e3o os mandachuvas na Esplanada e comandam as articula\u00e7\u00f5es para forma\u00e7\u00e3o de uma base parlamentar com os partidos do Centr\u00e3o, na base do velho toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1, ou seja, em troca de ocupa\u00e7\u00e3o de cargos no governo. A opera\u00e7\u00e3o atraiu o PTB, do ex-deputado Roberto Jefferson; o Partido Progressista, do senador Ciro Nogueira; o PL, do ex-deputado Valdemar Costa Neto, e o PSD, do ex-prefeito Gilberto Kassab, figuras carimbadas da chamada \u201cvelha pol\u00edtica\u201d. As conversas t\u00eam uma explica\u00e7\u00e3o: os presidentes do DEM, prefeito ACM Neto, de Salvador (BA); do MDB, deputado Baleia Rossi (SP); e do Solidariedade, Paulinho da For\u00e7a (SP), n\u00e3o embarcaram nas articula\u00e7\u00f5es para transformar Maia num pato manco. O jeito foi retomar as conversas com o presidente da C\u00e2mara.<\/p>\n<p><b>Arapongas<\/b><br \/>\nA movimenta\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio do Planalto tem dois objetivos: a curto prazo, impedir qualquer possibilidade de instala\u00e7\u00e3o de um processo de impeachment e afastamento do presidente Jair Bolsonaro por crime de responsabilidade; a m\u00e9dio, eleger ao comando da C\u00e2mara um aliado que possa ser pautado por Bolsonaro, o que n\u00e3o acontece hoje. A longo prazo, ningu\u00e9m sabe. Entretanto, olhando ao redor, uma maioria fisiol\u00f3gica no Congresso \u00e9 a via mais segura para a amplia\u00e7\u00e3o dos poderes de um presidente da Rep\u00fablica. Essa receita foi adotada com \u00eaxito em pa\u00edses como o Peru de Fujimori e a Venezuela de Ch\u00e1vez, a R\u00fassia de Putin e a Hungria de Viktor Orban.<\/p>\n<p>Neste momento, onde mora o perigo? Nas manobras de Bolsonaro para ter \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o pessoal os \u00f3rg\u00e3os de coer\u00e7\u00e3o do Estado. Por ora, a tentativa de utilizar a Pol\u00edcia Federal como instrumento de poder fracassou. Essa inten\u00e7\u00e3o foi denunciada pelo ex-ministro da Justi\u00e7a Sergio Moro. Isso resultou na suspens\u00e3o da posse do delegado Alexandre Ramagem no cargo de diretor-geral da PF, por decis\u00e3o do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, e no inqu\u00e9rito aberto para investigar o caso, pelo ministro do STF Celso de Mello, a pedido do procurador-geral da Rep\u00fablica, Augusto Aras.<\/p>\n<p>Entretanto, o ministro-chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, general Augusto Heleno, delegou boa parte de suas atribui\u00e7\u00f5es a Alexandre Ramagem, que voltou \u00e0 diretoria-geral da Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia com superpoderes, depois de indicar seu bra\u00e7o direito, delegado Rolando de Souza, para o comando da PF. A ag\u00eancia tem por miss\u00e3o obter informa\u00e7\u00f5es para o presidente da Rep\u00fablica, mas agora ganhou autonomia para contratar servi\u00e7os sem licita\u00e7\u00e3o e financiar miss\u00f5es de servidores, militares, empregados p\u00fablicos ou colaboradores eventuais da ag\u00eancia, obviamente, em segredo. Ou seja, Bolsonaro est\u00e1 organizando um ex\u00e9rcito de \u201carapongas\u201d. \u00c9 um p\u00e9ssimo sinal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cRamagem voltou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin) com superpoderes, depois de indicar seu bra\u00e7o direito para o comando da PF\u201d Uma parte da oposi\u00e7\u00e3o considera o governo Bolsonaro protofascista. Discordo do conceito por dois motivos: primeiro, porque vivemos numa ordem democr\u00e1tica; segundo, porque a fascistiza\u00e7\u00e3o do governo n\u00e3o \u00e9 inexor\u00e1vel. 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