{"id":4807,"date":"2020-05-17T07:46:12","date_gmt":"2020-05-17T10:46:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4807"},"modified":"2020-05-17T07:46:12","modified_gmt":"2020-05-17T10:46:12","slug":"resolvam-isso-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/resolvam-isso-ai\/","title":{"rendered":"Resolvam isso a\u00ed!"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>\u201cA carreira militar \u00e9 um canal de ascens\u00e3o social, mas n\u00e3o \u00e9 nem deve ser uma rampa de acesso direto ao poder pol\u00edtico\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O aperto de m\u00e3os entre o falecido general Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, ministro do Ex\u00e9rcito, e o rec\u00e9m-empossado presidente Jos\u00e9 Sarney, em 1985, na transi\u00e7\u00e3o do regime militar \u00e0 democracia, simbolizou o momento em que a tutela militar sobre a na\u00e7\u00e3o, iniciada pouco antes da Guerra do Paraguai(1864 a 1870), ainda no Imp\u00e9rio, havia acabado. Durante mais de um s\u00e9culo, at\u00e9 ent\u00e3o, militares da ativa atuaram politicamente e se pronunciaram sobre a vida institucional do pa\u00eds, muitas vezes de forma truculenta e brutal. O gesto p\u00f4s um ponto final na ditadura implantada ap\u00f3s a destitui\u00e7\u00e3o do presidente Jo\u00e3o Goulart, em 1964.<\/p>\n<p>Na madrugada de 15 de mar\u00e7o de 1985, com a na\u00e7\u00e3o perplexa diante da interna\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves no Hospital de Base de Bras\u00edlia, o ent\u00e3o ministro do Ex\u00e9rcito, com a Constitui\u00e7\u00e3o na m\u00e3o, convencera as lideran\u00e7as pol\u00edticas da \u00e9poca de que o vice-presidente eleito, Jos\u00e9 Sarney, deveria tomar posse. Havia controv\u00e9rsias, alguns achavam que Ulysses Guimar\u00e3es, o l\u00edder do MDB, deveria assumir interinamente e convocar novas elei\u00e7\u00f5es. O ent\u00e3o chefe da Casa Civil, ministro Leit\u00e3o de Abreu, ajudou a dirimir d\u00favidas entre os dois principais protagonistas da democratiza\u00e7\u00e3o: Sarney queria que Ulysses assumisse. Seria o caos. Para evitar a crise, Ulysses sempre defendeu o contr\u00e1rio. O general comunicou a decis\u00e3o da maioria: \u201cBoa noite, presidente!\u201d, disse-lhe ao telefone.<\/p>\n<p>Nos bastidores do finado governo Figueiredo, alguns generais pretendiam aproveitar a situa\u00e7\u00e3o para manter o regime. Al\u00e9m do pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica, o ministro do Ex\u00e9rcito, Walter Pires, e o chefe do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), Oct\u00e1vio Medeiros. Durante a madrugada, Pires amea\u00e7ou movimentar as tropas para manter Jo\u00e3o Batista Figueiredo, mas Leit\u00e3o de Abreu disse-lhe que j\u00e1 n\u00e3o era mais ministro. Sua demiss\u00e3o viria publicada no Di\u00e1rio Oficial. Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves era o novo chefe militar. Figueiredo saiu pelos fundos do Pal\u00e1cio do Planalto, n\u00e3o transmitiu o cargo. \u00c0 Presid\u00eancia, Sarney convocou uma Constituinte e passou o cargo ao sucessor eleito pelo voto direto, Fernando Collor de Mello, com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 em plena vig\u00eancia. Presidiu o pa\u00eds em meio a turbul\u00eancias, uma hiperinfla\u00e7\u00e3o galopante e milhares de greves oper\u00e1rias e ocupa\u00e7\u00f5es de terras, mas ajudou a construir um Estado democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Certos momentos parecem congelar a Hist\u00f3ria, como aquele do aperto de m\u00e3os do general e o pol\u00edtico. No s\u00e9culo passado, o principal foi Confer\u00eancia de Yalta, na Crimeia, entre 4 e 11 de fevereiro de 1945, o segundo de tr\u00eas encontros entre Franklin Roosevelt (Estados Unidos), Winston Churchill (Reino Unido) e Josef St\u00e1lin (Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica), com o objetivo de repartir as zonas de influ\u00eancia entre as tr\u00eas pot\u00eancias vitoriosas. Entretanto, com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o colapso dos regimes comunistas da Europa, o fio da hist\u00f3ria foi retomado, descongelando um filme iniciado com o atentado de Sarajevo, em 28 de junho de 1914, no qual o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, foi morto por um nacionalista s\u00e9rvio, pretexto para a \u00c1ustria-Hungria, da qual faziam parte a B\u00f3snia e a Cro\u00e1cia, declarar guerra \u00e0 S\u00e9rvia, um m\u00eas depois, dando in\u00edcio \u00e0 I Guerra Mundial.<\/p>\n<p><strong>Ressentimentos<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil dos anos 1980, os militares se retiraram do poder derrotados, mas em ordem. Foram mais bem-sucedidos na estrat\u00e9gia de abertura pol\u00edtica iniciada pelo presidente Ernesto Geisel do que na condu\u00e7\u00e3o da economia, devido ao fracasso do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), colapsado pela crise do petr\u00f3leo. A anistia rec\u00edproca de 1979, consolidada pela nova Constitui\u00e7\u00e3o, p\u00f4s uma pedra sobre o passado. Todas as tentativas de revis\u00e3o que colocaram em risco esse pacto entre os militares e a antiga oposi\u00e7\u00e3o foram recha\u00e7adas, inclusive pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Restaram a eterna dor dos familiares dos desaparecidos e a frustra\u00e7\u00e3o e ressentimento daqueles que viam na caserna uma via de ascens\u00e3o ao poder pol\u00edtico, e n\u00e3o, exclusivamente, uma voca\u00e7\u00e3o militar, como acontece desde 1985. A vida militar, que exige estudo, disciplina e sacrif\u00edcios, \u00e9 um canal de ascens\u00e3o e mobilidade social, como certas profiss\u00f5es liberais e carreiras do servi\u00e7o p\u00fablico, mas n\u00e3o \u00e9 nem deve voltar a ser uma rampa de acesso direto ao poder pol\u00edtico na democracia.<\/p>\n<p>Somente durante o governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que bajulou e foi bajulado pelos comandantes militares, voltou-se a discutir o papel das For\u00e7as Armadas, numa \u00f3tica de proje\u00e7\u00e3o nacional na globaliza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da atualiza\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas e suas doutrinas. O ressentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o imposta por governos anteriores, principalmente o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por\u00e9m, foi estimulado. Entretanto, o governo de Dilma Rousseff foi um desastre em rela\u00e7\u00e3o aos militares. Havia ojeriza rec\u00edproca, por causa do passado, que os militares dissimulavam, mas a \u201cpresidenta\u201d fazia quest\u00e3o de compartilhar, at\u00e9 nos elevadores. Quando o governo colapsou, com sua nova matriz econ\u00f4mica, em meio \u00e0 recess\u00e3o e a Lava-Jato, os militares lhe deram o troco. \u201cResolvam isso a\u00ed!\u201d, dizia o comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas B\u00f4as, um grande l\u00edder militar, aos pol\u00edticos que se queixavam. Era a senha para o impeachment.<\/p>\n<p>Enfraquecido por den\u00fancias, o presidente Michel Temer devolveu aos militares o Minist\u00e9rio da Defesa, nomeando o general Joaquim Silva e Luna para o cargo. O resto da hist\u00f3ria estamos assistindo. O engajamento dos militares na elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro, na onda do descontentamento popular com a corrup\u00e7\u00e3o e a recess\u00e3o; a forma\u00e7\u00e3o de um governo assumidamente reacion\u00e1rio nas ideias, ultraliberal na economia e conservador nos costumes; No Pal\u00e1cio do Planalto, generais pragm\u00e1ticos, alguns com o cacoete do mandonismo, outros com gosto pela pol\u00edtica do baixo clero, s\u00e3o comandados por um ex-capit\u00e3o nost\u00e1lgico dos tempos da linha-dura de Costa e Silva e Em\u00edlio M\u00e9dici, o Presidente err\u00e1tico. Certo estava o \u201cCoronel Y\u201d, nos idos da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que mais tarde viria a ser o marechal Castelo Branco, o primeiro presidente do regime militar, ao defender uma Lei de Inatividade que obrigasse todo militar a se desligar definitivamente da carreira ao assumir fun\u00e7\u00f5es civis e deixar a fila das promo\u00e7\u00f5es andar. Como a c\u00e9lebre fotografia dos Tr\u00eas Grandes e Yalta, a quest\u00e3o militar foi \u201cdescongelada\u201d. No lugar da m\u00e3o amiga, j\u00e1 estamos vendo o bra\u00e7o forte exibir seus m\u00fasculos, como se fosse uma reprise cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 breve<\/strong>: <em>nas pr\u00f3ximas duas semanas, em f\u00e9rias, novamente me ausentarei da coluna.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA carreira militar \u00e9 um canal de ascens\u00e3o social, mas n\u00e3o \u00e9 nem deve ser uma rampa de acesso direto ao poder pol\u00edtico\u201d O aperto de m\u00e3os entre o falecido general Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, ministro do Ex\u00e9rcito, e o rec\u00e9m-empossado presidente Jos\u00e9 Sarney, em 1985, na transi\u00e7\u00e3o do regime militar \u00e0 democracia, simbolizou o momento em que a tutela militar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[130,138,351,114,421],"class_list":["post-4807","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-bolsonaro","tag-democracia","tag-ditadura","tag-militares","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4807"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4807\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}