{"id":4832,"date":"2020-06-23T07:22:21","date_gmt":"2020-06-23T10:22:21","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4832"},"modified":"2020-06-23T07:22:21","modified_gmt":"2020-06-23T10:22:21","slug":"nas-entrelinhas-mortes-em-vao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-mortes-em-vao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Mortes em v\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cBolsonaro limitar\u00e1 o aux\u00edlio aos \u201cinvis\u00edveis\u201d a apenas mais R$ 600, parcelados em tr\u00eas vezes; sem recursos, como 36 milh\u00f5es poder\u00e3o permanecer em casa?&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Para o sanitarista Luiz Ant\u00f4nio Santini, pesquisador da Fiocruz e ex-diretor do Instituto Nacional do C\u00e2ncer (INCA), a met\u00e1fora da guerra n\u00e3o \u00e9 a mais adequada para abordar os desafios da sa\u00fade. Segundo ele, uma pandemia n\u00e3o representa um ataque inesperado de um agente inimigo da humanidade, como a tese da guerra sugere. \u201cO processo de muta\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus \u00e9 uma atividade constante na natureza e o que faz com que esse v\u00edrus mutante alcance a popula\u00e7\u00e3o, sem prote\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica, s\u00e3o, al\u00e9m das mudan\u00e7as na biologia do v\u00edrus, mudan\u00e7as ambientais, no modo de vida das popula\u00e7\u00f5es humanas, nas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Muito al\u00e9m, portanto, de um ataque insidioso provocado por um agente do mal a ser eliminado.\u201d Por essa raz\u00e3o, cabe \u00e0 ci\u00eancia \u201cresponder com vacinas, medicamentos e o que mais estiver ao seu alcance ou que ainda venha a desenvolver de conhecimentos e tecnologias\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o ocorre, a melhor alternativa continua sendo o isolamento social, o rastreamento dos casos e o tratamento adequado aos infectados, o que pressup\u00f5e restri\u00e7\u00f5es de atividades econ\u00f4micas e circula\u00e7\u00e3o de pessoas, testes em massa e um servi\u00e7o m\u00e9dico operacional e capacitado. \u00c9 que o conceito de guerra imp\u00f5e decis\u00f5es estrat\u00e9gicas nas quais as prioridades n\u00e3o s\u00e3o necessariamente as vidas humanas, ou seja, o tratamento daqueles que precisam de assist\u00eancia m\u00e9dica, mas outros objetivos, no caso, o retorno das atividades econ\u00f4micas e\/ou os interesses eleitorais, como estamos assistindo. A morte \u00e9 apenas o efeito colateral. O fato de j\u00e1 n\u00e3o se restringir aos grupos de risco \u00e9 mera consequ\u00eancia. A maior vulnerabilidade da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda nas favelas, periferias, grot\u00f5es e aldeias ind\u00edgenas, reflexo de nossas desigualdades, \u00e9 considerada uma conting\u00eancia contra qual nada se pode fazer, quando deveria ser exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o racioc\u00ednio. O presidente Bolsonaro, por exemplo, deixou o Pal\u00e1cio da Alvorada, no fim de semana, para velar o corpo de um soldado cujo paraquedas n\u00e3o abriu, no Rio de Janeiro, gesto louv\u00e1vel, mas \u00e9 incapaz de decretar luto oficial por atingirmos a espantosa marca de mais de 50 mil mortos e quase 1,1 milh\u00e3o de casos confirmados, em respeito \u00e0s suas fam\u00edlias. Muito menos homenagear os m\u00e9dicos e demais profissionais de sa\u00fade que morreram na linha de frente das UTIs e \u00e0queles que se arriscam todos dias, nos hospitais e unidades de pronto atendimento (UPAs), muitos dos quais depois de terem contra\u00eddo o v\u00edrus e se recuperado. No gesto de Bolsonaro havia mais c\u00e1lculo pol\u00edtico do que humanismo.<\/p>\n<p><strong>Rebanho<\/strong><br \/>\nRecentemente, o professor de direito Lucas de Melo Prado, no site justificando.com, citou uma passagem do livro Homo Deus, de Yuval Noah Harari, sobre a s\u00edndrome \u201cnossos rapazes n\u00e3o morreram em v\u00e3o\u201d, comum durante as guerras. Referia-se \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia na Primeira Guerra Mundial, com objetivo de recuperar os territ\u00f3rios de Trento e Trieste, em poder do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro. O Ex\u00e9rcito austro-h\u00fangaro encastelou-se ao longo do Rio Isonzo e resistiu a todos os ataques. Na primeira batalha, morreram 15 mil italianos. Na segunda, 40 mil. Na terceira, 60 mil. E assim prosseguiu a guerra por dois anos. Na 12\u00aa Batalha, em Caporeto, os austr\u00edacos passaram \u00e0 ofensiva, s\u00f3 parando \u00e0s portas de Veneza. Morreram 700 mil soldados italianos, mais de um milh\u00e3o foram feridos. Inebriados pelo patriotismo, em busca das gl\u00f3rias romanas, \u201cpor Trento e por Trieste\u201d, pol\u00edticos e generais mandaram seus jovens para a morte. A analogia faz sentido.<\/p>\n<p>Nos 40 dias \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o general de divis\u00e3o Eduardo Pazuello opera uma pol\u00edtica de \u201cimuniza\u00e7\u00e3o de rebanho\u201d n\u00e3o-declarada. Militarizou a pasta, para a qual levou duas dezenas de militares \u2014 os da ativa, em desvio de fun\u00e7\u00e3o \u2014, a maioria ne\u00f3fitos em pol\u00edtica sanit\u00e1ria. Quando assumiu, em 15 de maio, o Brasil contabilizava 14,8 mil mortos e 218 mil casos confirmados. Esses n\u00fameros quase quintuplicaram no per\u00edodo. N\u00e3o ser\u00e1 surpresa se duplicarmos o n\u00famero de mortos at\u00e9 o fim de agosto, com o relaxamento da pol\u00edtica de isolamento social, como queria Bolsonaro.<\/p>\n<p>Na ativa, Pazuello cumpre ordens. Sua prioridade \u00e9 uma devassa na pasta da Sa\u00fade, que subsidie investiga\u00e7\u00f5es e den\u00fancias contra governadores e prefeitos que adquiriram equipamentos m\u00e9dicos com pre\u00e7os acima das cota\u00e7\u00f5es de mercado. Como de fato houve casos de superfaturamento e desvio de recursos por parte das m\u00e1fias que atuam no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), a pandemia j\u00e1 virou pauta policial. Quem pagar\u00e1 com a vida, por\u00e9m, s\u00e3o as v\u00edtimas da covid-19, cujo n\u00famero aumenta exponencialmente, em raz\u00e3o da flexibiliza\u00e7\u00e3o precipitada do isolamento social. Bolsonaro j\u00e1 anunciou que limitar\u00e1 o aux\u00edlio aos chamados \u201cinvis\u00edveis\u201d \u2014 36 milh\u00f5es de trabalhadores informais que ficaram sem nenhuma renda \u2014 a apenas mais R$ 600, parcelados em tr\u00eas vezes; sem recursos, como poder\u00e3o permanecer em casa?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBolsonaro limitar\u00e1 o aux\u00edlio aos \u201cinvis\u00edveis\u201d a apenas mais R$ 600, parcelados em tr\u00eas vezes; sem recursos, como 36 milh\u00f5es poder\u00e3o permanecer em casa?&#8221; Para o sanitarista Luiz Ant\u00f4nio Santini, pesquisador da Fiocruz e ex-diretor do Instituto Nacional do C\u00e2ncer (INCA), a met\u00e1fora da guerra n\u00e3o \u00e9 a mais adequada para abordar os desafios da sa\u00fade. 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