{"id":4855,"date":"2020-06-30T08:24:19","date_gmt":"2020-06-30T11:24:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4855"},"modified":"2020-06-30T08:24:19","modified_gmt":"2020-06-30T11:24:19","slug":"nas-entrelinhas-a-pandemia-e-a-vida-banal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-pandemia-e-a-vida-banal\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A pandemia e a vida banal"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>Como ser\u00e1 a via da igualdade de oportunidades e do acesso p\u00fablico \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, ao saneamento e \u00e0 mobilidade no p\u00f3s-pandemia?\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00fameros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, divulgados ontem pelo Minist\u00e9rio da Economia, revelam que 331.901 vagas de trabalho com carteira assinada foram fechadas em maio. No trimestre, foi 1,478 milh\u00e3o de empregos formais, desde mar\u00e7o. Reflexo da pandemia no Brasil, que registrou a primeira morte em 17 daquele m\u00eas. O agravante \u00e9 o fato de que o coronav\u00edrus tamb\u00e9m destruiu atividades produtivas no mercado informal, que funcionavam como v\u00e1lvula de escape para 36 milh\u00f5es de trabalhadores sem carteira assinada.<\/p>\n<p>Apenas uma parcela desses atingidos ser\u00e1 capaz de se reinventar, porque economizou recursos para travessia, disp\u00f5e de conhecimentos ou condi\u00e7\u00f5es de adquiri-los ou tem uma voca\u00e7\u00e3o inata para empreender e se adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias. Outra, a grande maioria, permanecer\u00e1 dependendo da ajuda do governo para sobreviver, at\u00e9 que a economia volte a crescer numa escala capaz de absorv\u00ea-los, novamente, no mercado de trabalho, o que pode n\u00e3o acontecer. Infelizmente, nosso pa\u00eds tem uma tradi\u00e7\u00e3o de descartar m\u00e3o de obra e substitu\u00ed-la nos ciclos de moderniza\u00e7\u00e3o, desde a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a rela\u00e7\u00e3o entre o chamado \u201cnovo normal\u201d e a \u201cvida banal\u201d se bifurcam. A supera\u00e7\u00e3o das dificuldades pela via do esfor\u00e7o pessoal faz parte do imagin\u00e1rio da nossa sociedade, seja pelo servi\u00e7o p\u00fablico, seja pela carreira profissional bem-sucedida no setor privado, ou por meio do empreendedorismo. Em \u00e9poca de confinamento, palestras e debates sobre esse assunto se multiplicam, com dicas e recomenda\u00e7\u00f5es que funcionam como uma esp\u00e9cie de manual de sobreviv\u00eancia na pandemia. Entretanto, a maioria dos que foram expelidos do mercado n\u00e3o ter\u00e1 a menor chance de encontrar uma sa\u00edda imediata por essa porta. Uma dimens\u00e3o da crise \u00e9 o escancaramento da rela\u00e7\u00e3o entre pobreza e desigualdades; a outra, como se sabe, s\u00e3o as amea\u00e7as \u00e0 nossa democracia.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, o professor Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva, do N\u00facleo de Estudos de Pol\u00edticas P\u00fablicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um velho amigo, me fez observa\u00e7\u00f5es instigantes sobre a conex\u00e3o entre os efeitos da pandemia e a chamada \u201cvida banal\u201d no cotidiano das periferias e favelas das grandes cidades brasileiras. \u00c9 a\u00ed que o drama econ\u00f4mico e social da pandemia est\u00e1 se desenrolando da forma mais in\u00edqua. Sem a esfera p\u00fablica e suas pol\u00edticas, adverte, a cautela no consumo, o empreendedorismo e a filantropia n\u00e3o d\u00e3o respostas \u00e0 pobreza, porque n\u00e3o levam em conta as desigualdades. E ainda prescindem da democracia.<\/p>\n<p><strong>Bandeira velha<\/strong><br \/>\nComo ser\u00e1 a via da igualdade de oportunidades e do acesso p\u00fablico \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, ao saneamento e \u00e0 mobilidade no p\u00f3s-pandemia? A nova agenda proposta pela crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica, segundo Bocayuva, passa n\u00e3o apenas pela renda b\u00e1sica, pressup\u00f5e o cooperativismo, a solidariedade no uso dos bens p\u00fablicos, o compartilhamento de conhecimento e das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, as mudan\u00e7as de padr\u00e3o energ\u00e9tico, de preserva\u00e7\u00e3o ambiental e de garantia dos direitos sociais, em bases democr\u00e1ticas. Por toda a economia de servi\u00e7os, cultura, educa\u00e7\u00e3o, pesquisa, ensino, infraestrutura. Como num rap, conex\u00f5es, fluxos, tr\u00e2nsitos, controles, uso do espa\u00e7o, planejamento e instala\u00e7\u00e3o de equipamentos urbanos, retomada das atividades sociais, a produ\u00e7\u00e3o, o consumo, os res\u00edduos, a reposi\u00e7\u00e3o e a reciclagem, para ele, tudo precisa ser repensado, no contexto das grandes mudan\u00e7as em curso, das rela\u00e7\u00f5es humanas \u00e0 pesquisa.<\/p>\n<p>De certa forma, o que est\u00e1 acontecendo nas favelas do Rio de Janeiro e periferias de S\u00e3o Paulo, em termos de busca de respostas e de autoprote\u00e7\u00e3o contra as iniquidades em que essas comunidades vivem, diante do avassalador avan\u00e7o da pandemia, aponta para uma nova agenda, que n\u00e3o est\u00e1 sendo considerada. A velha agenda social-democrata e social-liberal para a pobreza, ou seja, a focaliza\u00e7\u00e3o dos gastos sociais nos mais pobres e os programas de transfer\u00eancia de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, est\u00e1 sendo capturada eleitoralmente pelo presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Primeiro, com a distribui\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial de R$ 600 aprovado pelo Congresso, que j\u00e1 lhe garantiu uma mudan\u00e7a de base de apoio, conquistando uma parcela do eleitorado de baixa renda do Nordeste, que lhe era hostil e tinha saudades do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. \u00c9 gente que n\u00e3o se identificava com Bolsonaro pela via da narrativa ideol\u00f3gica \u2014 centrada na fam\u00edlia, na f\u00e9 e na ordem \u2014, mas foi atra\u00edda naturalmente, pelo interesse material imediato. Ou seja, a velha agenda da esquerda est\u00e1 t\u00e3o superada que passou \u00e0s m\u00e3os de Bolsonaro. Como nos governos anteriores, por\u00e9m, isso n\u00e3o significa uma solu\u00e7\u00e3o duradoura para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, porque n\u00e3o garante a supera\u00e7\u00e3o das desigualdades e, sem outras medidas, a m\u00e9dio prazo, estreita ainda mais os gargalos da economia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cComo ser\u00e1 a via da igualdade de oportunidades e do acesso p\u00fablico \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, ao saneamento e \u00e0 mobilidade no p\u00f3s-pandemia?\u201d N\u00fameros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, divulgados ontem pelo Minist\u00e9rio da Economia, revelam que 331.901 vagas de trabalho com carteira assinada foram fechadas em maio. 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