{"id":4896,"date":"2020-07-10T08:51:35","date_gmt":"2020-07-10T11:51:35","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4896"},"modified":"2020-07-10T08:51:35","modified_gmt":"2020-07-10T11:51:35","slug":"nas-entrelinhas-o-exemplo-de-rondon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-exemplo-de-rondon\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O exemplo de Rondon"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cO governo Bolsonaro resolveu fazer a roda da hist\u00f3ria girar para tr\u00e1s. Em apenas um ano e meio de desatinos florestais, transformou o Brasil num p\u00e1ria ambiental\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo, a pol\u00edtica para a Amaz\u00f4nia deixou de ser um assunto de seguran\u00e7a nacional. Se tiv\u00e9ssemos que tra\u00e7ar uma linha divis\u00f3ria, do ponto de vista hist\u00f3rico, quem sacou a mudan\u00e7a foi o ex-presidente Jos\u00e9 Sarney, ao criar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), em 1989. A cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente veio depois, no governo Collor de Mello, em 1992, no rastro da Confer\u00eancia Rio-92. Desde ent\u00e3o, o Brasil passou a ser uma refer\u00eancia em termos de constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica ambiental, apesar de todos os problemas nossos. Vem da\u00ed a ajuda internacional que receb\u00edamos para preservar a biodiversidade da Amaz\u00f4nia, at\u00e9 Jair Bolsonaro assumir a Presid\u00eancia e nomear Ricardo Salles para o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. P\u00f4s tudo a perder. Agora, corre atr\u00e1s do preju\u00edzo, porque os investidores deram um basta \u00e0 pol\u00edtica de desmonte do Ibama e devasta\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. O conceito de sustentabilidade passou a ser parte integrante das cadeias de com\u00e9rcio global e a preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, um problema de sobreviv\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<p>Nem todos concordam com isso, \u00e9 claro. Terraplanistas, negacionistas e reacion\u00e1rios existem no mundo inteiro, por\u00e9m, nenhum deles tem o poder destruidor da Amaz\u00f4nia do ministro Ricardo Salles, com suas boiadas, como revelou na reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril. Falou para agradar Bolsonaro, mas a divulga\u00e7\u00e3o dos v\u00eddeos desnudou a loucura de nossa atual gest\u00e3o ambiental. O Brasil foi um dos grandes art\u00edfices das principais conven\u00e7\u00f5es internacionais de meio ambiente, que tratam de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, diversidade biol\u00f3gica e desertifica\u00e7\u00e3o, e do Acordo de Paris (2015). O governo Bolsonaro resolveu fazer a roda da hist\u00f3ria girar para tr\u00e1s. Em apenas um ano e meio de desatinos florestais, transformou o Brasil num p\u00e1ria ambiental, apesar de a legisla\u00e7\u00e3o existente no pa\u00eds servir de refer\u00eancia para pol\u00edticas de sustentabilidade no mundo todo: Lei das \u00c1guas (1997), Lei dos Crimes Ambientais (1998), Pol\u00edtica Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental (1999), Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o(2000) e Lei de Gest\u00e3o de Florestas P\u00fablicas (2006).<\/p>\n<p>A declarada inten\u00e7\u00e3o de burlar e desmontar essa legisla\u00e7\u00e3o provocou uma forte rea\u00e7\u00e3o de governos, investidores e personalidades de todo o mundo. O governo se viu obrigado a dar demonstra\u00e7\u00f5es de que vai mudar de postura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia, o que resultou na reuni\u00e3o de ontem do vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o, que preside a Comiss\u00e3o da Amaz\u00f4nia, com investidores estrangeiros. O governo foi duramente cobrado. Ao lado do chanceler Ernesto Ara\u00fajo, cuja gest\u00e3o \u00e0 frente do Itamaraty envergonha a diplomacia brasileira, e do pr\u00f3prio Ricardo Salles, Mour\u00e3o anunciou a inten\u00e7\u00e3o de aumentar a fiscaliza\u00e7\u00e3o e proibir as queimadas na Amaz\u00f4nia Legal. No ano passado, a primeira grande crise do governo foi provocada pelo avan\u00e7o do desmatamento e pelas queimadas na Amaz\u00f4nia. Na ocasi\u00e3o, o presidente Jair Bolsonaro protagonizou um bate-boca com o presidente franc\u00eas, Emmanuel Macron, no qual se destacou pelas grosserias contra a primeira-dama francesa.<\/p>\n<p><strong>Campanha mundial<\/strong><\/p>\n<p>Agora, estamos diante de uma nova crise, por causa da pandemia de coronav\u00edrus, que chegou \u00e0s aldeias ind\u00edgenas. As dimens\u00f5es das reservas ind\u00edgenas sempre foram muito contestada pelos militares que cercam o presidente Jair Bolsonaro, com destaque para o chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI), general Augusto Heleno, que foi comandante militar da Amaz\u00f4nia. Entretanto, os estudos ambientais e as fotografias dos sat\u00e9lites mostram que os \u00edndios, com suas reservas, s\u00e3o os verdadeiros protetores da floresta. Mesmo do ponto de vista militar, o Ex\u00e9rcito n\u00e3o teria a menor possibilidade de \u00eaxito em suas tarefas sem a incorpora\u00e7\u00e3o dos \u00edndios \u00e0s tropas que guarnecem nossas fronteiras.<\/p>\n<p>Acontece que o mundo est\u00e1 de olho na sobreviv\u00eancia de nossos \u00edndios, principalmente das etnias amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. O premiado fot\u00f3grafo brasileiro Sebasti\u00e3o Salgado lidera uma campanha internacional em sua defesa. Mineiro de Aimor\u00e9s, ocupa a cadeira n\u00ba 1 da Academia de Belas Artes da Fran\u00e7a e mobiliza artistas, intelectuais e personalidades de todo o mundo. Bolsonaro n\u00e3o tem a dimens\u00e3o do tamanho do problema que criou, inclusive para o agroneg\u00f3cio brasileiro, que deixou de ser o grande vil\u00e3o, porque a moderna agricultura n\u00e3o precisa derrubar as florestas.<\/p>\n<p>O arqu\u00e9tipo do her\u00f3i de Bolsonaro na Amaz\u00f4nia \u00e9 o ex-deputado e major reformado do Ex\u00e9rcito Sebasti\u00e3o Curi\u00f3 Rodrigues, que atuou como agente de informa\u00e7\u00f5es na campanha contra a Guerrilha do Araguaia (PCdoB) e, depois, como coordenador do garimpo de Serra Pelada. Qu\u00e3o distante \u00e9 do papel hist\u00f3rico do marechal C\u00e2ndido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), que realizou uma saga sem paralelo nos sert\u00f5es do Centro-Oeste e do Norte do pa\u00eds, instalando linhas telegr\u00e1ficas ao longo de 1.650km de cerrado e 1.980km de florestas amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p>\u201cMatar nunca, morrer se preciso for\u201d, foi o lema que adotou para proteger os \u00edndios Bororo, Botocudo, Kaingang, Xokleng, Nambiku\u00e1ra, Xavante e Umotina (foto do Museu do \u00cdndio) ao implantar a liga\u00e7\u00e3o telegr\u00e1fica entre Brasil, Paraguai e Bol\u00edvia nos sert\u00f5es de Goi\u00e1s, Mato Grosso, Amazonas e Acre. Criador do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio, que deu origem \u00e0 Funai, guiou o ex-presidente americano Theodore Roosevelt em sua expedi\u00e7\u00e3o pelo Amazonas. De 1927 a 1930, inspecionou a fronteira brasileira desde as Guianas \u00e0 Argentina. Em 1938, promoveu a paz entre Col\u00f4mbia e Peru. O Parque Ind\u00edgena do Xingu e o antigo Museu Nacional do \u00cdndio foram ideias suas. N\u00e3o por acaso, o Congresso Nacional deu o nome de Rond\u00f4nia ao territ\u00f3rio do Guapor\u00e9 e lhe concedeu a patente de marechal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO governo Bolsonaro resolveu fazer a roda da hist\u00f3ria girar para tr\u00e1s. Em apenas um ano e meio de desatinos florestais, transformou o Brasil num p\u00e1ria ambiental\u201d H\u00e1 muito tempo, a pol\u00edtica para a Amaz\u00f4nia deixou de ser um assunto de seguran\u00e7a nacional. 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