{"id":4946,"date":"2020-07-23T08:30:56","date_gmt":"2020-07-23T11:30:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=4946"},"modified":"2020-07-23T08:30:56","modified_gmt":"2020-07-23T11:30:56","slug":"nas-entrelinhas-viver-e-muito-perigoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-viver-e-muito-perigoso\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Viver \u00e9 muito perigoso"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cCom 82,7 mil mortes no Brasil, as cidades reabrem o com\u00e9rcio, as pessoas circulam em transportes lotados e cal\u00e7adas apinhadas \u2014 o risco de contamina\u00e7\u00e3o aumentou\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A frase antol\u00f3gica que intitula a coluna, do jagun\u00e7o Riobaldo, em Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Guimar\u00e3es Rosa, nunca foi t\u00e3o universal. No romance, repete-se muitas vezes, como as refer\u00eancias aos redemoinhos e ao diabo. \u201cHoje, sei. E sei que em cada virada de campo, e debaixo de sombra de cada \u00e1rvore, est\u00e1 dia e noite um diabo, que n\u00e3o d\u00e1 movimento, tomando conta. Um que \u00e9 o rom\u00e3ozinho, \u00e9 um diabo menino, que corre adiante da gente, alumiando com lanterninha, em o meio certo do sono. Dormi, nos ventos. Quando acordei, n\u00e3o cri: tudo que \u00e9 bonito \u00e9 absurdo \u2014 Deus est\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o que os brasileiros est\u00e3o passando em meio \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus \u00e9 como ter um pesadelo acordado. Estamos numa travessia marcada pela incerteza, na qual um v\u00edrus terr\u00edvel vive \u00e0 espreita. Sair \u00e0s ruas \u00e9 um risco, ao qual cada vez mais pessoas est\u00e3o submetidas, seja pelo n\u00famero de infectados assintom\u00e1ticos que circulam, seja pela necessidade de voltar ao trabalho para sobreviver. Ontem, batemos recorde de casos da covid-19 registrados em 24 horas. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, foram nada menos que 67,8 mil diagn\u00f3sticos positivos, somando 2,227 milh\u00f5es de casos confirmados. O recorde anterior, em 19 de junho, era de 54 mil casos. As mortes por covid-19 registradas nas \u00faltimas 24 horas foram 1.284. Subiu para 82.771 o n\u00famero de \u00f3bitos pela doen\u00e7a no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A pandemia continua assombrosa em S\u00e3o Paulo, onde avan\u00e7ou pelo interior, e pressiona os estados do Sul e do Centro-Oeste. No Norte e Nordeste do pa\u00eds, parece que o pior j\u00e1 passou. Imposs\u00edvel dissociar a sofisticada filosofia do jagun\u00e7o Riobaldo do diplomata Guimar\u00e3es Rosa, o escritor: \u201cNo real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, d\u00e1 erro contra a gente. N\u00e3o se queira. Viver \u00e9 muito perigoso\u2026\u201d. Riobaldo flertava com correntezas e redemoinhos: \u201cViver \u2014 n\u00e3o \u00e9? \u2014 \u00e9 muito perigoso. Porque ainda n\u00e3o se sabe. Porque aprender a viver \u00e9 que \u00e9 o viver mesmo\u201d.<\/p>\n<p><b>Sem controle<\/b><\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 relaxando as quarentenas, a pol\u00edtica de isolamento social. Mesmo com 82,7 mil mortes, as cidades est\u00e3o reabrindo o com\u00e9rcio, as pessoas voltam a circular, nos transportes lotados e cal\u00e7adas apinhadas, o risco n\u00e3o diminuiu, aumentou. Doze estados ainda registram expans\u00e3o da doen\u00e7a: Paran\u00e1, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goi\u00e1s, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Amap\u00e1, Par\u00e1, Rond\u00f4nia, Roraima, Tocantins e Para\u00edba. Ao mesmo tempo, a omiss\u00e3o do governo federal come\u00e7a a produzir indicadores objetivos que responsabilizam o presidente Jair Bolsonaro e o ministro interino da Sa\u00fade, o general Eduardo Pazuello, pelo fato de a pandemia permanecer sem controle. Tudo tem seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>A deliberada \u201cdescoordena\u00e7\u00e3o\u201d do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade no combate \u00e0 pandemia se traduz na execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria da pasta, questionada, ontem, no Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU). O ministro Benjamin Zymler afirmou que \u00e9 muito \u201cbaixa\u201d a execu\u00e7\u00e3o dos recursos destinados ao combate \u00e0 pandemia. Segundo seu relat\u00f3rio, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade gastou 29% do dinheiro que recebeu. Dos R$ 39 bilh\u00f5es dispon\u00edveis, R$ 11,5 bilh\u00f5es foram efetivamente pagos. Interino na pasta, o general Eduardo Pazuello est\u00e1 arrumando sarna para se co\u00e7ar, pois pode ser responsabilizado judicialmente pelo fracasso no combate \u00e0 pandemia, bem como seus principais assessores, por n\u00e3o empregarem os meios dispon\u00edveis para cont\u00ea-la.<\/p>\n<p>O primeiro sinal de que esse risco \u00e9 real foi dado, ontem, pelo ministro Lu\u00eds Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou ao Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) o monitoramento das reuni\u00f5es entre o governo e lideran\u00e7as ind\u00edgenas. A conselheira Maria Thereza Uille Gomes passar\u00e1 a acompanhar a \u201csala de situa\u00e7\u00e3o\u201d, que monitora a epidemia nas aldeias. A decis\u00e3o foi tomada porque integrantes da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (Apib) se queixaram ao STF de que foram amea\u00e7ados e humilhados por integrantes do governo numa reuni\u00e3o. H\u00e1 10,2 mil \u00edndios contaminados nas aldeias, que registram 408 mortes. O cacique Aritana, do Alto Xingu, contraiu coronav\u00edrus e est\u00e1 em estado grave, hospitalizado em Goi\u00e2nia. A morte dos idosos nas aldeias ind\u00edgenas representa perda da identidade \u00e9tnica desses povos, que \u00e9 preservada por transmiss\u00e3o oral de suas culturas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCom 82,7 mil mortes no Brasil, as cidades reabrem o com\u00e9rcio, as pessoas circulam em transportes lotados e cal\u00e7adas apinhadas \u2014 o risco de contamina\u00e7\u00e3o aumentou\u201d A frase antol\u00f3gica que intitula a coluna, do jagun\u00e7o Riobaldo, em Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Guimar\u00e3es Rosa, nunca foi t\u00e3o universal. No romance, repete-se muitas vezes, como as refer\u00eancias aos redemoinhos e ao diabo. 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