{"id":50,"date":"2016-01-24T17:05:34","date_gmt":"2016-01-24T19:05:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=50"},"modified":"2016-02-05T16:31:56","modified_gmt":"2016-02-05T18:31:56","slug":"as-classes-perigosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/as-classes-perigosas\/","title":{"rendered":"As \u201cclasses perigosas\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>O banditismo \u201cdos de cima\u201d, agora, disputa espa\u00e7o no notici\u00e1rio policial com a viol\u00eancia e o crime no andar de baixo<\/em><\/p>\n<div>Considerado um dos int\u00e9rpretes do Brasil, express\u00e3o cunhada para consagrar autores como Euclides da Cunha (Os Sert\u00f5es), Gilberto Freyre (Casa grande &amp; senzala) e S\u00e9rgio Buarque de Holanda (Ra\u00edzes do Brasil), o alagoano Alberto Passos Guimar\u00e3es (1908-1993), autor de Quatro s\u00e9culos de latif\u00fandio, foi um dos primeiros a procurar compreender o fen\u00f4meno da criminalidade (ou da criminaliza\u00e7\u00e3o, como preferem alguns estudiosos do tema) e da viol\u00eancia nos grandes centros urbanos brasileiros, no rastro dos estudos sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria e a urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Capturou o fen\u00f4meno da viol\u00eancia nas nossas cidades em meio \u00e0 crise do \u201cmilagre brasileiro\u201d e aos estertores do regime militar na obra intitulada As classes perigosas \u2014 banditismo urbano e rural (Editora UERJ), publicada em 1982, tema que iria se agravar alguns anos depois, durante a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, com a hiperinfla\u00e7\u00e3o e a tensa rela\u00e7\u00e3o entre direitos humanos e seguran\u00e7a p\u00fablica. Dizia: \u201cSurpreendente e crescente grau de viol\u00eancia envolve uma cada vez mais numerosa parcela da popula\u00e7\u00e3o, v\u00edtima das mais diversas formas de atentados aos seus bens e \u00e0 sua vida\u201d. E destacava: \u201c\u00c0 viol\u00eancia dos criminosos se junta \u00e0 viol\u00eancia das pr\u00f3prias v\u00edtimas e, a essas duas, uma terceira se vem juntar: a viol\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os policiais, que, pouco fazendo para prevenir o crime, querem compensar sua inefic\u00e1cia tentando in\u00fatil e injustificadamente eliminar o crime aumentando o grau de ferocidade da repress\u00e3o\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A \u201cvia prussiana\u201d de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, segundo Guimar\u00e3es, teve como uma de suas consequ\u00eancias a forma\u00e7\u00e3o de um contingente populacional \u201cexcedente\u201d, que fora expulso do campo pela mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura, e pela incapacidade dessa m\u00e3o de obra despreparada ser absorvida nos marcos da industrializa\u00e7\u00e3o e da urbaniza\u00e7\u00e3o. Houve desestrutura\u00e7\u00e3o de grande n\u00famero de fam\u00edlias, cuja pauperiza\u00e7\u00e3o, pela concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra e pelo desemprego, foi o caldo de cultura para o banditismo tal como conhecemos hoje. Deixemos de lado, aqui, a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Estar\u00edamos chovendo no molhado n\u00e3o fosse o fato de o pa\u00eds ter entrado num novo ciclo de amplia\u00e7\u00e3o da desigualdade, em que pese a ret\u00f3rica da presidente Dilma Rousseff e os programas de transfer\u00eancia de renda do governo, quando nada, devido aos \u201cdesequil\u00edbrios demogr\u00e1ficos, ao pioramento das condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o, de alimenta\u00e7\u00e3o, de falta de assist\u00eancia sanit\u00e1ria, de recursos m\u00e9dico-hospitalares, os sintomas de desnutri\u00e7\u00e3o, as altas taxas de mortalidade geral e de mortalidade infantil\u201d, que Guimar\u00e3es registrava j\u00e1 \u00e0quela \u00e9poca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Poderia ser pior, \u00e9 verdade, por\u00e9m, com a crise \u00e9tica que desmoraliza o governo, a pol\u00edtica e os pol\u00edticos, juntou-se a isso a emerg\u00eancia de uma nova moralidade, na qual o comportamento social das camadas urbanas utiliza c\u00f3digos ou s\u00edmbolos morais diferentes para entender e resolver seus problemas. \u201cO direito de propriedade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo. As classes que t\u00eam o maior interesse em resguard\u00e1-lo j\u00e1 n\u00e3o o respeitam. E o respeito sagrado que se havia inoculado na consci\u00eancia das classes pobres j\u00e1 n\u00e3o existe ou foi profundamente desgastado\u201d, j\u00e1 advertia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O patrimonialismo das elites contribuiu para que a parte mais desesperan\u00e7ada e mais desesperada das classes pobres, aquela que penetrou no \u201cinferno do pauperismo\u201d, modificasse seu comportamento tradicional e passasse de reservas do \u201cmundo do trabalho\u201d a reservas do \u201cmundo do crime\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa passagem das \u201cclasses laboriosas\u201d para as \u201cclasses perigosas\u201d vem associada \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial e \u00e0 exclus\u00e3o social e d\u00e1 vaz\u00e3o \u00e0 \u201cteoria da suspei\u00e7\u00e3o generalizada\u201d. Historicamente, a viol\u00eancia antes aplicada sobre os trabalhadores no dom\u00ednio privado dos senhores, ap\u00f3s extinta a escravid\u00e3o, passou a ser exercida pelo Estado nas periferias e favelas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Desemprego e renda<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a raz\u00e3o da volta ao tema das chamadas \u201cclasses perigosas\u201d \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o de uma crise social provocada pela desorganiza\u00e7\u00e3o da economia. Diante da incapacidade do governo Dilma, o ajuste fiscal est\u00e1 sendo feito pelo mercado, ou seja, pelo c\u00e2mbio, pela infla\u00e7\u00e3o e o desemprego, que deve chegar a 10 milh\u00f5es de trabalhadores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Somente em 2015 o Brasil fechou 1,5 milh\u00e3o de postos de trabalho com carteira assinada. \u00c9 o pior resultado dos \u00faltimos 24 anos, segundo o Minist\u00e9rio do Trabalho. A ind\u00fastria foi respons\u00e1vel pelo maior n\u00famero de cortes de vagas \u2014 608,9 mil. A constru\u00e7\u00e3o civil ficou em segundo, com menos 417 mil. O \u00fanico setor com saldo positivo foi a agricultura, que gerou de 9,8 mil empregos. O estoque de empregos caiu 3,7%.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No rastro do desemprego, os acordos salariais de dezembro n\u00e3o conseguiram acompanhar o ritmo da infla\u00e7\u00e3o e, com isso, o trabalhador brasileiro terminou o ano com perda real do sal\u00e1rio, o que agrava a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias quanto \u00e0 capacidade de abrigar seus desempregados. Qual ser\u00e1 o comportamento dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o daqui para a frente?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa inc\u00f3gnita est\u00e1 posta tanto no aspecto do comportamento social quando do rumo pol\u00edtico que tomar\u00e1. Ainda mais porque o banditismo \u201cdos de cima\u201d, agora, disputa espa\u00e7o no notici\u00e1rio policial com a viol\u00eancia e o crime no andar de baixo.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O banditismo \u201cdos de cima\u201d, agora, disputa espa\u00e7o no notici\u00e1rio policial com a viol\u00eancia e o crime no andar de baixo Considerado um dos int\u00e9rpretes do Brasil, express\u00e3o cunhada para consagrar autores como Euclides da Cunha (Os Sert\u00f5es), Gilberto Freyre (Casa grande &amp; senzala) e S\u00e9rgio Buarque de Holanda (Ra\u00edzes do Brasil), o alagoano Alberto Passos Guimar\u00e3es (1908-1993), autor de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-50","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50\/revisions\/52"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}