{"id":5012,"date":"2020-08-19T07:28:14","date_gmt":"2020-08-19T10:28:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5012"},"modified":"2020-08-19T07:29:03","modified_gmt":"2020-08-19T10:29:03","slug":"nas-entrelinhas-o-projeto-conservador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-projeto-conservador\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O projeto conservador"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cA dois anos do bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia, as ideias de Oliveira Viana parecem renascer das cinzas, como f\u00eanix, diante da grande interroga\u00e7\u00e3o: que pa\u00eds seremos daqui a 100 anos?\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 100 anos, o livro de um autor at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido, com 37 anos, fez estrondoso sucesso liter\u00e1rio e pol\u00edtico: Popula\u00e7\u00f5es Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria Jos\u00e9 Olympio. Somente um intelectual da \u00e9poca ousou contest\u00e1-lo, Astrojildo Pereira, um dos grandes bi\u00f3grafos de Machado de Assis, jornalista, cr\u00edtico liter\u00e1rio e anarquista, que se converteria ao marxismo e, dois anos depois, fundaria o Partido Comunista. O que dizia Viana? Ele definia tr\u00eas arqu\u00e9tipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o ga\u00facho, os quais pretendia analisar, desenvolvendo um projeto de pesquisa ambicioso, ao qual deu sequ\u00eancia com a publica\u00e7\u00e3o mete\u00f3rica de mais quatro ensaios: O Idealismo da Constitui\u00e7\u00e3o (1920), Pequenos Estudos da Psicologia Social (1921), Evolu\u00e7\u00e3o do Povo Brasileiro (1923) e O Ocaso do Imp\u00e9rio (1924). O primeiro volume de Popula\u00e7\u00f5es Meridionais do Brasil dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Partia do homem para criticar as institui\u00e7\u00f5es da \u00e9poca.<\/p>\n<p>\u201cO sentimento das nossas realidades, t\u00e3o s\u00f3lido e seguro nos velhos capit\u00e3es gerais, desapareceu, com efeito, das nossas classes dirigentes: h\u00e1 um s\u00e9culo vivemos praticamente em pleno sonho. Os m\u00e9todos objetivos e pr\u00e1ticos de administra\u00e7\u00e3o e legisla\u00e7\u00e3o desses estadistas coloniais foram inteiramente abandonados pelos que t\u00eam dirigido o pa\u00eds depois da independ\u00eancia. O grande movimento democr\u00e1tico da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; as agita\u00e7\u00f5es parlamentares inglesas; o esp\u00edrito liberal das institui\u00e7\u00f5es que regem a rep\u00fablica americana, tudo isto exerceu e exerce sobre nossos dirigentes, pol\u00edticos, estadistas, legisladores, publicistas, uma fascina\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica que lhes daltoniza completamente a vis\u00e3o nacional dos nossos problemas. Sob esse fasc\u00ednio inelut\u00e1vel, perdem a no\u00e7\u00e3o objetiva do Brasil real e criam para uso deles um Brasil artificial e peregrino, um Brasil de manifesto aduaneiro, made in Europa, sorte de Cosmorama extravagante. Sobre o fundo de florestas e campos, ainda por descobrir e civilizar, passam e repassam cenas e figuras tipicamente europeias.\u201d<\/p>\n<p>Oliveira Viana faz um ataque frontal aos liberais brasileiros, corroborado pela iniquidade social que havia sido desnudada por Euclides da Cunha, ao descrever a Guerra de Canudos, n\u2019Os Sert\u00f5es. Conclu\u00eda que era preciso \u201ccoragem infinita\u201d para \u201ccontravir ostensivamente \u00e0s ideias de liberdade e construir um poderoso Estado centralizado, capaz de impor-se a todo o pa\u00eds pelo prest\u00edgio fascinante de uma grande miss\u00e3o nacional\u201d. Ao dizer que era imposs\u00edvel reproduzir aqui no Brasil o parlamentarismo ingl\u00eas, o liberalismo democr\u00e1tico \u00e0 francesa, ou o federalismo e descentraliza\u00e7\u00e3o republicana ao estilo americano, como lembra o falecido jornalista e cientista pol\u00edtico Gildo Mar\u00e7al Brand\u00e3o, em Linhagens do Pensamento Pol\u00edtico Brasileiro (Hucitec), Oliveira Viana recomendava uma interven\u00e7\u00e3o radical pelo Estado, destinado a promover a industrializa\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de bases sociais aptas a sustentar governos liberais, o que alguns viram como uma esp\u00e9cie de \u201cautoritarismo instrumental\u201d.<\/p>\n<p><strong>Estado Novo<\/strong><\/p>\n<p>M\u00fasica para a jovem oficialidade do Ex\u00e9rcito, que daria in\u00edcio \u00e0s rebeli\u00f5es tenentistas, e para o castilhismo ga\u00facho, o suprassumo do nosso republicanismo positivista mais autorit\u00e1rio, que desaguariam na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930. A consagra\u00e7\u00e3o das ideias antissistema de Oliveira Viana viria com o Estado Novo, do qual foi o grande ide\u00f3logo, e a \u201cPolaca\u201d, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1937, redigida por Francisco Campos e outorgada pelo ditador Get\u00falio Vargas. Ironicamente, Jorge Caldeira, em Hist\u00f3ria da Riqueza no Brasil (Esta\u00e7\u00e3o Brasil), destaca que o colapso pol\u00edtico da Rep\u00fablica Velha interrompe mudan\u00e7as importantes que estavam em curso, alavancadas por nosso mercado interno e a economia do sert\u00e3o, como o aumento de rentabilidade da exporta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, a grande acumula\u00e7\u00e3o de capital dos cafeicultores paulistas, que apostaram na industrializa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o no patrimonialismo, ao contr\u00e1rio das oligarquias rurais que Viana enaltecera.<\/p>\n<p>Segundo Caldeira, em 1920, o Brasil tinha 30 milh\u00f5es de habitantes, 13,3 mil ind\u00fastrias, 275 mil oper\u00e1rios, produzia 775Gwh de energia el\u00e9trica. O Correio transportava 642 milh\u00f5es de itens. Havia 28,5 mil quil\u00f4metros de ferrovias, que transportavam 16,5 milh\u00f5es de toneladas. Os investimentos, estagnados durante a guerra, eram de 1,1 milh\u00e3o de libras esterlinas e chegariam a 2,8 milh\u00f5es, em 1929. Exportava-se 11,5 milh\u00f5es de sacas de caf\u00e9, cujo rendimento era de 40,4 milh\u00f5es de libras esterlinas. O percentual da popula\u00e7\u00e3o alfabetizada chegava a 28,8%. Era uma \u00e9poca em que o Estado arrecadava 6% do PIB, ou seja, o setor privado ficava com 94%. A Uni\u00e3o era respons\u00e1vel por 3,5% desse montante, os Estados com 2,% e os munic\u00edpios com 0,5%. O pa\u00eds crescia gra\u00e7as ao desenvolvimento capitalista, a conex\u00e3o entre a economia do sert\u00e3o e a economia de exporta\u00e7\u00e3o financiava a industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia desencadearia o questionamento de quase tudo, com a Semana de Arte Moderna, a cria\u00e7\u00e3o do Partido Comunista, as rebeli\u00f5es tenentistas, como a Revolta Paulista de 1924 e a Coluna Prestes, no mesmo ano. Qual seria o projeto de pa\u00eds para os 100 anos seguintes? \u00c0 \u00e9poca, esse debate foi hegemonizado pelas ideias de Oliveira Viana, que tiveram sua grande recidiva ap\u00f3s o golpe de 1964, no Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, no auge \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d do regime militar. Agora, no governo Bolsonaro, a dois anos do bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia, elas parecem renascer das cinzas, como f\u00eanix, diante da grande interroga\u00e7\u00e3o: que pa\u00eds seremos daqui a 100 anos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA dois anos do bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia, as ideias de Oliveira Viana parecem renascer das cinzas, como f\u00eanix, diante da grande interroga\u00e7\u00e3o: que pa\u00eds seremos daqui a 100 anos?\u201d H\u00e1 100 anos, o livro de um autor at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido, com 37 anos, fez estrondoso sucesso liter\u00e1rio e pol\u00edtico: Popula\u00e7\u00f5es Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. 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