{"id":5021,"date":"2020-08-21T07:21:03","date_gmt":"2020-08-21T10:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5021"},"modified":"2020-08-21T07:31:43","modified_gmt":"2020-08-21T10:31:43","slug":"nas-entrelinhas-o-esgotamento-do-milagre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-esgotamento-do-milagre\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O esgotamento do milagre"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cOs militares se retiraram em ordem para os quart\u00e9is, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neveso, o, , em 1985. Agora, est\u00e3o de volta ao poder, na garupa do presidente Jair Bolsonaro&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No Brasil republicano, houve dois longos ciclos de moderniza\u00e7\u00e3o do Estado e da economia, ambos em regimes ditatoriais. O primeiro, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que culminou no Estado Novo, durou 15 anos e se esgotou com o fim da II Guerra Mundial e a redemocratiza\u00e7\u00e3o; o segundo, ap\u00f3s o golpe militar de 1964, resultou numa ditadura de 21 anos. Em dois momentos, por\u00e9m, foi poss\u00edvel realizar ciclos de moderniza\u00e7\u00e3o do Estado e da economia em bases democr\u00e1ticas, durante os governos Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), com seu Plano de Metas, e Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), com o Plano Real.<\/p>\n<p>Como foi a ascens\u00e3o e queda do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d dos militares? O I Plano Nacional de Desenvolvimento, no governo do general Garrastazu M\u00e9dici, idealizado pelo ministro do Planejamento Jo\u00e3o Paulo dos Reis Veloso, pretendia p\u00f4r o Brasil entre as na\u00e7\u00f5es desenvolvidas no espa\u00e7o de uma gera\u00e7\u00e3o. Para tanto, duplicaria a renda per capita do pa\u00eds at\u00e9 1980; elevaria o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) at\u00e9 1974, com base numa taxa anual entre 8% e 10%; e elevaria a taxa de expans\u00e3o do emprego at\u00e9 3,2% em 1974, al\u00e9m de reduzir a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A meta foi ultrapassada: o crescimento do PIB, de 1967 a 1973, foi de cerca de 10,2%, e de quase 12,5% entre 1971 e 1973, diante de uma m\u00e9dia de 7% no p\u00f3s-guerra, at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 1960. Diante do crescimento da popula\u00e7\u00e3o de 2,9% ao ano, a segunda grande meta, de aumento do PIB per capita \u00e0 taxa de cerca de 6%, tamb\u00e9m foi alcan\u00e7ada. Entre 1967 e 1973, popula\u00e7\u00e3o aumentou de 85,1 milh\u00f5es para 99,8 milh\u00f5es de habitantes, o produto per capita cresceu \u00e0 taxa m\u00e9dia de 7,2%. O n\u00edvel de emprego passou \u201cde 2,8% para a ordem de 3,3% em 1973\u201d. Outra \u201cgrande meta\u201d era o aumento do investimento fixo bruto em 58% de 1969 para 1973. Entre 1971 e 1973, a forma\u00e7\u00e3o bruta de capital fixo correspondeu, em m\u00e9dia, a 21% do PIB, alcan\u00e7ando 22,4% em 1973. Apenas no per\u00edodo de 1970 a 1973, o aumento real do n\u00edvel de investimento foi de 62,9% \u2013\u2013 novamente ultrapassou a meta estabelecida em 1970.<\/p>\n<p>Tudo isso foi \u201cfinanciado\u201d pela poupan\u00e7a nacional bruta. Entre 1967 e 1973, a absor\u00e7\u00e3o l\u00edquida de recursos do exterior foi de apenas 0,8% do PIB, elevando-se um pouco para 1,2%, de 1970 a 1973. Houve excessivo endividamento externo e concentra\u00e7\u00e3o de renda, porque os sal\u00e1rios cresceram a taxas inferiores \u00e0 da produtividade, por\u00e9m com ganhos expressivos para a classe m\u00e9dia, que cresceu.<\/p>\n<p>Para corrigir essas distor\u00e7\u00f5es, no governo Ernesto Geisel foi lan\u00e7ado o II Plano Nacional de Desenvolvimento, que pretendia elevar a renda per capita a mais de US$ 1 mil e fazer com que o PIB ultrapassasse os US$ cem bilh\u00f5es em 1977. A meta para o quinqu\u00eanio 1975-1979 era enfrentar a escassez de petr\u00f3leo e promover novo ciclo de industrializa\u00e7\u00e3o, alavancado pelo setor produtivo estatal, com implanta\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias b\u00e1sicas, sobretudo bens de capital e eletr\u00f4nica pesada, para substituir as importa\u00e7\u00f5es e abrir novas frentes de exporta\u00e7\u00e3o. A agropecu\u00e1ria tamb\u00e9m teria um novo papel.<\/p>\n<p><b>Abertura<\/b><br \/>\nO II PND mirava uma sociedade industrial moderna, tendo por n\u00facleo b\u00e1sico a regi\u00e3o Centro-Sul. Exigia investimentos de Cr$ 700 bilh\u00f5es para a ind\u00fastria de base, o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico e da infraestrutura econ\u00f4mica. A pol\u00edtica de energia seria decisiva para reduzir a depend\u00eancia do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fontes externas. Havia um programa de aplica\u00e7\u00e3o de recursos no Nordeste, ocupa\u00e7\u00e3o produtiva da Amaz\u00f4nia e da regi\u00e3o Centro-Oeste.<\/p>\n<p>A crise do petr\u00f3leo e a falta de capacidade de financiamento do setor p\u00fablico, por\u00e9m, levaram ao colapso o projeto de capitalismo de estado dos militares. Havia muito voluntarismo, o modelo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es havia se esgotado com o avan\u00e7o da globaliza\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica do regime militar era amea\u00e7ada pela oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, apesar da brutal repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o projeto de abertura pol\u00edtica de Geisel, que teve seu curso no governo Figueiredo, diante das sucessivas derrotas eleitorais dos militares e seus aliados, foi mais bem-sucedido do que o II PND. Os militares se retiraram em ordem para os quart\u00e9is, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o do oposicionista Tancredo Neves, um liberal-conservador, em 1985. Entretanto, agora, est\u00e3o de volta ao poder, na garupa do presidente Jair Bolsonaro. Saudosistas do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, por\u00e9m, movem uma guerra surda contra o ministro da Economia, Paulo Guedes, para mudar a pol\u00edtica econ\u00f4mica e retomar o velho projeto nacional-desenvolvimentista. Sem chances de dar certo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs militares se retiraram em ordem para os quart\u00e9is, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neveso, o, , em 1985. Agora, est\u00e3o de volta ao poder, na garupa do presidente Jair Bolsonaro&#8221; No Brasil republicano, houve dois longos ciclos de moderniza\u00e7\u00e3o do Estado e da economia, ambos em regimes ditatoriais. 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