{"id":5045,"date":"2020-08-30T09:22:30","date_gmt":"2020-08-30T12:22:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5045"},"modified":"2020-08-30T10:41:02","modified_gmt":"2020-08-30T13:41:02","slug":"a-derradeira-estacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-derradeira-estacao\/","title":{"rendered":"A derradeira esta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>\u201cA corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica no Rio de Janeiro tem uma dimens\u00e3o cultural que precisa ser levada em conta, por causa da glamuriza\u00e7\u00e3o da \u00e9tica da malandragem\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Escrevo a coluna com o som na caixa. Chico Buarque canta Esta\u00e7\u00e3o Derradeira, na qual glamuriza com afeto e poesia as mazelas do Rio de Janeiro: \u201cRio de ladeiras\/ Civiliza\u00e7\u00e3o encruzilhada\/ Cada ribanceira \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o\u201d. A imagem de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, o santo padroeiro da cidade, \u00e9 invocada para sintetizar o sofrimento e a esperan\u00e7a, como nas pali\u00e7adas ao p\u00e9 do Morro Cara de C\u00e3o, na Urca, na qual Est\u00e1cio de S\u00e1 e os paulistas, com apoio do cacique Ararib\u00f3ia, em 1\u00ba de mar\u00e7o de 1565, fundaram a cidade para expulsar os calvinistas franceses e seus aliados tamoios. Sobe o som: \u201cS\u00e3o Sebasti\u00e3o crivado\/ Nublai minha vis\u00e3o\/ Na noite da grande\/ Fogueira desvairada\/ Quero ver a Mangueira\/ Derradeira esta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A m\u00fasica n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a desde a not\u00edcia do afastamento do governador Wilson Witzel e a pris\u00e3o de seus aliados por corrup\u00e7\u00e3o, entre eles o Pastor Everaldo, presidente do PSC. N\u00e3o vou repetir o que j\u00e1 se sabe: mais um governo atolado no mangue da corrup\u00e7\u00e3o. Entretanto, para quem quiser saber como tudo isso come\u00e7ou, recomendo o romance de Manuel Ant\u00f4nio de Almeida, Mem\u00f3rias de um Sargento de Mil\u00edcias, que retrata a vida do Rio de Janeiro no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, com a chegada de D. Jo\u00e3o VI e sua Corte. A hist\u00f3ria foi publicada anonimamente, em folhetim, ou seja, em cap\u00edtulos semanais, no Correio Mercantil, entre junho de 1852 e julho de 1853. O nome do autor foi revelado apenas na terceira edi\u00e7\u00e3o em livro, p\u00f3stuma, em 1863.<\/p>\n<p>Personagens populares s\u00e3o os grandes protagonistas do romance, movidos por duas for\u00e7as de tens\u00e3o, a ordem e a desordem, caracter\u00edsticas profundas da sociedade colonial da \u00e9poca, que se mant\u00eam at\u00e9 hoje. O major Vidigal e sua comadre, dona Maria, pertencem ao lado da ordem, por\u00e9m, nada t\u00eam de retid\u00e3o, apenas est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o social mais est\u00e1vel. A desordem \u00e9 representada pelo malandro Teot\u00f4nio, o sacrist\u00e3o da S\u00e9 e Vidinha. Entretanto, todos transitam de um p\u00f3lo para o outro, em momentos de acomoda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 crise do Rio de Janeiro, que muitos atribuem \u00e0 transfer\u00eancia da capital para Bras\u00edlia e\/ou \u00e0 fus\u00e3o da antiga Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro. Essa \u00e9 uma vis\u00e3o nost\u00e1lgica, embora tenha a ver com a crise estrutural do estado. De fato, a transfer\u00eancia da capital esvaziou pol\u00edtica e economicamente a antiga Guanabara. Entretanto, a fus\u00e3o dos dois estados foi feita exatamente para compensar essas perdas, pois o projeto do presidente Ernesto Geisel, no regime militar, era fazer do Rio de Janeiro a capital do setor produtivo estatal, que rivalizaria com S\u00e3o Paulo, pois concentrava as sedes da maioria das empresas estatais. O colapso do modelo de capitalismo de Estado dos militares, por\u00e9m, p\u00f4s o Rio a perder. Era um erro de conceito, abatido pela crise do petr\u00f3leo e pela falta de capacidade de financiamento do Estado brasileiro.<\/p>\n<p><strong>\u00c9tica da malandragem<\/strong><\/p>\n<p>Para complicar, a Constituinte da Fus\u00e3o, em 1975, que acompanhei como rep\u00f3rter do antigo Di\u00e1rio de Not\u00edcias, encarregou-se de inchar a m\u00e1quina do novo estado, que j\u00e1 nasceu envelhecida, efetivando os comissionados e celetistas dos antigos governos dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, e mais os que foram incorporados \u00e0 interven\u00e7\u00e3o pelo almirante Faria Lima. Sem muita racionalidade na distribui\u00e7\u00e3o de responsabilidades entre a administra\u00e7\u00e3o estadual e a nova prefeitura da capital, o resultado foram mais gastos p\u00fablicos e inefici\u00eancias, al\u00e9m de um passivo previdenci\u00e1rio exponencial e impag\u00e1vel. Essa situa\u00e7\u00e3o agravou-se ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, com a efetiva\u00e7\u00e3o de mais comissionados na aprova\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o estadual.<\/p>\n<p>A \u00faltima grande frustra\u00e7\u00e3o do estado foi o governo de S\u00e9rgio Cabral, que, inicialmente, parecia a reden\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, por causa da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e das Olimp\u00edadas, mas se atolou no mar de lama da corrup\u00e7\u00e3o. A euforia do pr\u00e9-sal logo se esvaziou, com a mudan\u00e7a do regime de concess\u00f5es para partilha, que desorganizou o \u201ccluster\u201d de empresas do setor, devido \u00e0 suspens\u00e3o dos leil\u00f5es de po\u00e7os de petr\u00f3leo por sete anos, e o esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o da Petrobras, que colapsou ainda mais a economia fluminense, em meio \u00e0 recess\u00e3o do governo Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica nos governos do Rio de Janeiro, por\u00e9m, tem uma dimens\u00e3o cultural que precisa ser levada em conta, por causa da glamuriza\u00e7\u00e3o da \u00e9tica da malandragem e da toler\u00e2ncia da elite fluminense com a secular e sistem\u00e1tica captura das pol\u00edticas p\u00fablicas por grandes interesses privados, que levam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de m\u00e1fias de empres\u00e1rios e pol\u00edticos, que drenam os recursos do estado para a constitui\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio, al\u00e9m do compadrio, do fisiologismo e do clientelismo. O consequente apag\u00e3o administrativo favorece, tamb\u00e9m, a ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios cada vez maiores pelo tr\u00e1fico de drogas e pelas mil\u00edcias, protegidos pela banda podre do sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica no Rio de Janeiro tem uma dimens\u00e3o cultural que precisa ser levada em conta, por causa da glamuriza\u00e7\u00e3o da \u00e9tica da malandragem\u201d Escrevo a coluna com o som na caixa. 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