{"id":5068,"date":"2020-09-06T09:15:23","date_gmt":"2020-09-06T12:15:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5068"},"modified":"2020-09-06T09:15:23","modified_gmt":"2020-09-06T12:15:23","slug":"os-donos-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/os-donos-do-poder\/","title":{"rendered":"Os donos do poder"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201c<em>\u00c9 impressionante como a pol\u00edtica de parentela, cujas origens s\u00e3o o mandonismo e o patrimonialismo, se reproduz como modelo, dando origem a novos cl\u00e3s pol\u00edticos\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tomo emprestado o t\u00edtulo da coluna da obra j\u00e1 sexagen\u00e1ria de Raymundo Faoro (1925-2013), jurista, cientista pol\u00edtico e soci\u00f3logo, considerado um dos grandes int\u00e9rpretes do Brasil, autor de Os Donos do Poder: Forma\u00e7\u00e3o do patronato pol\u00edtico brasileiro (1958), uma leitura weberiana da nossa realidade. Seu olhar amplo e profundo sobre a nossa forma\u00e7\u00e3o como na\u00e7\u00e3o desnuda as origens e a ess\u00eancia do mandonismo e do patrimonialismo, ra\u00edzes do autoritarismo brasileiro, associando-o \u00e0s elites que dominaram o pa\u00eds desde o per\u00edodo colonial, \u201corganizando o poder pol\u00edtico de forma an\u00e1loga ao poder dom\u00e9stico\u201d. Isso resultou num Estado mais forte do que a sociedade, \u201cem que o poder centr\u00edpeto do rei, no per\u00edodo colonial, e do imperador, ao longo do s\u00e9culo XIX, ou do Executivo, no per\u00edodo republicano, criou forte aparelho burocr\u00e1tico alicer\u00e7ado no sentimento de fidelidade pessoal\u201d.<\/p>\n<p>Remeto-me a Faoro em raz\u00e3o do projeto de reforma administrativa encaminhado pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso, que n\u00e3o vai atingir os atuais servidores, somente os que ingressarem no servi\u00e7o p\u00fablico ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o da reforma. Mas, n\u00e3o essencialmente por essa raz\u00e3o, mas, sim, pelo fato de que o chamado \u201cpoder instalado\u201d n\u00e3o ser\u00e1 atingido pela reforma nem agora nem depois: com o fim do regime \u00fanico, parlamentares, magistrados (ju\u00edzes, desembargadores, ministros dos tribunais superiores), promotores e procuradores e militares, a elite do servi\u00e7o p\u00fablico, ter\u00e3o regras diferentes dos servidores comuns. O velho barnab\u00e9, cujas agruras e revolta Oduvaldo Vianna Filho resumiu na figura do Manguari Pistol\u00e3o, o anti-her\u00f3i de Rasga Cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 que pagar\u00e1 a conta da reforma, quando muito mais poderia ser feito se a austeridade e a transpar\u00eancia valessem realmente para todos.<\/p>\n<p>Ao analisar a rela\u00e7\u00e3o entre as oligarquias regionais e o poder central, que se reproduziu nos diversos per\u00edodos republicanos, Faoro destaca que \u201co estamento burocr\u00e1tico, fundado no sistema patrimonial do capitalismo politicamente orientado, adquiriu o conte\u00fado aristocr\u00e1tico, da nobreza da toga e do t\u00edtulo. A press\u00e3o da ideologia liberal e democr\u00e1tica n\u00e3o quebrou, nem diluiu, nem desfez o patronato pol\u00edtico sobre a na\u00e7\u00e3o\u201d. A proposta de reforma parece confirmar o diagn\u00f3stico. Alguns acusam Faoro de n\u00e3o reconhecer o papel modernizador de nossa elite burocr\u00e1tica, principalmente nos per\u00edodos pombalino, no Segundo Imp\u00e9rio e no primeiro governo Vargas, per\u00edodos que a obra analisa, e que viria a se repedir durante o regime militar. N\u00e3o foi mero acaso a grande repercuss\u00e3o que teve a reedi\u00e7\u00e3o da obra nos anos 1970, seu diagn\u00f3stico se confirmou no regime militar e ainda nos parece atual.<\/p>\n<p><b>Fam\u00edlias poderosas<\/b><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a exclus\u00e3o do \u201cpoder instalado\u201d representa meia aprova\u00e7\u00e3o da reforma administrativa pelo Congresso, porque os lobbies mais poderosos contra o fim dos privil\u00e9gios s\u00e3o corporativos e atuam diretamente junto aos parlamentares. Na verdade, trata-se de uma velha alian\u00e7a, que se manteve ao longo da hist\u00f3ria. Com toda a renova\u00e7\u00e3o que houve nas elei\u00e7\u00f5es de 2018, por exemplo, o n\u00famero de parlamentares com v\u00ednculos familiares com velhas oligarquias do pa\u00eds chega a 172, sendo 138 ligados a cl\u00e3s pol\u00edticos com representa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias esferas de Poder, inclusive no Executivo, no Judici\u00e1rio e no Minist\u00e9rio P\u00fablico. Se formos considerar, ainda, outros grupos, como a bancada ruralista, os militares e os pastores evang\u00e9licos, o poder de interven\u00e7\u00e3o desses segmentos na vota\u00e7\u00e3o da reforma administrativa para manter seus privil\u00e9gios ser\u00e1 bastante significativo.<\/p>\n<p>Em alguns estados, os cl\u00e3s pol\u00edticos dominam a representa\u00e7\u00e3o parlamentar completamente, como a Para\u00edba, com 12 deputados, dez dos quais ligados a fam\u00edlias pol\u00edticas tradicionais. No Senado, seus tr\u00eas representantes s\u00e3o ligados a velhas oligarquias regionais. Se formos considerar a composi\u00e7\u00e3o dos partidos, veremos que o eixo das alian\u00e7as do presidente Bolsonaro com o Centr\u00e3o, na C\u00e2mara, passa, principalmente, pela chamada \u201cbancada dos parentes\u201d: PP e PSD t\u00eam 18 parlamentares com essa caracter\u00edstica, cada; MDB, 17; PR, 16; PTB, nove; PRB, oito; SD, seis; PSL, quatro. Sobra para quase todos os partidos, entre os quais se destacam PSDB, 13; DEM e PT, 12; PSB, 11; PDT, nove; PRB, oito; PCdoB, quatro; PROS, tr\u00eas. No Senado, a \u201cbancada dos parentes\u201dcaiu de 39 para 24 senadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 cl\u00e3s pol\u00edticos que protagonizam a pol\u00edtica de seus estados, alguns com grande tradi\u00e7\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o nacional. No Maranh\u00e3o, a fam\u00edlia do ex-presidente Sarney; no Cear\u00e1, os Ferreira Gomes; no Rio Grande do Norte, os Alves e os Maias; em Goi\u00e1s, os Caiado e os Bulh\u00f5es; no Paran\u00e1, os Richa; em Alagoas, os Calheiros; na Bahia, os Magalh\u00e3es; no Par\u00e1, os Barbalho; em Pernambuco, os Arraes e Bezerra\/Coelho; na Para\u00edba, os Maranh\u00e3o, Vital do Rego, Cunha Lima e Ribeiro; no Acre, os Vianna; em Tocantins, os Abreu.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante como a pol\u00edtica de parentela, cujas origens s\u00e3o o mandonismo e o patrimonialismo, se reproduz como modelo de poder familiar, dando origem a novos cl\u00e3s pol\u00edticos. O mais novo e poderoso deles \u00e9 o cl\u00e3 Bolsonaro, que se constituiu antes da chegada ao poder central, numa faixa obscura e sinuosa de rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com setores ligados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica no Rio de Janeiro, mas que aprendeu a atuar e se reproduzir na conviv\u00eancia com o baixo clero do Congresso, no qual a \u201cbancada dos parentes\u201d atua como peixe dentro d\u2019\u00e1gua. O presidente Jair Bolsonaro trouxe para o centro do poder decis\u00e3o os filhos Fl\u00e1vio (Republicanos-RJ), senador; Carlos Bolsonaro (Republicanos), vereador carioca; e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado federal. Quem quiser que se iluda, esse novo cl\u00e3 pol\u00edtico manda na agenda do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 impressionante como a pol\u00edtica de parentela, cujas origens s\u00e3o o mandonismo e o patrimonialismo, se reproduz como modelo, dando origem a novos cl\u00e3s pol\u00edticos\u201d Tomo emprestado o t\u00edtulo da coluna da obra j\u00e1 sexagen\u00e1ria de Raymundo Faoro (1925-2013), jurista, cientista pol\u00edtico e soci\u00f3logo, considerado um dos grandes int\u00e9rpretes do Brasil, autor de Os Donos do Poder: Forma\u00e7\u00e3o do patronato [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":4222,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4,7,113,8,9,3],"tags":[130,340,804,803,802,160],"class_list":["post-5068","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-congresso","category-governo","category-justica","category-militares","category-partidos","category-politica-2","category-politica","tag-bolsonaro","tag-burocracia","tag-mandonismo","tag-patriarcado","tag-patrimonialismo","tag-reforma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5068"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5075,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5068\/revisions\/5075"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}