{"id":5119,"date":"2020-09-23T07:41:08","date_gmt":"2020-09-23T10:41:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5119"},"modified":"2020-09-23T07:41:08","modified_gmt":"2020-09-23T10:41:08","slug":"na-entrelinhas-chauvinismo-e-xenofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/na-entrelinhas-chauvinismo-e-xenofobia\/","title":{"rendered":"Na entrelinhas: Chauvinismo e xenofobia"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Al\u00e9m do preconceito \u00e9tnico, h\u00e1 um vi\u00e9s de intoler\u00e2ncia religiosa muito forte na fala de Bolsonaro, porque o caboclo \u00e9 uma \u201centidade\u201d do sincretismo religioso entre africanos e \u00edndios<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Nicolas Chauvin foi um soldado franc\u00eas condecorado por Napole\u00e3o Bonaparte por sobreviver a v\u00e1rios combates, severamente mutilado, depois de ser ferido 17 vezes. Tornou-se uma lenda para os franceses, at\u00e9 que as com\u00e9dias escrachadas de vaudeville come\u00e7aram a ridicularizar sua ingenuidade e fanatismo, dando origem ao termo que hoje \u00e9 muito utilizado para caracterizar o sentimento ultranacionalista que leva os indiv\u00edduos a odiar as minorias e perseguir os estrangeiros. Na d\u00e9cada de 1970, as feministas dos Womens`s Lib deram uma conota\u00e7\u00e3o mais abrangente ao termo, ao chamar os machistas de \u201cporcos chauvinistas\u201d.<\/p>\n<p>Por causa de seu discurso de ontem na Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro entrou para o rol dos l\u00edderes pol\u00edticos chauvinistas da atualidade, o que n\u00e3o \u00e9 bom para nenhum chefe de Estado nem para o Brasil, em particular. Seu discurso nacionalista n\u00e3o chegou a ser histri\u00f4nico, mas fugiu \u00e0 verdade e ignorou a realidade, sendo muito contestado interna e externamente. Al\u00e9m do chauvinismo, Bolsonaro revelou certa xenofobia, ao culpar os caboclos e \u00edndios pelos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia e Pantanal.<\/p>\n<p>Xenofobia \u00e9 outra palavra muito feia. Refere-se ao sentimento de hostilidade e \u00f3dio manifestado contra pessoas por elas serem estrangeiras ou serem enxergadas como estrangeiras. Trata-se de um preconceito social muito comum no mundo por causa do fluxo de migra\u00e7\u00f5es. \u00c1rabes e mu\u00e7ulmanos sofrem com isso na Europa, mexicanos e latinos nos Estados Unidos. Geralmente, a xenofobia est\u00e1 associada ao racismo. A forma como Bolsonaro trata os \u00edndios no Brasil sempre teve essa conota\u00e7\u00e3o xen\u00f3foba; a novidade \u00e9 o preconceito que revelou na ONU em rela\u00e7\u00e3o aos caboclos brasileiros.<\/p>\n<p>Certos fen\u00f4menos da vida brasileira n\u00e3o se explicam pela sociologia ou pela ci\u00eancia pol\u00edtica, somente podem ser compreendidos quando nos socorremos da antropologia. A elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, por exemplo, sua capacidade de se amalgamar aos evang\u00e9licos e capturar o sentimento de preserva\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia unicelular patriarcal nas camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, amea\u00e7ada pelas dificuldades econ\u00f4micas e as mudan\u00e7as de costumes. Em contrapartida, Bolsonaro n\u00e3o consegue entender o nosso sincretismo religioso e o peso da miscigena\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o da identidade brasileira. Se entendesse, n\u00e3o trataria com tanto preconceito os ind\u00edgenas e os caboclos da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>Miscigena\u00e7\u00e3o e sincretismo<\/strong><br \/>\nO caboclo tem uma cultura de selva adquirida dos \u00edndios. Por\u00e9m, manteve a l\u00edngua, a religiosidade e certos costumes dos portugueses, ao longo de secular abandono. \u00c9 um comportamento semelhante ao do mo\u00e7ambicano branco, mas muito diferente do b\u00f4er sul-africano, que renegou as origens, inventou uma nova l\u00edngua e se considera a grande tribo branca da \u00c1frica. Todos ficaram insulados ap\u00f3s a expuls\u00e3o dos holandeses do Nordeste brasileiro. Explico: quando os holandeses chegaram ao Recife, em 1630, para controlar o a\u00e7\u00facar, perceberam que o que dava dinheiro n\u00e3o era s\u00f3 plantar cana e produzir a\u00e7\u00facar, mas tamb\u00e9m vender africanos para os senhores de engenho. Sa\u00edram do Recife em 1641 para atacar Angola e dominar o tr\u00e1fico negreiro para o Brasil. Quando come\u00e7ou a guerra de guerrilhas em Pernambuco para expuls\u00e1-los, Salvador de S\u00e1 organizou uma expedi\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro para expulsar os holandeses de Angola, em 1648. Cerca de 2 mil portugueses, por\u00e9m, ficaram largados na Amaz\u00f4nia, para onde haviam sido enviados em 1637, para explorar o cacau e a castanha, produtos de grande valor comercial.<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os portugueses para manter o controle da regi\u00e3o, notadamente do Marqu\u00eas de Pombal, ap\u00f3s o Tratado de Madri (1750), por meio da fortifica\u00e7\u00e3o de suas fronteiras \u2014 Bel\u00e9m, Gurup\u00e1, Manaus, Santar\u00e9m, Almeirim, \u00d3bidos, Tabatinga, S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, Guapor\u00e9, Macap\u00e1 e outros \u2014, a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia nacional somente veio a ocorrer no s\u00e9culo XIX, com o Ciclo da Borracha (1870-1912), quando aproximadamente 300 mil nordestinos migraram para seus seringais. Mas a cultura amaz\u00f4nida do caboclo j\u00e1 estava dada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do preconceito \u00e9tnico, h\u00e1 um vi\u00e9s de intoler\u00e2ncia religiosa muito forte na fala de Bolsonaro, porque o caboclo \u00e9 uma \u201centidade\u201d do sincretismo religioso entre africanos e \u00edndios. Nas religi\u00f5es ou seitas afro-brasileiras, \u00e9 a designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica dos esp\u00edritos de ancestrais ind\u00edgenas brasileiros que supostamente surgem nas cerim\u00f4nias rituais e que foram idealizados, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, segundo os modelos de orix\u00e1s da teogonia jeje-nag\u00f4 e do indianismo liter\u00e1rio rom\u00e2ntico. Na Umbanda, s\u00e3o guerreiros en\u00e9rgicos, procurados pelos conselhos sensatos e passes poderosos. Bolsonaro mexeu com Ubirajara, Tupiara, Cobra Coral, Pena Branca, Sete Flechas, \u00c1guia Dourada, Sete Espadas, Espada Flamejante, Sete Lan\u00e7as, Tabajara, Tamoio, Sete Ondas, Sete Matas, Caboclo Pantera Negra, Tupuruplata, Rompe-Mato, Caboclo Apeiara, Ararib\u00f3ia, Rompe-Ferro, Pena Vermelha, Beira Mar, Cai\u00e7ara e Sete Caminhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m do preconceito \u00e9tnico, h\u00e1 um vi\u00e9s de intoler\u00e2ncia religiosa muito forte na fala de Bolsonaro, porque o caboclo \u00e9 uma \u201centidade\u201d do sincretismo religioso entre africanos e \u00edndios Nicolas Chauvin foi um soldado franc\u00eas condecorado por Napole\u00e3o Bonaparte por sobreviver a v\u00e1rios combates, severamente mutilado, depois de ser ferido 17 vezes. 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