{"id":5133,"date":"2020-09-27T08:46:07","date_gmt":"2020-09-27T11:46:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5133"},"modified":"2020-09-27T08:46:07","modified_gmt":"2020-09-27T11:46:07","slug":"nas-entrelinhas-todos-os-homens-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-todos-os-homens-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Todos os homens de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O presidente s\u00f3 pensa na reelei\u00e7\u00e3o, que parece ao alcance das m\u00e3os. O que acontecer\u00e1 com a democracia brasileira se controlar o Judici\u00e1rio e passar o rodo no Congresso, em 2022?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Para quem leu Todos os Homens do Kremlin (Editora Vest\u00edgio), de Mikhail Zygar, ex-editor-chefe da \u00fanica emissora de TV independente da R\u00fassia, a TV Rain (Dozhd), o paralelo com o presidente Jair Bolsonaro e sua atua\u00e7\u00e3o no poder \u00e9 inevit\u00e1vel, resguardadas, \u00e9 \u00f3bvio, as diferen\u00e7as de contexto hist\u00f3rico e nacional. Como Vladimir Putin, Bolsonaro tornou-se presidente porque soube aproveitar a oportunidade, bafejado pela sorte. Diferentemente do presidente russo, por\u00e9m, n\u00e3o era um candidato do sistema: o homem certo na hora certa para o ent\u00e3o presidente Boris Yeltsin, o pol\u00edtico carism\u00e1tico, beberr\u00e3o e imprevis\u00edvel, que implodiu a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, destronando Mikhail Gorbatchev, e liderou a transi\u00e7\u00e3o selvagem para o capitalismo na Federa\u00e7\u00e3o Russa. Bolsonaro foi um candidato antisistema, que surfou o tsunami eleitoral de 2018, na onda de insatisfa\u00e7\u00e3o popular com os pol\u00edticos gerada pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p>As semelhan\u00e7as s\u00e3o maiores quando levamos em conta que Putin n\u00e3o tinha uma estrat\u00e9gia de poder \u2013\u2013 foi administrando as circunst\u00e2ncias para mant\u00ea-lo. Ex-chefe da FSB, usou a for\u00e7a do Estado para afastar aliados indesej\u00e1veis, proteger os amigos de S\u00e3o Petersburgo e da antiga KGB, seduzir os militares e liquidar os advers\u00e1rios. Os instrumentos de coer\u00e7\u00e3o do Estado \u2013\u2013 os servi\u00e7os de intelig\u00eancia, a pol\u00edcia, o Minist\u00e9rio P\u00fablico e o Judici\u00e1rio \u2013\u2013 foram fundamentais para a consolida\u00e7\u00e3o de sua longa perman\u00eancia no poder, depenando oligarcas que se apoderaram das estatais russas, favorecendo os empres\u00e1rios amigos e eliminando poss\u00edveis concorrentes eleitorais. Putin acreditou que seria bem recebido pelos l\u00edderes das grandes pot\u00eancias ocidentais, mas logo se viu frustrado por Angela Merkel, a primeira-ministra alem\u00e3; Nicolas Sarkozy, o presidente franc\u00eas; e, principalmente, Barack Obama, o presidente negro dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Arreganhou os dentes quando chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que todos queriam enfraquecer a Federa\u00e7\u00e3o Russa e afast\u00e1-la das antigas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas. E de que o menosprezavam, tratando-o como um personagem menor na cena internacional. Esse sentimento de rejei\u00e7\u00e3o somente aumentou ao longo dos anos, mas teve como resposta o endurecimento da pol\u00edtica externa russa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas da Ge\u00f3rgia e da Ucr\u00e2nia, e ao Oriente M\u00e9dio. A decis\u00e3o estrat\u00e9gica de manter o ditador da S\u00edria, Bashar al-Assad, no poder a qualquer pre\u00e7o, e assim preservar sua base naval no Mediterr\u00e2neo, foi uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. Da mesma forma, a divis\u00e3o da Ucr\u00e2nia, com a anexa\u00e7\u00e3o da Crim\u00e9ia como uma rep\u00fablica aut\u00f4noma da Federa\u00e7\u00e3o Russa, com o prop\u00f3sito de manter a grande base naval da frota do Mar Negro. Por \u00faltimo, o apoio econ\u00f4mico e militar a Nicol\u00e1s Maduro, na Venezuela.<\/p>\n<p><b>Reelei\u00e7\u00e3o<\/b><br \/>\nNo terceiro mandato de presidente, a rela\u00e7\u00e3o de Putin com o ex-presidente liberal Dmitri Medvedev, com quem tamb\u00e9m se revezou no cargo de primeiro-ministro, hoje \u00e9 de estranhamento. Na verdade, sempre foi tensa, como a de Bolsonaro com o vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o, um general de quatro estrelas. Putin afastou todos os aliados com pol\u00edtica pr\u00f3pria ou a lhe fazer sombra. Bolsonaro fez a mesma coisa. Come\u00e7ou com o general Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo, hoje ocupada pelo general Luiz Ramos, principal articulador pol\u00edtico do governo, e o advogado Gustavo Bebiano, secret\u00e1rio-geral da Presid\u00eancia, j\u00e1 falecido, defenestrado para dar lugar a um ex-assessor parlamentar de inteira confian\u00e7a, Jorge Oliveira. O ex-deputado Onyx Lorenzoni foi deslocado da Casa Civil para o Minist\u00e9rio da Cidadania, para dar lugar ao general Braga Netto. Os ministros da Justi\u00e7a, Sergio Moro, e da Sa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta, no auge do prest\u00edgio, tamb\u00e9m foram defenestrados, sendo substitu\u00eddos pelo advogado da Uni\u00e3o Andr\u00e9 Mendon\u00e7a e outro general, Eduardo Pazuello, respectivamente, dois bem-mandados.<\/p>\n<p>Deputado ligado ao baixo clero durante toda a sua trajet\u00f3ria, para neutralizar qualquer tentativa de impeachment, Bolsonaro montou uma base parlamentar com os partidos do Centr\u00e3o, cujos l\u00edderes \u2014 Gilberto Kassab (PSD-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ), Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Ciro Nogueira (PP-PI) \u2014 apoiam qualquer governo. Trocou os desastrados deputados de extrema direita, que defendiam o seu governo no Congresso, por raposas moderadas do Parlamento: Ricardo Barros (PP-PR), na C\u00e2mara, Fernando Bezerra (MDB-PE), no Senado, e Eduardo Gomes (MDB-TO), no Congresso. E est\u00e1 fritando o ministro da Economia, Paulo Guedes, um economista ultraliberal, cada vez mais isolado no governo.<\/p>\n<p>Qual foi a estrat\u00e9gia de Putin para manter sua popularidade ao longo de duas d\u00e9cadas? Domar o Parlamento, controlar o Judici\u00e1rio, estreitar a alian\u00e7a com a Igreja Ortodoxa, estimular o nacionalismo russo e o conservadorismo machista e homof\u00f3bico. Putin transformou a jovem democracia russa numa ditadura da maioria, no qual assume um papel cada vez mais autocr\u00e1tico. Mais populista do que nunca, Bolsonaro recuperou a popularidade, apesar da pandemia, e s\u00f3 pensa na reelei\u00e7\u00e3o, que parece ao alcance das m\u00e3os. 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