{"id":515,"date":"2016-05-10T08:05:16","date_gmt":"2016-05-10T11:05:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=515"},"modified":"2016-05-10T08:05:16","modified_gmt":"2016-05-10T11:05:16","slug":"nas-entrelinhas-yes-nos-temos-banana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-yes-nos-temos-banana\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:   Yes, n\u00f3s temos banana"},"content":{"rendered":"<p><em>A chicana governista para barrar o impeachment, uma esp\u00e9cie de jabuticaba institucional e de banana para o distinto p\u00fablico, foi ignorada pelo presidente do Senado<\/em><\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio do Planalto resolveu avacalhar o Congresso para melar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A manobra articulada pelo advogado-geral da Uni\u00e3o, Jos\u00e9 Eduardo Cardoso, para anular a vota\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara, por meio de ato do seu presidente em exerc\u00edcio, Waldir Maranh\u00e3o (PP-PB), e sustar o julgamento do pedido pelo Senado, seria apenas um jus esperneandi se n\u00e3o servisse para lan\u00e7ar o pa\u00eds em mais confus\u00e3o pol\u00edtica, perturbar o mercado financeiro \u2014 a Bolsa despencou, o d\u00f3lar subiu \u2014 e sinalizar para o mundo que o Brasil virou uma republiqueta de bananas. No final da noite, Maranh\u00e3o revogou a pr\u00f3pria decis\u00e3o.<\/p>\n<p>A carnavaliza\u00e7\u00e3o da vida nacional \u00e9 um estere\u00f3tipo constru\u00eddo durante a 2\u00aa Guerra Mundial, quando o ditador Get\u00falio Vargas, que namorava o Eixo e, ao mesmo tempo, barganhava vantagens nas negocia\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos para o Brasil, entra na guerra junto aos Aliados. Nessa \u00e9poca, a Secretaria de Estado norte-americana, para seduzir os brasileiros, estimulou a produ\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios filmes e desenhos animados que exaltavam o nosso pa\u00eds, levando para Hollywood artistas como Carmem Miranda, Dorival Caymmi e o compositor Ary Barroso.<\/p>\n<p>O resultado foi a constru\u00e7\u00e3o de um estere\u00f3tipo de para\u00edso tropical, sensual, que nada leva a s\u00e9rio, apesar das pr\u00f3prias mazelas. Para isso, foram produzidos personagens como Z\u00e9 Carioca, de Walt Disney, e Carmem Miranda teve seu talento reconhecido e projetado mundialmente. Num de seus filmes, The Lady In The Tutti Frutti Hat, ela chega num carro de bois cheio de cachos de banana, com Harry Belafonte cantando ao fundo. A fruta \u00e9 tratada como s\u00edmbolo f\u00e1lico, como na famosa marchinha de carnaval de 1938, de autoria de uma craque do g\u00eanero, Braguinha. Yes, n\u00f3s temos banana, gravada por Carmem Miranda, exaltava, com bom humor, as qualidades da fruta. Diz o refr\u00e3o: Yes, n\u00f3s temos banana\/Banana pra dar e vender\/ Banana, menina tem vitamina\/ Banana engorda e faz crescer. E arrematava ao fim: Ouro do bolso da gente\/ N\u00e3o sai velho ou menino, homem ou mulher\/ Banana para quem quiser. At\u00e9 hoje a m\u00fasica \u00e9 executada e cantada durante o carnaval.<\/p>\n<p>Apesar de tropical, a banana n\u00e3o \u00e9 genuinamente nacional, caso da nossa jabuticaba. Veio da \u00c1sia, onde \u00e9 cultivada h\u00e1 mais de 4 mil anos. Chegou \u00e0 Europa no s\u00e9culo 1 a.C., levada pelos romanos. A expans\u00e3o do Isl\u00e3 levou a banana para a \u00c1frica, de onde veio para o Brasil, trazida pelos portugueses. Gra\u00e7as a isso, nos transformamos num dos maiores produtores mundiais e exportadores para os Estados Unidos, da\u00ed o sucesso do filme estrelado por Carmem Miranda. A m\u00fasica de Braguinha retratava um pa\u00eds agr\u00edcola, que produzia algod\u00e3o, bananas, caf\u00e9 e mate, o que era fato na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Esp\u00e9cie de jabuticaba institucional e de banana simb\u00f3lica para o distinto p\u00fablico, a chicana governista patrocinada por Maranh\u00e3o foi simplesmente ignorada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), depois de consulta aos l\u00edderes da Casa. Renan classificou a atitude de Maranh\u00e3o como uma brincadeira com a democracia. N\u00e3o pode, por\u00e9m, ser vista como uma a\u00e7\u00e3o isolada, tamanha a afronta que representou \u00e0 maioria dos deputados que aprovou o impeachment na C\u00e2mara e desrespeito com o Senado, cuja comiss\u00e3o especial j\u00e1 havia aprovado parecer favor\u00e1vel ao impeachment por ampla maioria. O objetivo da chicana era judicializar o impeachment, cuja fase de julgamento ser\u00e1 conduzida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que assumir\u00e1 a presid\u00eancia do Senado ap\u00f3s o afastamento de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Sob vara<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel que a presidente Dilma Rousseff n\u00e3o soubesse com anteced\u00eancia do fato, como disse em audi\u00eancia, uma vez que o advogado-geral da Uni\u00e3o, Jos\u00e9 Eduardo Cardozo, admitiu que se reuniu com Maranh\u00e3o na sexta-feira e no domingo \u00e0 noite, al\u00e9m de reconhecer que o governador do Maranh\u00e3o, Fl\u00e1vio Dino (PCdoB), participou diretamente da manobra. Renan ignorou a decis\u00e3o do presidente interino da C\u00e2mara, mas surpreendeu o plen\u00e1rio ao exigir que a cassa\u00e7\u00e3o do senador Delc\u00eddio do Amaral (MS), ex-l\u00edder do governo no Senado, fosse votada hoje, antes da admissibilidade do impeachment de Dilma, cuja aprecia\u00e7\u00e3o foi mantida para amanh\u00e3. Caso aprovada, o vice Michel Temer assumir\u00e1 a Presid\u00eancia provisoriamente. E o Senado ter\u00e1 at\u00e9 180 dias para julgar o pedido.<\/p>\n<p>Com tanta confus\u00e3o, a imagem do pa\u00eds no exterior \u00e9 cada vez pior. H\u00e1 meses, o Pal\u00e1cio do Planalto trabalha os correspondentes estrangeiros e jornalistas no exterior para consolidar internacionalmente a narrativa de que um golpe de Estado est\u00e1 em curso no pa\u00eds. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 o pior poss\u00edvel: n\u00e3o conseguiu emplacar sua vers\u00e3o nas chancelarias e principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o; em contrapartida, a imagem do pa\u00eds \u00e9 cada vez pior, ainda mais porque existe tamb\u00e9m o protagonismo da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e de outras investiga\u00e7\u00f5es, como a Zelotes, que ontem levou o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega a depor sob vara, ou seja, condu\u00e7\u00e3o coercitiva. Mais uma not\u00edcia negativa de grande repercuss\u00e3o internacional.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TLsTUN1wVrc\"><!--more--><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chicana governista para barrar o impeachment, uma esp\u00e9cie de jabuticaba institucional e de banana para o distinto p\u00fablico, foi ignorada pelo presidente do Senado O Pal\u00e1cio do Planalto resolveu avacalhar o Congresso para melar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 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