{"id":5162,"date":"2020-10-04T07:03:31","date_gmt":"2020-10-04T10:03:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5162"},"modified":"2020-10-04T07:16:44","modified_gmt":"2020-10-04T10:16:44","slug":"nas-entrelinhas-quem-e-o-lider-da-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-quem-e-o-lider-da-economia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Quem \u00e9 o l\u00edder da economia?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Guedes perde a lideran\u00e7a da economia para os pol\u00edticos do Nordeste, que prometem votos em troca de R$ 300, porque n\u00e3o oferece empregos nem seguran\u00e7a aos investidores<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro provavelmente n\u00e3o leu Casa Grande &amp; Senzala, de Gilberto Freyre; talvez tenha lido Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, nos tempos de academia militar, por causa da campanha de Canudos, o maior vexame do Ex\u00e9rcito brasileiro. Mas isso em nada o impede de ter capturado boa parcela do eleitorado do Nordeste, onde obt\u00e9m crescente apoio popular. Esse parece ser o terreno eleitoral no qual sua reelei\u00e7\u00e3o pode ser decidida. Com compet\u00eancia, Bolsonaro est\u00e1 abduzindo o eleitorado nordestino do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Casa Grande &amp; Senzala foi publicado no Rio de Janeiro, em 1933. Hist\u00f3ria, sociologia, antropologia cultural, gastronomia, direito, sociolingu\u00edstica, curiosidades, medicina e uma boa dose de intimidades da vida privada colonial, inclusive sexual, fazem da obra um cl\u00e1ssico da chamada literatura brasiliana. Freyre, um aristocrata pernambucano, ainda provoca muitas pol\u00eamicas. A principal \u00e9 o tratamento dado ao portugu\u00eas colonizador e \u00e0 escravid\u00e3o. Para uns, mascarou o racismo; para outros, resgatou a autoestima do brasileiro.<\/p>\n<p>Freyre compreendeu a miscigena\u00e7\u00e3o como um dos elementos de constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional. \u00c9 muito criticado por isso. S\u00e9rgio Buarque de Holanda (o homem cordial), Raymundo Faoro (patrimonialismo) e Roberto DaMatta (o jeitinho brasileiro) tamb\u00e9m s\u00e3o acusados de generaliza\u00e7\u00f5es exageradas e da absolutiza\u00e7\u00e3o de seus conceitos. Todos constru\u00edram um \u201ctipo ideal\u201d, uma abordagem de vi\u00e9s weberiano que os autores marxistas geralmente condenam. Entretanto, seria imposs\u00edvel compreender o Brasil contempor\u00e2neo sem a ajuda desses autores, at\u00e9 porque a cr\u00edtica a eles veio muito depois, com a maioridade acad\u00eamica das universidades brasileiras.<\/p>\n<p>Freyre fala dos \u00edndios, dos portugueses e dos escravos africanos, com considera\u00e7\u00f5es que alguns consideram at\u00e9 pornogr\u00e1ficas. Ao descrever h\u00e1bitos sexuais, faz coment\u00e1rios machistas e at\u00e9 homof\u00f3bicos. Ao analisar a forma\u00e7\u00e3o do patriarcado brasileiro, no per\u00edodo colonial, op\u00f5e cat\u00f3licos e hereges, jesu\u00edtas e fazendeiros, bandeirantes e senhores de engenho, paulistas e emboabas, pernambucanos e mascates, bachar\u00e9is e analfabetos, senhores e escravos. Mostra que a escravid\u00e3o e o latif\u00fandio fortaleceram a sociedade patriarcal onde o homem branco \u2013 o dono da Casa-Grande \u2013 era o propriet\u00e1rio de terras, escravos, at\u00e9 mesmo de seus parentes, no sentido que ele governava gado e gente. \u00a0Desta maneira, criou-se uma sociedade sempre dependente de um senhor poderoso e incapaz de governar a si mesma.<\/p>\n<p><strong>Travessias<\/strong><\/p>\n<p>Chegamos ao xis da quest\u00e3o. A pol\u00edtica no Nordeste n\u00e3o \u00e9 pior nem melhor do que a de outras regi\u00f5es do pa\u00eds em mat\u00e9ria de clientelismo, fisiologismo e patrimonialismo (o Rio de Janeiro, de cuja elite parte o maior preconceito, que o diga), mas tem a forte caracter\u00edstica de ser dominada por um patriarcado que manteve costumes culturais e pol\u00edticos tecidos no Brasil colonial. Os seis mandatos de deputado federal e suas rela\u00e7\u00f5es com pol\u00edticos do baixo clero, a partir do momento em que se aliou ao Centr\u00e3o, possibilitaram a Bolsonaro a realiza\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as estrat\u00e9gicas no Nordeste, no leito das conex\u00f5es hist\u00f3ricas entre o poder centralizado da Uni\u00e3o e as oligarquias regionais que historicamente lhe deram sustenta\u00e7\u00e3o, a ess\u00eancia da velha \u201cpol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o\u201d que herdamos do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Vem da\u00ed a for\u00e7a que pol\u00edticos nordestinos do Centr\u00e3o, como o ministro do Desenvolvimento Regional, Rog\u00e9rio Marinho, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Arthur Lira (PP-AL) demonstram na queda de bra\u00e7os com o ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o financiamento do programa social Renda Cidad\u00e3. E a facilidade com que Bolsonaro construiu as pontes para se conectar com o eleitorado nordestino, que o derrotara na elei\u00e7\u00e3o de 2018, alicer\u00e7adas no aux\u00edlio emergencial aprovado pelo Congresso durante a pandemia e cimentadas \u00a0por sua narrativa de cunho religioso, que agora incorporou a exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 figura do Padre C\u00edcero, s\u00edmbolo do messianismo cat\u00f3lico brasileiro, que sempre foi um instrumento de constru\u00e7\u00e3o da hegemonia conservadora no Nordeste.<\/p>\n<p>\u201cViver \u00e9 muito perigoso, seu mo\u00e7o\u201d, ainda mais em tempos de pandemia. N\u00e3o sei se Guedes leu Casa Grande &amp; Senzala, o que o ajudaria entender um pouco mais os seus desafetos pol\u00edticos da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes. Mas, como mineiro ilustrado, deve ter lido Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Guimar\u00e3es Rosa. Desculpem-me a compara\u00e7\u00e3o, para sobreviver no cargo, Guedes precisa puxar a faca e se impor como l\u00edder da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo, como faria o jagun\u00e7o Riobaldo. O universo do sert\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o amb\u00edguo, de limites indefin\u00edveis, desafiador e de dif\u00edcil travessia. Cruzar o deserto do Sussuar\u00e3o \u00e9 como desafiar a caatinga. O espa\u00e7o emp\u00edrico se relaciona com a subjetividade humana. Riobaldo explica: \u201cSert\u00e3o \u00e9 isto: o senhor empurra para tr\u00e1s, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sert\u00e3o \u00e9 quando menos se espera; digo\u201d. Como o jagun\u00e7o nas Veredas-Mortas, Guedes est\u00e1 num espa\u00e7o de estranhamento, a Esplanada dos Minist\u00e9rios, simbolicamente, entre a ordem e a desordem, a precis\u00e3o e a imprecis\u00e3o, o Bem e o Mal. Est\u00e1 perdendo a lideran\u00e7a do bando, isto \u00e9, da pol\u00edtica econ\u00f4mica, para os pol\u00edticos do Nordeste, que prometem votos a Bolsonaro em troca de R$ 300, porque n\u00e3o consegue oferecer trabalho aos desempregados nem seguran\u00e7a aos investidores. Simples assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guedes perde a lideran\u00e7a da economia para os pol\u00edticos do Nordeste, que prometem votos em troca de R$ 300, porque n\u00e3o oferece empregos nem seguran\u00e7a aos investidores O presidente Jair Bolsonaro provavelmente n\u00e3o leu Casa Grande &amp; Senzala, de Gilberto Freyre; talvez tenha lido Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, nos tempos de academia militar, por causa da campanha de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37,36,46,4,92,9,3,384,48],"tags":[130,50,243,822,458,821],"class_list":["post-5162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desemprego","category-economia","category-eleicoes","category-governo","category-literatura","category-politica-2","category-politica","category-religiao","category-trabalho","tag-bolsonaro","tag-desemprego","tag-guedes","tag-investimentos","tag-nordeste","tag-renda-basica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5162"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5165,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5162\/revisions\/5165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}